Jiu-Jitsu Adventure MS Ep 17. De La Riva Nova Alvorada do Sul: Um Sábado a Noite de Arte Suave
Na aventura que venho vos relatar, irei lhes contar sobre um lugar que conheço e frequento há muitos anos, mas no qual nunca havia me aprofundado em seu Jiu-Jitsu. Estou falando da cidade de Nova Alvorada do Sul, um dos rincões que há tempos vêm aparecendo no Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul, mas que descobri que só conhecia uma superfície desta cultura artístico-marcial.
Fui convidado por Flávio e Felipe, dois faixas pretas com que eu convivo há muitos anos nos eventos da Federação. Eles são muito ativos, e jogam em todas as posições: seja lutando, seja atuando como técnico de um exército de jovens lutadores, aparecendo como colaboradores dos eventos, ou na arbitragem, na qual sempre que pode, Felipe árbitra e luta no mesmo dia. A energia deles sempre me chamou a atenção, e esta foi uma oportunidade de conhecer isto mais de perto.
Marcamos o dia e horário disto acontecer, um seminário de Guarda Tartaruga em um sábado às 18 horas. Achei o horário que eles escolheram um tanto inusitado, acho que em vinte e seis anos de Jiu-Jitsu, nunca havia dado aula neste limiar do dia com a noite de sábado. Por mais caseiro que seja, quando chega neste ponto, me ressoa na mente o refrão cantado por Lulu Santos: “Todo mundo espera alguma coisa, de um sábado à noite....”. Vejamos o que este sábado a noite de Jiu-Jitsu me trouxe.
Saí de Campo Grande por volta das 16 horas, enquanto a maioria das pessoas se preparava para viver as alegrias e excessos do dia mais divertido da semana, eu seguia minha jornada de explorador. Diria que ia com a mesma alegria e entusiasmo que eles. Quem me acompanhou nesta aventura foi Carlos Jhordan, meu aluno faixa marrom, que já havia viajado comigo em outras oportunidades, mas que pela primeira vez ia como meu auxiliar. Com ele como motorista, seguimos pela BR-163 rumo à cidade de Nova Alvorada do Sul.
De Campo Grande a Nova Alvorada não leva mais de três horas, e a paisagem que via pela janela, era a mim reconhecível e até corriqueira, dadas tantas vezes que percorri tal trajeto. Por muitos anos atravesso aquela BR. Eu cursei mestrado na minha cidade natal, Dourados, e fiz este trajeto inúmeras vezes, e, para além disto, pelo Jiu-Jitsu, outras tantas. Mas naquela vez, era a primeira que iria adentrar a cidade mais a fundo.
Chegamos à cidade com o laranja do fim de tarde sendo tomado pelo escuro da noite. Buscamos a academia no GPS, e acredito que a encontraríamos mesmo sem essa tecnologia que hoje nos parece tão essencial quanto banho quente, mas que, dada a pequenez do município, precisaria não mais que umas duas perguntadas para o povo, que teríamos chegado fácil na famosa De La Riva-Nova Alvorada do Sul.
Quando paramos em frente a academia, já havia alguns jovens aguardando o evento. Ao descer do carro, pude reconhecer alguns rostos dos quais passaram em algum momento por mim nos turbulentos dias de campeonatos nos quais atuei como árbitro. Cumprimentei-os, desta vez sem aquele ar sério que a autoridade de árbitro me exige, os conhecendo de uma outra maneira nesta oportunidade.
Eu fui recebido por Felipe Medeiros, que, junto com Flávio Andrade, há anos toca este projeto de Jiu-Jitsu na região. Felipe é um típico representante das categorias leves, alto esguio, e um representante da classe calva, e Flávio é o seu oposto, um representante dos pesados, e longe do processo de calvície.
Por várias vezes topei com ele nos tatames, estando no lado do árbitro, desta vez seria a primeira que estaria ao seu lado em um treinamento e não em um campeonato. Sendo efusivamente recebido por eles, fui para dentro me trocar para ficar pronto para o seminário.
Quando adentrei a academia, um prédio extenso e alto, com uma boa estrutura ornamentada pela cor negra, o que me chamou mais a atenção não foram os aspectos estéticos, e sim o logo em vermelho com letras douradas, que apresenta a filiação da escola, De La Riva. Neste momento fui tomado por um sentimento nostálgico, pois em algum lugar no passado, aquela bandeira fora a minha também.
Mais de vinte anos no passado, eu era um jovem integrante da Equipe De La Riva-MS, capitaneado naquele tempo por Emilio China, um dos meus professores, e que foi aluno direto de Ricardo De La Riva, o homem que criou esta dinastia. Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente nestes anos em que fiz parte da equipe, sendo inclusive graduado à faixa roxa pelo mesmo, aos dezoito anos de idade... Um tempão já.
Me troquei, e em seguida fui recebido por Flávio, que foi quem organizou toda a minha vinda, e que me pareceu ser o lado mais da logística e organização da academia. Posso dizer que Flávio é um verdadeiro entusiasta da arte, sendo difícil balizar quem gosta mais disto, ele ou Felipe, os dois são realmente apaixonados pelo que fazem, e estavam muito empolgados com a minha presença, então, melhor seria corresponder a expectativa.
O tatame começou a encher, aparecendo cada vez mais crianças e pré-adolescentes que via constantemente nos campeonatos, além de gente adulta, que havia vindo direto da lida para o evento, e até alguns que passaram dos tempos de juventude. Um elemento que me chamou a atenção, foi que o grupamento era composto em boa parte por mulheres de todas as idades. Tínhamos, naquela noite, um tatame heterogêneo, me demonstrando que a De La Riva Nova Alvorada do Sul vai muito além da força de seus jovens prodígios. E para todos eles e elas, aquela era a balada de sábado à noite.
Começamos o evento, e a cada exercício proposto, conseguia sentir atenção e dedicação deles, que se esforçavam para polir os movimentos com destreza. Realmente aqueles jovens têm talento para a parada. Os adultos e Masters também se dedicaram de forma exemplar, mas os jovens eram os que ficaram bem perto, querendo um contato mais próximo com a técnica que lhes estava ensinando. Por fim, ofereci meu prêmio, um grau para quem pegasse minhas costas, e vi se formar uma turma destes prodígios em busca do prêmio.
Neste ponto larguei meu auxiliar, Carlos Jhordan aos adultos, e me pus a brincar de Jiu-Jitsu com aquela molecada. Foram diversas tentativas deles e delas, e me esforcei ao máximo para que o desafio valesse a pena tentarem, e posso lhes dizer que, me senti contagiado pela empolgação juvenil com a arte suave, energia que me lembrou de mim mesmo naquela idade, em um tempo em que era fascinado pela ideia do poder da arte marcial, querendo experimentar cada prática ao limite. Neste tempo juvenil, a estrada se mostra tão longa que não parece ter fim, então aceleramos a toda.
Tive a oportunidade de treinar com a dupla de professores. Se seus jovens pupilos davam o máximo de si naquela prática, na vontade, determinação e entusiasmo, eles tinham a quem puxar. Flávio e Felipe realmente transbordam sua paixão pela arte suave, algo que contagia o ambiente daquela academia.
Terminei o evento encharcado de suor, visto que Nova Alvorada mesmo às vinte da noite, se mostra um lugar muito quente no verão, o que até me fez entender e aprovar a ideia do seminário ter sido sábado à noite.
Flávio e Felipe me agradeceram efusivamente, e pude ver no rosto daqueles e daquelas jovens, e adultos também, que me conheceram para além da arbitragem, ofício que muito me honra exercer, mas que por vezes me distância do artista marcial de combate que fui. Ao fim do seminário, eu fui muito agradecido pelo tempo que passamos, e cada aluno e aluna que me cumprimentou, demonstrou reconhecimento pelo que havia ensinado naquela noite.
A impressão que tinha daqueles jovens assistindo-os em sua jornada de competidores, se concretizou, na De La Riva Nova Alvorada do Sul, tem muitos\as praticantes talentosos\as, com totais condições de percorrerem uma longa estrada, e apoiados por sua dupla de professores, estão muito bem assessorados nesta viagem.
Nossa balada de sábado à noite terminou quase com o relógio se aproximando das vinte e uma horas. Totalmente exausto, a juventude que antes havia me tomado o corpo, se foi junto com aqueles\las jovens prodígios, e meu organismo apontou a idade biológica real de sua existência. Saindo da academia, paramos em uma conveniência para nos reestabelecer antes da volta. O lugar está abarrotado de gente, buscando nos prazeres da noite, o sentido de sua alegria.
Observei que dentre os frequentadores daquele estabelecimento havia também gente jovem, não na idade dos que haviam treinado, mas em poucos anos aquele pessoal do Jiu-Jitsu estaria na idade da galera da conveniência. Não sou moralista, tampouco quero dizer o que é certo ou errado, mas, acredito que o Jiu-Jitsu oferecido na De La Riva- Nova Alvorada do Sul é um programa de sábado à noite bem mais saudável que os excessos da vida noturna local.
Nova Alvorada do Sul para mim era um ponto de passagem, do qual as margens da BR-163 eram toda a extensão da cultura que conhecia daquela localidade. Desde que este evento aconteceu, retornei mais duas vezes, durante um campeonato do circuito da Federação, em que pude ver de camarote um dos garotos que fez o seminário aplicar em suas lutas a técnica que havia ensinado, me deixando orgulhoso. E retornei algumas semanas depois para a cobertura do seminário de um dos maiores nomes do Jiu-Jitsu da atualidade, João Myao. Todos estes eventos não aconteceriam sem o empenho e a vontade de Flávio e Felipe.
Posso pôr fim, lhes dizer que, definitivamente, Nova Alvorada do Sul deixa de ser apenas uma passagem entre a capital e o Sul do estado. Esta pequena cidade vem se tornando um dos epicentros do Jiu-Jitsu Sul-Mato-Grossense, que pela vontade dos idealizadores e praticantes deste projeto, ainda irá se destacar no mapa por muito tempo.



Oss!
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