Jiu-Jitsu Adventure MS Ep.15 Checkmat- Campo Grande: Templo da Porradaria
De volta a estrada! Depois de um
tempo, não diria parado, mas estacionado neste projeto, a vida abriu um espaço,
ou eu mesmo criei esta possibilidade de retorno, não sei ao certo, só sei que
mais uma vez me embrenhei pelas aventuras nos tatames do Mato Grosso do Sul.
Desta vez, lhes trago a experiência de visitar um dos maiores, se não o maior,
centro de prática desta arte marcial no estado, a Checkmat- Campo Grande.
Esta aventura aconteceu em uma
sexta-feira do início do mês de dezembro de 2025. Campo Grande nesta época
alterna seus dias com chuvas intensas, que parecem transformar as ruas em
riachos, e um calor escaldante, que faz subir o vapor de toda água precipitada
antes. E entre nuvens enegrecidas no céu em fim de tarde, parti do conforto de
meu lar rumo a experimentar mais uma aventura de Jiu-Jitsu.
Desta vez fui acompanhado por quem
desde textos passados vem seguindo ao meu lado. O amor venceu! (Por enquanto
vem vencendo...) e minha companheira da vida, Luana, foi quem ao meu lado
encarou esta jornada.
No caminho até a academia, vim pela
janela do carro aproveitando uma das melhores vistas que a cidade oferece, o
traçado da paisagem da Orla Morena. Ao fundo os prédios da cidade formam a
imagem de um centro urbano em verticalização, mas ao meu redor o clima de final
de expediente, com gente passeando tranquilo ao ar livre, me fazendo lembrar
que a vida da cidade acontece no baixo mesmo. E avistei um prédio que me fez recordar
do contato que tenho com esta academia que iria visitar.
Anos antes desta visita, o local da
academia era na Orla Morena, no tempo da Onfit, local que abrigou a
equipe que hoje é a Checkmat- Campo Grande. Nesta época, fiz algumas visitas,
quando a bandeira que defendiam era o da Alliance. Uma memória que me deixou
deste tempo, além de todos os treinos duríssimos que lá fiz, era a vista que
aquela academia tinha. De uma grande janela era possível ver a cidade em todo
seu traçado, com suas luzes reluzindo a grandeza urbanística campo-grandense, uma
visão que sempre me impressionava quando lá treinava.
Não mais que vinte minutos me levaram até o local que aloca hoje a equipe. Quando desci do carro, avistei a bandeira rubro negra hasteada, me dando uma indicação de que estava chegando aonde planejava me aventurar. O prédio é bem alto, assim como a cidade, o Jiu-Jitsu também se verticaliza alçando as alturas. Na fachada, o logo em forma de peça do jogo do qual inspira o nome da equipe, que particularmente acho o conceito muito interessante, demonstra que naquele local se prática, como diria Wallid Ismail, o xadrez do corpo para pessoas inteligentes.
Desci do carro e fiquei observando
a bandeira hasteada, e ao passar pelo portão de entrada, disse para Luana: bem
vinda ao Carioca World. Para quem não sabe, ou desconhece, eu tenho uma
relação bem próxima com um dos líderes desta equipe, o famoso Breno Vidal, mais
lembrado pela alcunha de Carioca, mas que na verdade é um Fluminense oriundo da
cidade de Valença. figura conhecida e reconhecida por onde passa.
Eu e Carioca já lutamos um contra o
outro em competições, participamos de seminários e treinos juntos, arbitramos
em conjunto também, e há quatro anos somos parceiros em um projeto de
entretenimento artístico marcial chamado Pós-Treino Podcast. Uma relação longa...
cheia de aproximações e distanciamentos, que ao longo desta história vou lhes
descrever melhor.
Quando adentrei o prédio e tive o
vislumbre do interior, pude perceber a dimensão da proporção de crescimento que
o time do Carioca tinha tido. Um palacete de Jiu-Jitsu! Um grande galpão de
teto alto, abriga um mar de tatame acinzentado, com confortáveis sofás pretos
de dois lugares distribuídos ao redor. Não era a primeira vez que visitava a
academia, mesmo assim, me impressionei novamente com a dimensão faraónica
daquele espaço.
Em minha chegada, aconteciam dois
treinos simultâneos, e lhes garanto que cabem lá muito mais. Quem ministrava um
dos treinos era um dos personagens desta equipe que conheço bem, Cleytinho,
pois já o havia entrevistado no Podcast. No outro treino ao lado, quem ensinava
era Andrey, conhecido como Sapato, quem não entrevistei ainda, mas que narrei
seu combate no último torneio do Indoor Black Belt. Ao longe eles me
reconheceram e me saudaram com entusiasmo. Os treinos rolavam normalmente, mas
o prato principal da noite viria a seguir, o tradicional Open Mat da
Checkmat- Campo Grande.
O Open Mat é um dos eventos
mais cultuados do estilo de vida do Jiu-Jitsu. Todas as academias podem
frequentar, um tatame em que a bandeira de cada um é aceita e bem recebida. No
passado não era assim...
Se aventurar em uma academia era
certeza de encontrar a famosa “casinha”, que consistia em um treino em que os
mais habilidosos praticantes daquele time viriam um após o outro impor sua
soberania naquele território. Mas, os tempos mudaram, e a Checkmat desde os
tempos de Alliance, realiza um Open Mat, duro é verdade, mas sempre em
clima amistoso e receptivo.
Percorri o longo corredor que levava ao vestiário, um caminho que parecia não ter fim. Eu e Luana nos trocamos, retornamos, e nos sentamos no sofá para aguardar o início do Open Mat. Em um clima de romantismo jitujiteiro, ficamos trajados de quimono abraçadinhos, apreciando o ambiente, aproveitando nosso amor originário nos tatames de prática da arte suave.
Comentava com ela que havia gostado da ornamentação da academia, eu particularmente aprecio os tons cinzas, e achei que a decoração trouxe uma sensação de calmaria, misturado com fluidez, mantendo-se alinhada a energia da prática intensa que ocorria no tatame. Mas, os ventos tranquilos só duram até a chegada dele, o astro da companhia, Breno Carioca!
Durante a pandemia, naquele longo tempo enclausurado em casa, fui exposto a um modelo novo de comunicação, o Podcast. Na época, o conceito me foi apresentado pelo Flowpodcast, pioneiro na expansão deste gênero no Brasil. Fiquei vendo aquilo durante aquele longo período de reclusão, e fui gostando do formato. Aí durante um banho quente, tive um insight de que poderia haver um programa naquele formato com o pessoal do Jiu-Jitsu, e em específico com os personagens do cenário local.
Neste processo criativo, diria que quase tudo veio de uma vez só, parece que saí daquele banho com o nome, formato, e modelo do que seria este Podcast. Alguns meses antes disto, Breno Carioca havia se metido em polêmica, algo comum em sua trajetória. Ele havia comentado em um post do Instagram, que divulgava as atividades de um grupo de lutadores locais que iria “defender” a cidade do risco iminente dos “radicais” de esquerda... Parte do comentário dele no Post nunca me esqueci: “Os Avengers de Cristo”.
Alguns destes lutadores se sentiram ofendidos, e vieram cobrar Carioca. Mas ele não se intimidou, e manteve sua postura crítica. O conhecia pouco neste tempo, e admirei a coragem que teve em enfrentar o status quo dos lutadores, defendendo o ponto de vista que a ideia deles era pra lá de equivocada, algo que concordava com ele em gênero, número e grau. Eu o parabenizei virtualmente, e começamos uma conversa, deveras interessante achamos, e por sugestão dele, expomos nossos pontos de vista sobre sociedade e Jiu-Jitsu em mais uma das milhões de Lives dos tempos de Pandemia.
Acreditava que se dez pessoas nos vissem conversando seriam muitas, mas, apareceu mais gente do que imaginei. Nossa conversa fluiu, e percebi que aquele cara que parecia muito diferente de mim à primeira vista, conectava com as ideias e visões que tinha de Jiu-Jitsu. E quando idealizei o programa, Carioca foi o parceiro de cena que pensei de cara.
Mandei uma mensagem na hora que pensei em tudo, e quase que instantaneamente ele respondeu topando a empreitada. Não sabíamos nada sobre como se fazer um Podcast. Pesquisamos alguns equipamentos básicos, como eu e ele tínhamos algum dinheiro guardado, algo que não se repetiu, pelo menos para mim, compramos o que julgávamos necessário, e fomos tentar ver como se fazia esse tal de Podcast...
Meu aluno Hiago sabia um pouco sobre produção de conteúdos digitais, na época ele estava estudando este mercado. Ele topou produzir o programa, e com outro aluno meu, arranjaram um espaço para fazermos o Piloto do show. Isso aconteceu na garagem de uma casa.
Quando cheguei no estúdio improvisado, fiquei entusiasmado ao ver todo aquele aparato montado. Sempre fui fascinado por rádio, e achei muito próxima a experiência que se materializava a minha frente. Me sentei na cadeira defronte o microfone, e aguardei a chegada do meu companheiro de cena. Assim como naquele dia que começamos nosso programa, assistia há entrada artística da persona e personagem que Breno representa, o Carioca.
A energia do ambiente
se transforma quando ele chega. Ao longo de quase cem programas que fizemos
juntos, nunca mudou o clima de sua chegada. Sempre que ele adentra um local, a
calmaria é cessada, e parte de um enérgico entusiasmo com pitadas de caos
emana. Mas parte deste incontrolável furacão parece equilibrado pela presença
de sua outra metade, Thayse.
Se o Carioca é expansivo e não passa em qualquer lugar sem que se note sua ilustre presença, Thayse é o oposto. Sempre a percebi como alguém tímida, talvez por também ser, reconheça isto nela. Ao longo dos anos pude acompanhar o crescimento dela na arte marcial, do tempo que era vista como coadjuvante do marido, até o presente momento em que é protagonista no projeto de Jiu-Jitsu do casal.
Ela chegou um pouco depois dele, imagino que sabedora do estardalhaço que o marido faz em sua entrada. Thayse adentrou o espaço parecendo animada com nossa presença, me passando a timidez que por anos ela apresenta ao me encontrar, algo que acredito vir do alto teor de respeito que ela tem pelos mais graduados, uma característica que notei como sua de praxe.
Carioca me recepcionou com sua costumaz energia, destacando que havia demorado para fazer esta visita, e sendo sincero, sou culpado disto. O nível alto, e a frequência de numerosos praticantes do imenso tatame da Checkmat- Campo Grande, fazia esta aventura ser uma empreitada que necessitaria pleno vigor físico e psicológico para realização, e ao longo de 2025, hora tive um ou outro, os dois juntos estava difícil...
Foram aos poucos, e timidamente, chegando participantes do treino que viria a seguir. Alguns rostos eu reconhecia das minhas andanças pelas estradas dos tatames do Jiu-Jitsu MS, outros a mim eram desconhecidos, e pode ser que eu a eles também o era. Observava o semblante destas visitas e membros da equipe, a maioria deles faixas coloridas. Via em seus rostos parte daquele nervosismo e empolgação que tinha nos meus tempos mais jovem. Em partes, esta emoção ainda bate em mim, de uma forma bem mais amena, mas que me ajuda a lembrar do que me construiu, e sentir ainda isto, é como um lembrete que me faz dar conta do porque escolhi este caminho.
Carioca convidou-nos a fazer um tour pelo seu palacete. Ele e Thayse foram apresentando os cômodos de seu palácio de Jiu-Jitsu. Durante este trajeto, fui me recordando dos estágios que passaram antes daquele momento.
Em um passado já distante, passei por uma academia nos altos da avenida Tamandaré, em que jovens lutadores ficavam estirados, todos de peito nu, em sofás do hall de entrada de um espaço que se chamada CT UP: Centro de Treinamento União Pantaneira. O líder desta ordem de viventes do autentico Jiu-Jitsu Lifestyle era Matheus Godoy, o Pombo, um dos grandes lutadores que a arte marcial do estado formou. Deste grupamento, na época um tanto desorganizado e inexperiente, que nasceu o que hoje é este grande espaço.
Depois de um tempo, e algumas voltas por equipes, das quais Carioca e Thayse não gostam nem de lembrar, assisti estes lutadores um tanto “selvagens”, se domesticarem e adotarem a bandeira de uma grande equipe, a maior em competição na época, a Alliance. Não por acaso eles chegaram lá, sendo guiados por alguém mais experiente que eles, Robson Alencar, o Aguinaga, figura que foi conselheiro importante nos passos seguidos por este grupamento. Desta experiência, seguiram-se anos daquele grupo buscando aprimorar, tanto tecnicamente e metodologicamente, quanto gerencialmente. E este que vos fala, foi quem fez o “velório” deste momento sob a bandeira de equipe paulista.
Um dos pioneirismos de Carioca, foi o de promover os “shows” locais de Jiu-Jitsu. Poucas pessoas antes dele costumavam convidar alguém de fora de sua equipe para ministrar seminários. Ou era alguém de fora do estado, ou um membro da própria equipe, jamais alguém de outra academia local. Carioca quebrou este ciclo, incentivando o reconhecimento dos artistas locais, e me sinto honrado de ter participado deste processo.
No ano de 2022, fui convidado a ministrar minhas reflexões sobre o conjunto técnico de defesa de quatro apoios, conhecido como Tartaruga, na antiga equipe Alliance. Quando lá ensinei, eles dividiam espaço com um Crossfit, abrigados defronte ao Templo da Igreja Universal do Reino de Deus, acredito que a maior construção da cidade. Talvez o reflexo diário daquele grande edifício tenha inconscientemente influenciado na escolha pela grandeza desta construção atual.
Em uma noite de um fim de ano, tal como aquele da visita, eu estava a pleno vigor para compartilhar minhas ideias de Jiu-Jitsu com os alunos da então Alliance-MS. Não era um dia atípico como este de minha visita, pois a seleção brasileira acabara de ser desclassificada da Copa do Mundo, em uma partida dramática, naquele jogo contra a Croácia, em que o time estava ganhando com um golaço de Neymar nos acréscimos, mas foi todo pra frente e tomou o gol de empate, perdendo em seguida nos pênaltis... Além da derrota nacional nos campos de futebol, Carioca e Thayse se despediam da Alliance.
Os ideais de Thayse e Carioca entraram em conflito com os ditames da equipe paulista, e por espontânea vontade, eles buscaram uma outra bandeira que se alinhassem com suas ideias. Na noite em que ensinei sobre Tartaruga, sentia-me animado devido ao envolvimento dos alunos no processo de aprendizado, e ao mesmo tempo um clima pesaroso em partes, devido primeiro a derrota do Brasil na Copa, que por mais que não seja o mesmo sentimento dos anos 90, ainda afetava o humor de parte do povo, em seguida, advindo de uma espécie de “velório” da equipe sob a bandeira que por anos defenderam. No presente momento que fazia o tour pela Checkmat-Campo Grande, nem pareciam haver resquícios dos tempos da Alliance.
A barulheira estridente dos tempos de Crossfit ficou para trás. Atualmente a academia respira com a trilha produzida pela prática da arte suave, cacofonia que parece passar desapercebida pelo canal auditivo de quem vive desta atividade. O último cômodo apresentado por Carioca foi um espaço no segundo andar, por enquanto desabitado, aonde ele sugeriu que nosso estúdio poderia ser ali. Parecia muito bom se pudéssemos usar aquele espaço, isso caso nosso show retorne...
Nosso projeto de Podcast é algo livre, indomável, e principalmente, difícil de prever os próximos passos a seguir. Todo ano terminamos a temporada sem uma certeza de que iremos voltar na próxima. Foram tantos estúdios, improvisos e incertezas, que aprendemos a seguir a natureza de nossa arte ao sabor dos ventos, que por muitas vezes estiveram revoltos.
Nosso singelo programa saiu da garagem e alçou voos mais altos, em que fomos de um showzinho de internet incipiente, visto por cerca de uma centena de pessoas, para nos vermos diante de mais de um milhar de gente, muitas vezes ao vivo! O povo estava nesse auge atento ao que iriamos falar e fazer. Éramos de início apenas dois artistas marciais refletindo sobre aquilo que fazíamos, pensando o ecossistema que estava a nossa volta, para nos transformamos em vozes de uma comunidade, tendo em nossas opiniões um peso dentro da política e vida cotidiana do Jiu-Jitsu-MS. E o que vem com a fama? Dinheiro, e principalmente, poder. E o que fizemos com isto? O que todo o grande artista faz, vislumbrar-se com o sucesso.
Cada um ao seu modo, pegou aquele sucesso e transmutou seu ego. Pode até parecer pouco, mesmo assim, é difícil negar que a fama subiu a cabeça, pelo menos para mim, subiu bastante, aflorando todos os tipos de estrelismos artísticos. E o que acontece quando uma dupla de artistas está no auge de sua fama? Uma briga.
Por desacertos dos rumos que tomávamos, certo dia, recebi uma mensagem enfurecida de Carioca, da qual escutei apenas parte, tal era o teor ofensivo. Foi uma explosão de indignação, uma metralhadora cheia de mágoas... Pensei em responder no mesmo tom, mas, apesar de não ser nada espiritualizado no sentido religioso, pensei no que faria Jesus Cristo, não alimentando aquele fogo enfurecido, dando a outra face... Carioca depois falou que a inspiração dele para lhe dar com esta situação foi a cantora Anita.
Já havia ficado por horas a fio apresentando um programa de entrevistas com aquele cara, e percebi que assim como no palco, na vida muitas vezes a atitude dele era somente mais um numero do Carioca. Esperei que o tempo pudesse resolver, e fiz como todo bom Jedi fez na Saga Star Wars quando as coisas deram errado, abandonei tudo e fui passar um tempo no exílio.
Encerramos o programa
no auge. Nos afastamos por um tempo, nos vendo apenas de longe nos campeonatos.
Eu tinha vontade de compartilhar minhas impressões com ele, mas como um casal
que se divorcia, mantínhamos uma distancia que não trouxesse qualquer tipo de
sentimento passado. E foi assim por um tempo. Se estou aqui contando esta
história, é claro que nos reconciliamos. Se pensam em algo emocionante, regido
por lágrimas, desculpas e juras de amor eterno... lamento lhes desapontar, mas foi
bem mais simples e menos emotivo.
Em um campeonato nos encontramos, eu na posição de árbitro, local em que Carioca detesta contracenar comigo, e ele como técnico. Nos cumprimentamos e começamos uma conversa, algo simples, sem nenhum teor emotivo, apenas uma passagem daquele caos que vivíamos naquele ginásio. Durante a conversa, refletimos que o ritmo daquilo que vivemos nos cansou, e demoramos para parar, indo até o limite.
Para mim, arte é arte, vida é vida. Eu abdico fácil das minhas mágoas por uma boa cena. Se tem algo que gosto, é ter como parceiro de cena um bom ator para contracenar, e o Carioca é excelente neste aspecto. Depois de uns meses daquela conversa no ginásio, último estúdio que havíamos realizado o programa, me convidou para produzir o Podcast novamente. Então fiz como fizera no início desta saga, mandei mensagem e convidei-o novamente, e, ele de pronto aceitou tentar mais uma vez.
Já dizia Zézé di Carmago e Luciano: Cada volta é um recomeço. Buscamos nesta nova empreitada, não recair em erros passados. Moldamos uma nova formula e método de levar aquela produção artística, que por menor que possa parecer, exige bastante da nossa energia e criatividade para se produzir e executar. O Pós-Treino Podcast voltou! Se continuará, já não posso garantir...
Parabenizei Carioca e Thayse pelo grande espaço que conquistaram ao longo da jornada, dizendo que parecia estar na mansão do Gusttavo Lima. Só que a Checkmat- Campo Grande em vez da cafonice brega do Embaixador do Sertanejo, apresenta bom gosto, sem ser megalomaníaca em sua concepção.
Quando retornamos, o tatame estava cheio. Não contei o exato número, mas acredito que haviam mais de quarenta pessoas trajadas de quimono e prontas para gastar todo o Jiu-Jitsu que havia guardado dentro delas, era hora do Open Mat!
Saudei quem eu encontrava no caminho até o ponto em que ficaria naquele grande espaço aberto. Carioca com sua voz de comando em timbre alto, acredito que prática que tenha adquirido nos tempos de Sargento Vidal, anunciou que o cronometro iria começar, e ficaria em cinco minutos por dois de descanso. Sem rodeios, case seu rola e caí na porrada! É cada um por si nesse momento.
Na minha estratégia, o Open Mat é uma maratona, e quando as possibilidades de casamento de parceiro é diversificada, tendo muitos graduados, é necessário controlar a energia e gás para sobreviver até o final.
Meu início foi com Rodrigo Maranhão, faixa preta que foi um dos nossos entrevistados no programa. Um aspecto que sempre me chamou a atenção nele, é a alegria com que luta, estar no tatame com ele é um misto de diversão e combate duro. Fiz um reconhecimento com ele, tentando captar suas habilidades e táticas de combate, e ele acompanhou meu ritmo, e conseguimos aquecer os motores para o resto da empreitada. Terminado o primeiro treino, olhei para o lado, e estava Carioca, já suado e pronto para que viesse. Nos entreolhamos, e Carioca me disse: Vamos agora que depois pode ser que estejamos mortos.” Concordei com ele, atualmente somos dois atletas aposentados, bem diferente quando dez anos antes estivemos pela primeira vez frente a frente em um tatame.
No ano de 2015, eu estava em um bom momento competitivo, acredito que foi um dos anos que mais lutas realizei. Dentro do estado, eu havia encarado os principias lutadores do circuito, e em um campeonato realizado na extinta arena aberta do Horto Florestal, nas semifinais tinha pela frente o aluno do Pombo, conhecido como Carioca. Naquele tempo, sabia pouco sobre ele, somente que era um milico faixa marrom, um tanto mais leve que eu. É difícil imaginar, mas cerca de dez anos atrás, o Carioca era peso leve! Teria que passar por ele rumo ao título.
Antes deste encontro, havia o visto fazer algumas lutas contra alunos meus, que foram combates acirrados, mas no qual Carioca não havia tido tanto brilho. Entrei um tanto confiante que minha experiência e peso a mais, poderiam fazer aquela luta ser tranquila, visando a final contra seu professor, Matheus Pombo. Como há dez anos atrás, eu tinha Carioca a minha frente, totalmente careca e com bastante peso a mais, mas emanando a mesma vontade de uma década antes. Batemos as mãos, e o nosso treino iria começar, o que me arremeteu ao nosso primeiro combate.
Nossa primeira cena junto, foi um salto de Carioca por cima da minha cabeça enquanto sentava ao solo. Não me lembro muito bem, mas me recordo de ser surpreendido com aquele movimento acrobático, o qual me defendi instintivamente, realizando uma manobra que parecia mais um esquete dos Trapalhões do que um combate. E ele me surpreendeu neste primeiro embate do início ao fim, me retendo em um lamaçal difícil de avançar, sua meia guarda. Combate duro, aquele milico era muito mais aguerrido e técnico do que imaginava, cedendo a vitória somente nos segundos finais.
Naquele momento eu soube que Carioca não era mais um lutador enchendo
chave, mas sim um postulante aos títulos locais. Os anos se passaram, e retornei
a encontra-lo somente no ano de 2019, desta vez em situação muito diferente da
anterior, comigo retornando de uma jornada internacional, e ele como o campeão
absoluto do estado.
Lutar contra o Carioca renderam experiências de muito valia a mim como atleta, posso dizer que ele foi um dos grandes adversários que tive em minha jornada. Carioca entende o jogo, e briga por cada centímetro de terreno dentro da luta. Mais uma vez eu era o favorito, mas desta vez ele me superou.
Fizemos mais uma luta parelha, vencida nos pontos por Carioca. Mais uma vez caí nas armadilhas de sua meia guarda, e tenho de confessar que ele sempre esteve no controle das ações, me deixando poucas possibilidades de supera-lo. Ninguém gosta de perder, mas, sinceramente, não me abati com aquilo. Fiquei impressionado com quanto Carioca havia melhorado enquanto estive fora, e feliz de que ainda haviam grandes lutadores a se combater em meu estado.
Carioca não parou de buscar extrair o seu melhor Jiu-Jitsu, fazendo nosso treino do Open Mat um campo minado, aonde o menor descuido poderia ser fatal. É treino de Master, ninguém quis errar, e aqueles cinco minutos contra meu antigo adversário, me fez sentir um pouco a nostalgia dos tempos de guerra. Terminei o treino com o Carioca bem desgastado, e tendo passado por algumas situações complicadas durante o rola, as quais me exigiram gastar minha força e gás.
Olhei para minha parceira de aventura para saber se ela estava bem.
Luana estava esbaforida, avermelhada, descabelada, e claramente cansada, mesmo
assim, ela sorriu para mim, aproveitando a viagem ao seu extremo. Thayse a chamou
para treinar, e as duas saíram do meu campo de visão. Naquele dia haviam muitas
mulheres no tatame, algo que eu vejo como fruto de uma revolução silenciosa por
vezes, e estridente em vários momentos, da qual a voz de Thayse nesta luta, foi
peça fundamental.
Posso dizer que por muitos anos invejei o trabalho que Thayse realizava,
era algo que fazia falta em minha academia. Os números femininos do pequeno
grupamento liderado por Thayse, foi crescendo exponencialmente, até o ponto que
aquele ambiente dantes dominado pelo masculino, se viu em necessidade de
transformação, se adaptando aos novos tempos, em que o tatame é lugar de
mulher, sim senhor.
O Open Mat continuou, regido pela mais tradicional trilha sonora do Jiu-Jitsu Brasileiro, o Rappa, acompanhando os ritmos escolhidos pelo DJ Carioca. Conforme a sineta anunciava o fim e o início da sessão de treinos, vinham mais integrantes da tropa da Checkmat- Campo Grande. Veio Cleytinho, faixa preta que está no Jiu-Jitsu MS desde tempos muito longínquos, e que foi um dos nossos entrevistados no especial da Consciência Negra dentro do Jiu-Jitsu, recomendo assistirem este episódio e conhecerem a fundo sua trajetória.
O treino ia se encaminhando para os finalmentes. Eu me sentia estafado,
no limite das minhas energias, tendo gasto o Jiu-Jitsu que havia guardado
dentro de meu ser. Carioca ordenou a formação para a foto, mas estava cansado
também, passando a incumbência para um aluno. Lembrando sua antiga voz de
comando dos tempos de Exército Brasileiro, Carioca é obrigado a demonstrar sua
habilidade em organizar um grande grupamento.
Registros devidamente feitos, sorrisos gastos, hora de encerrar a missão. Nem todo mundo termina por ali, alguns ainda persistiram e continuaram a expressar sua arte de lutar. Sou solicitado para mais um treino, meu parceiro era um faixa preta jovem, grande e forte. Mesmo nas condições que estava, achei por bem aceitar o convite, sempre digo aos meus alunos que lutador em boas condições luta com qualquer um, mas é na dificuldade que a técnica e psicológico são realmente testados.
Consegui me segurar, amarrando bastante é claro, mas sobrevivendo aos intensos ataques do jovem faixa preta. Ufa...é hora de sair do tatame e comemorar o êxito da missão. Não mesmo, pois do lado de fora tem uma figura que jamais deixaria de atender, Keyli.
Quando produzimos o programa, eu sei que tem alguém que nos verá, e este alguém é Keyli. Ela é faixa marrom, advogada das brabas, e nos proporcionou um ótimo episódio também como entrevistada. Ela nos acompanha desde a primeira temporada, nela sempre sei haver uma interlocutora da qual nossa conversa para a câmera chegará. Me senti na obrigação de fazer a saideira com ela, a moda do NO-Gi, modalidade de muita popularidade na Checkmat-Campo Grande.
Com Keily foi realmente o último, já não havia mais da onde espremer Jiu-Jitsu de minha pessoa. Luana também estava tão, ou mais desgastada, que eu, mesmo assim, foi uma aventura em tanto, que lembrou do início do nosso amor, quando a paixão pela arte suave nos uniu.
Carioca, Thayse, e toda a equipe da Chackmat- Campo Grande, fazem um trabalho excelente, do qual muitas das ideias e visões se alinham as que eu e Luana temos a respeito do que estamos fazendo. Para quem quiser experimentar este mergulho ao profundo do que o Jiu-Jitsu pode oferecer, os Open Mats da Checkmat- Campo Grande são eventos que vão enriquecer a bagagem de experiência de qualquer praticante.
Eu e Carioca continuamos aí, em mais uma temporada na busca pelo sucesso, ou do fracasso, quem sabe... assim como no Jiu-Jitsu, estamos nesta pra jogar. Como Romário e Bebeto, Raul e Paulo, Quico e Chaves... e tantas outras duplas artísticas, temos nossos altos e baixos.
Por vezes concordamos,
e muitas delas discordamos, mas temos uma visão compartilhada, a de que o
Jiu-Jitsu é muito mais daquilo que estamos vendo e sabendo. Caso estejam
curiosos/as a respeito do que descobrimos, não percam os próximos episódios do
nosso humilde show, que pode ser em um tatame ou a frente dos microfones e
câmeras, sem nunca falhar em tentar extrair o máximo de arte destes dois
artistas marciais.
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