Jiu-Jitsu Adventure MS Ep 18: Defensores da Arte Escola de Jiu-Jitsu da Fronteira

 Jiu-Jitsu Adventure MS 

Ep 18: Defensores da Arte 

Escola de Jiu-Jitsu da Fronteira 





Fotos Crédito: Laura Souza



Nesta aventura pelo Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul, voltaremos a um local dantes percorrido, mas que ainda reserva muita arte suave no contexto local, estou falando da fronteira Brasil-Paraguai, na cidade de Ponta Porã. Tinha me aventurado por lá cerca de três anos antes, e neste regresso, pude conhecer o trabalho da equipe Defensores da Arte, liderada por Fabricio Aguero. 

Para me acompanhar nesta aventura, tive como companheiros Carlos Jordhan, sua esposa Kimberly e minha amada Luana, que foi quem me auxiliou. Havia conhecido Fabricio em algum campeonato anos antes. Ele e um aluno haviam comprado os livros de minha autoria, que nesta época vendia nos eventos locais. Lembrava-me bem deles adquirindo os livros, mas nunca havia tido contato direto, somente via redes sociais. E foi pelas redes que Fabrício me acionou, e combinamos um seminário de Defesa Tartaruga em sua escola. 

Saímos de Campo Grande pela manhã de um sábado do mês de abril, sendo que o seminário seria no meio da tarde. Uma visita à fronteira sempre rima com compras de artigos importados, a que somente lá se tem acesso. Mas para meu infortúnio, o orçamento doméstico não permitiria qualquer tipo de farra consumidora, mesmo assim, convidei Luana para conhecer esta parte do nosso estado, mesmo que fosse em uma viagem de bate e volta. 

Carlos e Kimberly se empolgaram com a visita à fronteira e tinham algum orçamento para aproveitar a abundância de consumo do local. Com a empolgação deles e a minha missão pessoal, partimos rumo a Ponta Porã, encarando uma estrada em bom estado, diria, e passamos até um corte de caminho por uma estrada de terra, que não é das melhores, mas ficava bem longe das piores que eu percorri. 

Conseguimos chegar a tempo na cidade, sem precisar se apressar, ou estar em cima da hora do seminário. Procurei no Maps o endereço da academia, e quando estacionamos na frente do local indicado, como assim, era uma escola?! Parei, observei e pensei “Será que é aqui?”, mas como o portão estava aberto, resolvi adentrar e conferir. 

Era na escola mesmo! A academia Defensores da Arte fica no prédio da escola Elite, um tradicional centro de ensino na cidade, que hoje tem dentro de suas dependências uma escola de artes marciais. Quando me lembro de meu início no Jiu-Jitsu, lá nos anos 2000, minha arte marcial era vista como marginal, principalmente no meio escolar, que taxava os praticantes como “Pitboys” e arruaceiros 

Mais de vinte anos depois, vejo esta arte marcial dentro de uma unidade escolar, e como esta que visitava, existem várias no país, representando uma verdadeira vitória para a arte que um dia foi vista como incompatível com aquele ambiente. 

Fui recebido por Fabrício, sua esposa Liz, acompanhados por seu filho e enteado, todos de quimono, mesmo o seu caçula estando dormindo. Quem estava junto com eles era o aluno que havia comprado o livro comigo anos antes, seu nome é Orlando, e nesta oportunidade, pude assinar sua cópia da obra, um tanto envergonhado ainda pela letra tremida advinda de uma condição neurológica, nada grave, mas que tem deixado minha grafia manual mais inelegível ao longo dos anos. 

 Fabricio me apresentou sua escola, que tem tatames de modelo olímpico em azul e amarelo espalhados por toda a extensão da sala em que a academia está instalada. Ele me contou que herdou a estrutura montada por seu professor, André Duarte, faixa preta e policial federal, que durante alguns anos esteve na cidade ensinando, e quando se transferiu, deixou a estrutura e seu aluno como representante dos seus ensinamentos marciais. 

Aos poucos, foram chegando os alunos que fariam parte do seminário, e não parava de chegar gente. Quando percebi, o tatame estava cheio, em um grupamento deveras heterogêneo, com homens, mulheres, adolescentes, em vários níveis de graduação diferentes. A maioria dos participantes era aluno da Defensores da Arte, havendo também alguns participantes de outras escolas da região, uma cultura bem interessante da cidade, em que as academias não são tão rivalizadas, havendo uma integração harmoniosa entre elas. 

Fabricio estava um tanto chateado, pois havia machucado seu dedo, e não poderia participar ativamente da prática. Ele sofrera um deslocamento, em que foi atendido in loco por um aluno, que é estudante de medicina, algo comum de se encontrar nas academias locais, visto as diversas faculdades do lado paraguaio. Mesmo com esta lesão, ele estava de quimono e atento no tatame. Como se o sino tivesse tocado, era hora da aula! 

Luana foi minha auxiliar nesta apresentação, já que Carlos, ao início do evento, me pediu para sair e aproveitar o chamariz da fronteira, as lojas. Ele teria de ir, pois provavelmente estariam fechadas quando terminássemos. Achei justo o pedido, e todo feliz, Carlos foi com sua esposa conhecer o comércio local.  



A aula sobre a defesa Tartaruga, que não seria nada relacionado à matéria de biologia, era ministrada por um professor que nunca foi afeito ao ambiente escolar, mas que nas voltas que o destino dá, retornava à escola no papel de docente. Adoraria se no meu tempo de estudante, tivesse tido aquela matéria, talvez assim, eu tivesse me interessado mais pela escola.  



Conforme ia passando e auxiliando os alunos, percebia a variedade étnico-cultural da fronteira, escutando parte do dialeto local, que mistura o português brasileiro, o castelhano paraguaio, e com pitadas do guarani, idioma de origem indígena falado no território do país vizinho. Os alunos do Professor Fabricio são atentos à matéria, com pouca dispersão ou falta de atenção, e têm razão de serem assim  



  Antes de ser professor de Jiu-Jitsu, Fabricio já era por muitos anos professor de ciências exatas (Química, Física e Matemática), as matérias que eram os Cavaleiros do Apocalipse nos meus tempos estudantis. E ele transporta a disciplina das ciências exatas para sua docência artístico-marcial, mantendo-se ativo em estudar a matéria que ministra, procurando resolver as equações da arte suave e repassar as fórmulas para seus alunos. 



Ao final da parte técnico-teórica, pedi para tiramos a tradicional foto do evento, para poder liberar os alunos para o recreio, no caso desta matéria, o Rola. Normalmente, quando o evento se dá por encerrada a parte técnica, alguns alunos ficam, com a maioria dando a aula do dia por satisfeita, mas a maioria dos estudantes da Defensores da Arte, preferiu ficar para ter ainda mais. 


Quando observei a parede que indicava quem iria ficar, havia quase tanta gente quanto na parte da aula técnica. Fiquei eu de um lado e Luana de outro, e aos poucos foram vindos os alunos para experimentarmos o combate. 

En la Frontera mi hermano, la fuerza eres fuerza. O Professor Fabricio tem estrutura de peso leve e tem vários estudantes bem fortes e mais pesados. Antes do evento, compartilhávamos as dificuldades em se ensinar esta arte marcial, e uma delas é a de passar os dias exercitando a técnica com os alunos, principalmente aqueles muito fortes, e treinando com eles e elas, consegui compreender o tamanho da dificuldade que Fabricio tem em treinar com esse pessoal. 



Eu e Luana treinamos com alunos de todos os níveis, pesos e idades. Tentamos ao máximo atender à vontade dos/das participantes do evento e terminamos esta sessão já com a noite tomando conta do céu fronteiriço. Dei um beijo nela e agradeci por tê-la como companheira nesta aventura, um privilégio para mim. 



Do que pude perceber da academia Defensores da Arte, é que o modelo de disciplina, responsabilidade, e o compromisso com a família, algo que o Professor Fabrício tem em sua vida pessoal, é o Norte que guia a jornada de seus pupilos, que seguem como ele, tendo coração de estudante. 




Carlos retornou das compras para nos resgatar e iniciarmos o retorno para casa. Ele e sua esposa estavam felizes com os produtos que conseguiram adquirir no comércio fronteiriço, já eu e Luana, estávamos exaustos do evento, precisando reestabelecer nossas energias antes da volta. Eis que a magia da fronteira se fez presente, e fomos agraciados pelos alunos Youssef e Diogo com um jantar no restaurante do tio de um deles. 

Comemos muito bem, e como Carlos iria dirigir, me dei ao deleite de apreciar uma caipirinha para relaxar o corpo para a viagem de volta. Na saída do restaurante, observei uma típica tradição dos estabelecimentos da fronteira, a de ter um garrafão de cachaça, alguns com frutas em conserva, de cortesia para os clientes. Será que encarava este último desafio?  

Quando na fronteira... Meu pai sempre que íamos a Ponta Porã não deixava passar esta cortesia, então, resolvi experimentar esta tradição. Enchi um copo de vidro, que não era tão pequeno para ser um shot, e nem grande o bastante para necessitar de mais de um gole, completando nele uma verdadeira dose. Tudo isto incentivado por uma entusiasmada funcionária, que, percebendo minha inexperiência neste quesito, aguardava ansiosa a minha reação a cachaça do estabelecimento. Parei, respirei, contei até três... e joguei tudo para dentro em um gole só... desceu queimando a garganta, continuando em brasa todo caminho que a bebida fazia dentro do meu corpo, fazendo subir para minha cabeça instantaneamente um calor intenso. É meus amigos... Na Fronteira, la fuerza eres fuerza. 

 

Enquanto escrevia esta crônica, a academia Defensores da Arte perdeu uma de suas integrantes, a faixa roxa, Beatriz. Ela não estava no evento, então, tampouco pude conhecê-la para dizer algo sobre ela..., mesmo assim, deixo registrado nesta crônica uma singela homenagem em sua memória, do lugar que fez parte de sua jornada.






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