Jiu-Jitsu Adventure-MS Ep. 16 67 Pantanal- C.T- Cafezais- Nilton Show


 


 

Minhas andanças pelos rincões do Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul sempre me legam boas memórias. Na presente aventura, além de descrever uma figura do ecossistema local, venho vos contar sobre minhas reflexões acerca desta prática que envolve tantos adeptos em nosso estado. 

 Fui convidado por um amigo das antigas a ministrar uma aula especial em sua academia, ele inclusive já foi personagem do primeiro texto desta jornada de aventuras, que aconteceu na 67 Pantanal C.T Moreninhas. Desta vez pude conhecê-lo mais a fundo (Lá ele...). Iremos nas linhas seguintes explorar o tatame da 67 Pantanal- Centro de Treinamento Cafezais, liderada por Nilton Lima, o famoso Niltinho Show. 

Conheço Niltinho desde seus tempos de faixa branca. Ambos fizemos parte de uma das primeiras delegações do Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul na gestão do atual presidente da federação e professor dele, Fabio Rocha, isso no já distante ano de 2015. Viajar horas com diferentes figuras do JJMS, me fez conhecer gente que só via antes à distância nos campeonatos, e o Niltinho foi um deles. 

Irreverente, sempre pronto para uma resenha, Niltinho transformou a aventura Barueri, uma extenuante viagem de Van, em um passeio divertido de se lembrar. Nesta época eu era um jovem faixa preta, e Niltinho um prodígio faixa branca em busca da glória no Campeonato Sul-Americano de Jiu-Jitsu. Para resumir a prosa, ambos não alcançamos a tão sonhada medalha, mas a experiência ajudou a formar uma união entre as escolas do Jiu-Jitsu MS.  

Quando eu me defrontei com aquele que viria a ser campeão na minha categoria, Jaime Canuto, membro da GFteam, equipe de Niltinho na época, acreditava estar sozinho naquela luta. Eu tinha poucas chances, e minha briga era por um vacilo do meu oponente que me oportunizasse um bote capaz de surpreendê-lo. Mas ele não ajudou... Jaime fechou todos os caminhos possíveis a mim. Mesmo assim, foi uma luta tensa, meu jogo defensivo havia pelo menos parado meu adversário, e a vantagem dele era pouca, possível até tirar. E ao longe, escutei duas vozes reconhecíveis gritando por uma virada. 

Da plateia, eu identifiquei a voz inconfundível de Niltinho e o acompanhando em mesma frequência, Bruno Bezerra. Eles eram apenas faixas brancas na época, mas gritavam por mim com tanto empenho, que pareceram vir juntos comigo naquela luta, que para mim era mais um teste de sobrevivência. A virada não veio... O combate terminou com uma vantagem pequena de meu oponente, mesmo assim, era derrota do mesmo jeito. 

 Terminei o combate e fui para as arquibancadas, aproveitando para agradecer o apoio deles. Niltinho me falou algo mais ou menos assim: “Eu não conheço nenhum Jaime, eu conheço o Dilon”. Me surpreendi com o gesto dele e de Bruno, parece normal hoje, mas naquele tempo era exigida uma lealdade total à bandeira a que se era filiado. Mesmo jovens no esporte, Niltinho e Bruno colocaram a afinidade e o orgulho das raízes regionais acima de uma grande bandeira do Jiu-Jitsu. Saí daquela experiência com estima pelo gesto de Niltinho, e desde lá nunca parei de acompanhar com atenção sua jornada.  

O vi ascender nas faixas coloridas, sempre demonstrando em seus combates vigor, raça e vontade muito acima da média. Do lado de fora, o vi amadurecendo como operário da arte suave, sempre ajudando sua liderança a transformar o Jiu-Jitsu do estado em algo melhor. De longe, ele foi o rei dos Staffs 

Recentemente, Niltinho entrou em contato comigo, me convidando para esta aula especial, em prol do espaço novo que vinha abrindo e se arriscando na missão de expandir a visão de Jiu-Jitsu de sua equipe, a 67 Pantanal Association. No convite, ele me disse que a intenção era levar grandes personalidades do cenário local, e eu seria quem abriria este projeto. 

 Ambos nos encontramos em novos projetos, e me pareceu um convite bem pontual. Aceitei o convite, na esperança de mutualmente ajudarmo-nos a fortalecer no novo momento que ambos vivíamos. Iria dar uma força para este amigo, tal como a que ele me deu na arquibancada mais de dez anos antes. 

Em uma noite chuvosa de segunda-feira, atravessei a cidade de Campo Grande, passando pela Rodoviária, que é conhecida como “Nova”, mesmo a velha tendo sido desativada há muitos anos, local deveras afastado do meu lar. O trânsito na cidade em dias normais já é bem ruim, em dias de chuva então... Fora o perigo iminente das ruas esburacas que permeiam toda a malha viária da capital. Só o amor pela arte nos faz não nos apegarmos a estes problemas urbanos, me fazendo atravessar todo aquele caminho com alegria e empolgação. 

Cheguei na academia próximo do horário marcado, as 20:00 da noite. A avenida dos Cafezais é uma longa e por vezes estreita avenida, que estava bem movimentada, isto em um horário que passara da hora do rush. Este assentamento em avenidas sempre oferece um bom ambiente para se criar uma academia. Em minha chegada a chuva havia abrandado, tornando-se apenas uma névoa de gotículas pairando pela noite úmida.  

Quando adentrei o galpão de teto alto que a academia está instalada, avistei um tatame de lona negra, com vários alunos esperando para a aula. Niltinho me ovacionou em sua recepção, e não me demorei em ir no banheiro para vestir meu quimono e começarmos a brincadeira.  

Este tempo úmido de verão sempre trás uma situação comum, a dificuldade em secar seu quimono a tempo de um próximo uso. Meu quimono estava totalmente úmido, saído da máquina pela manhã, mas o sol não havia dado sua cara para apressar sua secagem. Me senti um pouco relapso por isso, me pareceu que eu era muito velho nesse jogo pra ter caído nesta armadilha. Para vocês verem, mesmo com anos de experiencia, qualquer um pode passar por isto... 

Dentro do tatame pude ver de perto quem eram os alunos de Niltinho. Naquela noite me acompanharia um grupamento misto de alguns pré-adolescentes, adultos recém-ingressados na práticae alguns poucos graduados. Assim como ele, por diversas vezes na vida iniciei academias do zero, e vi grupamentos em formação parecidos com aquele que testemunhava naquela noite, algo que me trouxe uma boa expectativa para aquela aula. 

Niltinho me apresentou aos seus alunos com muita reverência ao meu passado de competidor, e senti nos alunos a expectativa de que realmente eu materializa toda a experiência e perícia anunciada pelo seu professor. Ele me pergunta qual o som de que gostaria para a aula, e como de praxe, peço Bob Marley como trilha da noite. 

Apresentei aos alunos meus velhos conceitos de tartaruga, fazendo-os engatinharem e rolarem de quatro apoios pelo tatame. Percebia um real empenho na turma de Niltinho em imitar meus gestos, fazendo parecer ouro cada detalhe por mim ensinado. 

Em noites assim, reacende minha veia artística para a Arte Suave, e uma plateia tão participativa e atenta, dá animo em apresentar cada número de minha humilde apresentação. O Jiu-Jitsu muitas vezes se materializa como mágica, um simples gesto pode mudar a forma como o combate é desenvolvido, isso fascina os praticantes, e me draga profundamente, inspirando a fazer meu ofício tal como um ilusionista por vezes. 

Avançamos para o principal, o combate em si. Desperto a vontade deles de testar tudo aquilo que ensinei em mim mesmo, através de algo importante no trajeto marcial, a ganânciaPedi a Niltinho para oferecer um prêmio a quem conseguisse pegar minhas costas, um grau dado logo em seguida ao feito. Percebi os olhos dos alunos brilharem com a possibilidade do prêmio, mesmo o desafio sendo grande a eles. 

Um a um eles e elas vieram buscando se arriscar pelo prêmio. O que pude sentir, é que todos os que comigo praticaram colocaram seu máximo empenho, por mais distante que aquele prêmio podia parecer, todos acreditaram e se jogaram sem medo na ânsia por alcançá-lo, um feito que me deixou contente como resultado daquela aula. 

Para finalizar a noite, algumas rodadas do bom e velho rola, a alma do que é praticar a Arte Suave Brasileira. Treino com a esposa de Niltinho, Clara, parceira de vida e de tatame, que durante toda a aula foi participativa e auxiliou quem precisou. Ela fez o melhor dela no treino, dificultando várias de minhas ações e imprimindo a marca da raça dos alunos de Niltinho. 

Um a um vão vindo os próximos, que já pra lá das nove horas da noite, não arrefeceram sua vontade de gastar seu Jiu-Jitsu. Um rapaz de faixa branca começou comigo em pé, e na minha movimentação ele perguntou “É dança?”. Fiquei um pouco confuso com a pergunta, que, advinda de um novato na arte, me pareceu bem profunda, mas pela imediatez do momento, pude apenas responder: “É... isso pode ser uma dança também.”. Meu quimono ficou ensopado, nem dando vazão a pensarem que cheguei com ele já úmido. Tenho como um dos últimos treinos, um rola com Niltinho Show. 

“Não ia perder a oportunidade de rolar com meu ídolo da tartaruga”, não foi a frase exata, mas foi mais ou menos isto. Niltinho é um boleiro experiente e habilidoso, nos campos pude ver parte de sua perícia e malandragem na arte com a bola nos pés, e eu sinto que ele leva isso para seu Jiu-Jitsu. Por mais ruim que fosse a situação que lhe impunha no combate, Niltinho dava um jeito de se desvencilhar. Assisti da área técnica ou da visão de árbitro diversas lutas dele em que era demonstrada esta raça. Ele ficava próximo de sucumbirmas em um instante ressuscitava no combate! Mesmo quando este parecia perdido aos espectadores de pouca fé. Admiro lutadores com esta capacidade, não é uma habilidade simples de se desenvolver, como diriam: “Coração não se ensina”. 

Por sorte do destino, arbitrei aquela que foi, até o momento, a despedida de Niltinho dos tatames. Na cidade de Nova Alvorada do Sul, ele enfrentou seu nêmesis de categoria, Felipe Medeiros da equipe De La Riva-MS. 

 Niltinho me parecia totalmente entregue naquele combate, não dando a impressão de que teria forças para reagir. Mas a ganância de Felipe em finalizar o combate deu espaço para a valência maior de Niltinho sobreviver e virar a luta. Como um time que vira um placar elástico, Niltinho foi o time da virada, e fez sua festa de despedida ao som glorioso da vitória, ornamentada por um cinturão de campeão. E naquela noite, ele demonstrou exatamente o que vi no tatame ao longo dos anos, uma raça acima de qualquer média. 

Terminamos a sessão, comigo estafado e tendo gastado toda a energia e arte que tinha para aquela noite. Agradeço esbaforido a oportunidade, tentando passar meu ideal do Jiu-Jitsu como arte, me inspirando no poeta Chorão: A arte do Jiu-Jitsu me ajuda a enfrentar com otimismo esta loucura.  



Me despedi com a chama da arte acesa dentro de mim, e com a esperança de que participei das primeiras páginas do início de uma escola de Jiu-Jitsu de qualidade, e que se depender da vontade e perseverança de seu idealizador, ainda vai levar o show de Niltinho para muita gente. 

 

 

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