Jiu-Jitsu Adventure MS Ep. 14 Experiência do Jiu-Jitsu na Alvorada: Academia Tadeu Santos
Voltamos para a estrada após alguns
meses de descanso deste projeto. O ano de 2023 foi frenético, eu precisava de
um descanso da estrada, ficar mais em casa, com o foco na aventura do
dia-a-dia.
Foi
preciso disposição para retomar ao projeto, pois o Jiu-Jitsu Adventure tem o
espírito de ser genuinamente uma aventura, de se embrenhar por dentro dos
matagais do desconhecido sem medo das adversidades. Visto isto, nesta primeira
aventura do ano, resolvi enfrentar um forte adversário, um que em algumas
quadras de minha vida me batia cotidianamente.
Esse adversário sempre consegue sugar as minhas energias, derrotar minha força de vontade, drenar minhas estratégias, impossibilitando que eu aproveite a experiência do combate. Estava na hora de enfrentá-lo, eu iria encarar meu pior pesadelo: acordar cedo.
Pode parecer pouco, mas em trinta e seis anos de vida, e pelo menos vinte e quatro deles praticando Jiu-Jitsu, jamais eu havia treinado voluntariamente antes das sete da manhã. Por alguns momentos na vida, havia trabalhado neste horário, seja dando aulas de Jiu-Jitsu ou em outras atividades laborais, ou seja, somente a obrigação com o financeiro que havia me tirado da cama antes do nascer do sol.
Visto minha inexperiência com a existência sob os primeiros raios solares do dia, resolvi me aventurar neste horário tão nebuloso para mim. Para esta experiência, escolhi um dos centros de Jiu-Jitsu de maior efervescência durante o alvorecer, a Academia Tadeu Santos, lar do famoso treino das seis e meia da manhã.
Minha relação com as primeiras horas da manhã sempre teve como principal personagem um sentimento nefasto: o ódio. Sei, é uma palavra muito forte, mas durante boa parte de minha vida, acordar cedo me gerou este sentimento, que depois se transformava em desânimo, e, por fim, me causava uma enorme desesperança com o futuro. Bom, pode ser até um tanto dramático, confesso, mas fazer o que, é o que sinto...
Acordo pela manhã com meu rosto todo amassado, normalmente demoro na cama pelo menos alguns minutos de olhos abertos, olhando para o teto, refletindo o quão ruim é levantar com sono. Meu sono excessivo advém de uma forte propensão a dormir tarde da noite. Diria que sou um ser com gosto pela madrugada, um horário para mim de efervescência criativa. A disposição que me falta pela manhã, me sobra pela noite.
Desde garoto me sentia mal com acordar antes do nascer do sol, nunca me pareceu um horário adequado para se produzir algo. Qualquer atividade física parecia inviável nesse período, tudo o que eu queria era sobreviver, que as horas passassem depressa, e, o quanto antes, eu pudesse dormir novamente. Visto essa minha dificuldade, foi custoso executar este Adventure.
Planejei por meses fazê-lo, mas toda a semana em que ameaçava pô-lo em prática, não conseguia... Nenhum dia me pareceu adequado para se realizar tal feito. Tadeu Santos, meu anfitrião, é um autêntico vivente do alvorecer. Em suas redes sociais é possível vê-lo constantemente dando o melhor de sua disposição nas primeiras horas do dia, seja em um treino duro de Jiu-Jitsu, no levantamento de pesos, ou em outros exercícios que me cansam só de assistir. Iria visitar a academia desse cara, na pior configuração do meu Jiu-Jitsu, como que me sairia nestas circunstâncias?
Enrolei, enrolei e enrolei mais um pouco para a realização da aventura... Até que uma conjuntura cósmica me deu a oportunidade de realizá-la. Minha esposa iria viajar para São Paulo, e o voo dela saia às cinco e meia da manhã. Moro perto do aeroporto, o que não me comprometeria tanto o horário, tornando possível fazer esta experiência sem maiores danos ao meu vigor físico e mental.
Nem mesmo raiou o dia, e meus olhos se abriram. Os acordes de “Alagados”, música do Paralamas do Sucesso, tocam em minha mente “Todo dia, o sol da manhã vem e lhes desafia, traz do sonho pro mundo quem já não queria...”. Quando acordo neste horário, eu só penso: “Ah, eu devo estar fudid...”. Mas por incrível que pareça, desta vez, estes pensamentos duraram pouco, me dando uma leve disposição para me levantar.
Levo minha esposa ao aeroporto, em um trajeto que demorou no máximo vinte minutos. Retorno para casa por volta de cinco e quarenta e cinco da manhã. Lá, sentado na cozinha, faço o desjejum, penso na minha cama que está logo ali, e eu não tinha aula pela manhã, quem sabe poderia dormir até mais tarde.... NÃO! Desta vez o sono não iria me vencer!
Busco não olhar muito para a cama, posso ser arrastado, não resistindo a doce tentação do sono e conforto. Sigo meu plano sem refletir muito, eu iria sair de casa de qualquer jeito. Fui logo pegando meu kimono e faixa, indo direto para o carro, e tão logo o colocando em marcha para o destino.
São seis e pouco da manhã quando saio de casa. O dia estava um tanto nublado, com nuvens espessas e escuras, anunciando uma chuva para mais tarde, um tempo ótimo para dormi… Pare... Procuro nem pensar nisso, só sigo meu caminho sem refletir.
As ruas estão aos poucos sendo tomadas pelos automóveis. O som da manhã é estranho a mim, um silêncio que aos poucos vai sendo quebrado pela vida urbana, com pessoas andando em passos lentos para o trabalho, para serem mais uma pequena peça dessa engrenagem que move a sociedade. O trajeto até a academia dura cerca de vinte minutos. Sigo desbravando um tráfego leve, passando por pontos na cidade que já apresentam movimento, mas ainda longe do ápice da efervescência urbana. E no fim de uma alameda, chego na academia Tadeu Santos de Jiu-Jitsu.
Lembro-me do dia da inauguração do espaço, eu estava lá acompanhando a realização do sonho de seu idealizador, Tadeu. Havia conhecido este personagem ali pelo início dos anos 2010. Minha primeira visão dele foi em um campeonato, quando ele fazia parte da equipe do professor Myke Pessoa.
Este grupamento de Jiu-Jitsu era uma ilha escondida dentro do Jiu-Jitsu da cidade de Campo Grande. Seus componentes eram pouco vistos fora dos domínios de sua academia, sendo também pouco presentes no circuito competitivo, com raras aparições. Em uma dessas aparições, foi que vi um faixa roxa do Myke que se chamava Tadeu, e diziam que era muito forte.
De cara fechada, com uma expressão nada amigável, Tadeu era a face do lutador dos anos 2000. “Casca grossa brabo”, me lembro de neste primeiro momento vê-lo parado numa arquibancada, de braços cruzados, ao longe era possível notar o seu vigor físico. Mas no seu combate não pude se ver todo seu potencial, a aplicação de um golpe ilegal o desclassificou. Só havia visto isto, até que conheci um personagem que me uniria a Tadeu, Nelson Júnior, o popular Nelsão.
Nelsão é um desses seres que ficam pouco tempo por aqui, mas que mudam tudo e todos ao seu redor. O Gordo, como carinhosamente o chamávamos, era um cara que se relacionava com muita gente, um sujeito realmente popular. Com seu carisma ímpar, ele rompeu com os dogmas de fechamento de sua escola de Jiu-Jitsu, e começou a desvendar o Jiu-Jitsu que havia à sua volta. Foi numa dessas aventuras do Gordo que o conheci, parecia que eu e ele éramos amigos de longa data logo no nosso primeiro contato.
O primeiro a sair da escola por conta dos dogmas fechados de seu líder foi Nelsão, que foi acompanhado por alguns companheiros de equipe, dentre eles, Tadeu. Algum tempo depois desta saída de Nelsão e Tadeu, esta relação dos alunos fechados em sua escola foi rompida por um desentendimento interno, que pelo que chegou a público, foi uma situação bem séria e peculiar.
O passe de Nelsão, um praticante que poucas vezes competiu, foi disputado por equipes diversas, afinal, quem não queria um cara daqueles em sua academia? E por sorte do meu destino, a escolha de Nelson foi da equipe que eu havia sido fundador alguns anos antes, a Gracie Barra Pantanal. Foi nesse tempo que conheci Tadeu, que continuava sendo um lutador de cara fechada e de poucos amigos.
Vieram com o tempo, boa parte dos antigos alunos da Myke Jiu-Jitsu. Era um grupamento que passava de vinte pessoas, muitos deles já graduados, com suas bases no Jiu-Jitsu formadas, criando-se assim um choque de cultura entre nós e eles. Desta turma que chegou, Tadeu era o que mais parecia que teríamos dificuldades em lidar, visto que parecia pouco amigável.
É estranho pensar como as primeiras impressões em alguns casos estão milhas de distância da realidade. Tadeu se integrou na nossa biosfera de tatame de forma tão natural, que quando percebemos, ele já era um dos nossos, tornando-se uma importante engrenagem em nossa equipe.
Paro o carro em frente a escola. Avisto um letreiro desgastado, com o símbolo da Gracie Barra Monte Carlo, franquia a qual a academia fez parte em seu início. Não dá mais para ler direito o nome na placa, mas eu me lembro de ver aquela placa quando inaugurada. Através do vitral da academia é possível enxergar lá dentro alguns caras de kimono, e consigo ver em sua típica posição de braços cruzados, me lembrando Picollo, um personagem do anime Dragon Ball Z, Tadeu Santos.
Sinto, antes de descer do carro, uma necessidade de respirar fundo para criar coragem. Dei aula por dois anos ininterruptos às sete da manhã em Singapura. Morava ao lado da academia, levava apenas uma caminhada de cinco minutos, no máximo, para chegar, e mesmo assim, todos os dias em que ministrei esta aula, precisei deste respiro antes de me lançar ao trabalho.
A academia Tadeu Santos é um espaço bem iluminado, com boa entrada de luz através das janelas bem amplas do prédio, dando a quem vê de fora uma boa visão do que se passa lá dentro. Na entrada, um pequeno hall, onde está localizada a catraca de controle de acesso em um estreito espaço de passagem. A decoração da escola é a cara de seu idealizador, com fotos suas ornamentando todo o espaço.
Tadeu é um ser vaidoso em essência,
mas uma vaidade que não busca ofuscar os que estão à sua volta. Basicamente,
Tadeu mostra aquilo que ele é, um guerreiro orgulhoso da arte que pratica.
Dentre as imagens que adornam as paredes, um personagem me remete ao tempo em
que tivemos uma empreitada em conjunto, formando um trio que me deixa saudades:
eu, ele e Gustavo Vasconcelos, o Gugu. Neste tempo nos fechamos em uma jornada
de desbravamento do MMA.
Tadeu e eu não tivemos sorte em nos
lançar no MMA. Somos de um tempo em que o “Vale Tudo”, ainda assim chamado na
época, era o sonho máximo de quem lutava Jiu-Jitsu. Tanto eu, como ele, vivemos
nossa paixão por ser um lutador dessa modalidade. Por diversos motivos, nenhum
de nós foi capaz de seguir a trilha de sucesso do MMA. Mas tivemos o gosto de
viver plenamente este universo na condição de treinadores.
Nosso atleta era simplesmente o
melhor lutador possível. Gustavo Vasconcelos, ou Gugu, era um ex-paraquedista
da Força Aérea, e deixou a vida militar com a fama de ser inquebrável na arte
de guerrear. Ele já era colado com Tadeu na Gracie Barra Pantanal, que até hoje
fica na academia Level One. Tadeu sabia de minha breve experiência no octagon, e me convidou para unir-se a
ele nessa empreitada de treinar Gugu para o MMA.
Tadeu era o “treinador disposição”,
quase sempre desempenhava a função de sparring também. Eu já era o menos
sério, mais brincalhão, trazia calma para o lutador. Gugu era muito fácil de
treinar, respondia positivamente a qualquer instrução técnica, entregando tudo
o que era pedido da melhor forma possível. Quando ia lutar, ele apenas dizia
para mim e Tadeu: “Eu sou o vídeo game de vocês, o que vocês mandarem fazer, eu
vou fazer”, e ele fazia mesmo...
Nosso trio conseguiu alcançar todos
os níveis que projetamos. Foram poucas lutas, mas em todas estas empreitadas,
tudo saiu de acordo com o planejado, não falhando em nenhum ponto. Vivi com
eles meu sonho do ringue, de estar ali, no ponto máximo de perigo que a técnica
do Jiu-Jitsu pode estar exposta. Sempre que encontro Tadeu, não tem como essas
lembranças ficarem de fora.
A academia de Tadeu é um espaço de
tamanho médio, cada espaço é explorado para ser utilizado como local de prática
física. O tatame todo em branco ocupa praticamente metade do salão, que é
dividido com uma grade estilo MMA em dois espaços, luta e musculação.
Os pesos diversos estão ali quase
que em conjunto com o tatame de luta, distando poucos metros apenas um do
outro. Para Tadeu está tudo correlacionado, Jiu-Jitsu é guerra, e na guerra,
tem que estar preparado de todas as formas. Força é uma das essências que
compõem o estilo de Jiu-Jitsu da academia Tadeu Santos, e ele é a própria
motivação desta busca.
Conhecendo Tadeu há mais de uma
década, não me lembro de vê-lo em “off”. Só o conheço buscando a melhor
condição de seu físico, sempre no máximo, buscando o máximo, vivendo o máximo.
Diria que seu Jiu-Jitsu é sempre para mais, para andar em progressão, derrubando
tudo aquilo que se impõe como barreira. Visto meu quimono amanhecido, respiro
uma última vez e vou rumo ao meu primeiro treino matinal voluntário.
Chego ao tatame quase todo composto
da cor branca da Tadeu Santos Jiu-Jitsu. Na grade que separa as áreas, as
bandeiras de diferentes grupos operacionais de segurança pública mostram parte
da cultura de sua academia, o “Jiu-Jitsu de Polícia”.
Assim eu batizei esse ramo de
atuação do Jiu-Jitsu Brasileiro. Como arte marcial voltada ao combate, o
Jiu-Jitsu passa por praticamente todos os períodos de sua história, tendo uma
simbiose com as atividades de segurança pública. Jiu-Jitsu e polícia são combinação
antiga, e aqui em Mato Grosso do Sul ela se faz presente também, sendo a
academia de Tadeu um polo destes profissionais em busca do conhecimento marcial
para sua atividade base.
Meu Jiu-Jitsu destoa desta
tendência, sendo bem distante em métodos, visão de combate e filosofia. Mesmo
assim, é uma interação interessante para mim, e espero que para eles também.
Nos anos em que frequentei a academia de Tadeu Santos, esse estilo de lutar
Jiu-Jitsu me impôs sempre um desafio novo, de conhecer a luta através desta
visão mais marcial da arte. O dia ainda não se faz presente por inteiro, e
nosso treino já vai começar.
Em um grupamento totalmente
masculino, com todos os níveis de faixa presentes, iniciamos o treino do
alvorecer. Tadeu me apresenta para o grupo, alguns eu conhecia de maneira
breve, mas a maioria era a primeira vez que dividiria tatame. Senti no olhar daqueles
caras uma sincera admiração pela minha presença, misturado com a mesma vontade
de testar meu poder de combate. Essa vontade é o verdadeiro clima daquele
treino, que é parte integrante da cultura da Tadeu Santos Jiu-Jitsu.
Começamos com exercícios físicos diversos,
algo que me remete ao meu início na arte. Havia um tempo em que somente muitos
exercícios físicos duros eram necessários para se fazer um verdadeiro
aquecimento, Tadeu não deixa morrer essa tradição. “Drill to Kill”, Tadeu acredita nessa máxima, esse é um dos métodos
que nunca vi ele perder a fé. E enquanto os primeiros raios solares inundam o
tatame através de seus vitrais, eu busco fazer só um drill a mais.
Posição ainda é a alma do negócio.
Tadeu é um adepto do explorar as técnicas compartilhando aquilo que ele faz
melhor. Sempre justo, sem espaço, sem remorso e sem hesitar em atacar, este é
parte da filosofia que vejo nas técnicas que Tadeu demonstra, expressando assim
a sua essência.
Desta vez Tadeu é o general
comandante, nós seus comandados, e agradeço por isso, pois encará-lo é sempre
certeza de viver a guerra que habita em seu Jiu-Jitsu. Quando se treina com
Tadeu toda a atenção é necessária. Seus movimentos sempre caem como uma pesada
anilha em sua cabeça, e a proximidade com ele pode ser fatal. Nunca pense que
você está próximo de conseguir dominar alguma posição, pois uma explosão física
pode ruir todo o seu trabalho em um segundo. Hoje irei confrontá-lo
indiretamente, através de seus alunos.
Em poucos locais eu vejo alunos que
seguem com tanta determinação seu mestre. Os alunos de Tadeu Santos acreditam
na sua técnica e conhecimentos fielmente, seguindo também seus métodos extra
tatames, inspirados pela disciplina espartana que este mestre tem no cuidado
com seu corpo.
Um mestre que demonstra a aspereza absoluta da luta para seus pupilos. Não raro são os vídeos do Tadeu, famosos por vermos seus alunos sofrerem as penas de se confrontarem com seu mestre, com um detalhe que sempre me fez curtir assistir os vídeos. Parece-me que os alunos saem dessa experiência, dolorosa, aparentemente, amando ainda mais o Jiu-Jitsu.
Chega a hora do carro chefe da essência Tadeu Santos de Jiu-Jitsu, o combate. Cada academia enxerga esta prática de uma forma diferente, na escola de Tadeu o combate é um exercício de guerra, com nenhum limitador de força aplicável, portanto, defenda-se com tudo o que tem, pois precisará.
Meu primeiro adversário da manhã é um faixa marrom que está em altitude muito além dos meus um metro e oitenta e quatro. Pesando algo que se conte a partir dos cem kilos, me defronto com essa montanha por volta das sete da manhã, um horário que tenho preguiça até para levantar da cama e ir ao banheiro.
“I believe I can fly”, o hit estadunidense dos anos noventa ecoa na minha mente no momento em que meu adversário me levanta do solo, elevando-me no terceiro andar e me arremessando lá de cima. Em um movimento rápido e forte, que por sorte tive tempo de abrir meu paraquedas, consigo sobreviver. Depois dele, tenho um faixa preta pela frente. Ele é policial de operações especiais, alguém que deve impor pavor naqueles que por desventura se tornam seus adversários na guerra urbana da qual faz parte.
Jiu-Jitsu na Tadeu Santos é sempre pra frente e para pegar. Enfrento neste treino todos os níveis de faixa de seus alunos, todos adversários jogando forte, mas sempre de forma limpa, mantendo durante todo esse processo de exercício de guerra, honradez e respeito pelo parceiro de treino.
Eu vi aquela turma nascer, em um passado que já tem quase uma década. Lembro de tudo começando com um professor que resolveu dedicar sua primeira atividade do dia a sua paixão, e aos poucos foi magnetizando fanáticos pelo raiar do dia, que assim como ele, escolhem como sua primeira atividade diária se jogar profundamente na arte da guerra do Jiu-Jitsu.
Olho para o jogo de sofás disposto ao lado do tatame. Não sei se de maneira proposital, aquele espaço parece aguardar uma presença que nunca mais será sentida fisicamente. Quase que consigo ver o Gordo ali sentado, sorrindo como uma criança assistindo ao Programa do Chaves na tevê, se divertindo simplesmente por assistir um espetáculo ordinário de Jiu-Jitsu. Era disso que o Gordo gostava, ele amou o Jiu-Jitsu em sua plenitude.
Nelsão nos deixou cedo demais, pelo menos assim sentimos. Uma manhã acordei, e ele não estava mais aqui, foi isso que me disseram. Causas, motivos e efeitos... já não fazem sentido refletir. Cenários em que ele está lá, sendo quem ele era, e deixando o mundo ao redor um lugar melhor, são meros devaneios, que não vão acontecer na realidade.
Eu por vezes só me dou o direito de sentir sua falta mesmo. Quando olho para fora daquele tatame, eu me dou esse direito mais uma vez... sinto a falta dele, mas não mais lamentando, como fiz por muito tempo. Agora tudo que faço é apenas agradecer ao universo por eu ter tido o privilégio de com ele compartilhar minha vida. Nelsão foi uma figura importante na minha jornada, que mudou meus rumos apenas com simples palavras, e acredito que ele foi importante na vida de Tadeu também.
Fecho o treino em um rola amistoso, desta vez com um faixa preta da categoria que faz sucesso na Tadeu Santos: “Os Masters”. O último treino é um sparring sem tempo, estilo old school, até pegar. Tenho trabalho para cumprir a missão. O treino é duro, algo que havia sido o sabor da experiência naquela manhã. Quando ele me fala sua idade, fico surpreso com a vitalidade daquele senhor, que com sessenta e cinco anos, se coloca quase todas suas manhãs naquela intensidade de treino.
Ufa... Sobrevivi. Contam que depois de um treinão destes você se sente vivo, naqueles caras dava pra notar que se sentiam mais vivos do que nunca, prontos para partirem cada um para sua guerra diária, já eu... Eu não sentia este poder todo, estava mais para alguém que já no raiar do dia gastou tudo o que tinha.
Tadeu não tem muito tempo para fazer a resenha pós treino, tão logo o treino termina, o vejo arrumado e de uniforme de treinador físico, pronto para seguir na sua lida. Sua academia é um espelho daquilo que Tadeu vislumbrava no tempo em que tudo isto era apenas um projeto. Ele imprimiu seu estilo, cultura e espírito em sua academia, que carrega a tradição de seu fundador.
Não só nas imagens da parede é possível ver Tadeu, ele colocou sua alma neste projeto, faz a academia respirar e transpirar sua paixão pelo Jiu-Jitsu. Moldando um grupo fiel a sua filosofia, que leva para suas vidas aquilo que de melhor Tadeu Santos tem a oferecê-los.
É até estranho nos darmos tão bem. Eu sou o oposto em visão de mundo e em visão do Jiu-Jitsu. Mesmo assim, sempre que estou neste tatame, me sinto à vontade, pois ali, quando se está buscando o conhecimento marcial, Tadeu nunca enxerga alguém a partir de seus conceitos, e sim a partir do que demonstra dentro das quatro linhas. Acredito que nossa admiração advenha do respeito ao espírito de guerreiro necessário para se manter firme na guerra do Jiu-Jitsu, nisso creio termos a mesma crença.
Deixo a academia, a chuva parece estar chegando. Olho mais uma vez para trás. Penso mais uma vez em Nelsão. Ele não estava lá fisicamente naquela manhã, mas estarmos ali, vivendo o Jiu-Jitsu conforme ele nos inspirou a viver, era fazer com que sua alma estivesse completamente presente naquele tatame, pelo menos assim eu senti.
Volto para a casa, a cidade já se encontra com atividade urbana intensa. Enquanto o mundo lá fora começa, o meu parece estar finalizando. Tomo um banho quente para restaurar a alma. Fazia tempo que não sentia uma fadiga tão grande, me recordo dos duros treinamentos do passado. Sento-me na cama, e, cara... Como eu estou cansado. É... sinto que a manhã continua sendo minha criptonita. Gastei tudo que tinha e que não tinha nesta empreitada pelo alvorecer.
Semana difícil, né?
Capitão, são só oito e meia da manhã de segunda-feira!
Texto em homenagem a Nelson Júnior,
Nelsão, amigo e irmão de tatame, e enquanto Jiu-Jitsu respirar em mim, jamais
esquecerei do quanto sua paixão me inspirou a prosseguir nesta jornada.







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