Jiu-Jitsu Adventure MS. Ep. Extra Jiu-Jitsu e Paixão, Paixão e Jiu-Jitsu Jornada até a Academia Demian Maia Parte 2
No capítulo anterior: Conheci uma
mulher que há muito desejava conhecer, apaixonamo-nos, e, com ela ao meu lado,
lancei-me numa aventura por São Paulo. Estou neste momento na academia de
Demian Maia, em meu primeiro treino do ano, e pronto para iniciar um rola sem
previsão de tempo com a lenda da Arte Suave. Será que me saí bem?
Capítulo
3. Navegar em Mar Revolto, Sem Tempo com Demian Maia
Quando o sino toca, procuro me
agarrar da maneira mais justa possível na perna de Demian. Sinto o ar à minha
volta ficando mais quente e pesado, lembrando a sensação que tive ao adentrar a
sala. Levanto meu corpo, buscando fazer em Demian o movimento que ele ensinou
na aula. Mesmo não acreditando que poderia derrubá-lo, percebo que Demian não
cria grandes resistências, deixando-se ir ao solo. Já o havia visto resistir
aos melhores wrestlers do UFC, tenho certeza que ele se deixou “quedar”.
Chegando ao solo, Demian parece
aceitar que eu avance até a meia guarda. No primeiro momento, penso que ele vai
começar de maneira mais leve, assim, com este espaço, relaxo meu corpo para
tentar imprimir movimentação. Demian
sente meu estado mais solto, e me indica que eu poderia “ir com tudo”, como se
eu pudesse ir somente com parte do que tenho, pensei...
No chão o mar começa a se revoltar.
Tento avançar um pouco, mas, daí em diante, recebo um bombardeio de técnicas de
ataque. Consigo compreender quais perigos as movimentações e chaves de Demian
impõem, mesmo assim, o volume de ataques é tão grande, que quase não consigo
avançar dentro de sua guarda.
Cada movimento de luta dele
apresenta um perigo real, fazendo-me realmente sentir a força do mar revolto.
Uma vez, quando adolescente, afoguei-me no mar da praia da Barra, no Rio de
Janeiro. Estar distante da areia da praia, com ondas me sugando e estourando em
minha cabeça, foi, de longe, o momento que estive mais próximo de enxergar a
morte cara a cara. Durante o rola, começava a sentir o cansaço de quem se
debate para sobreviver às ondas e correntes marinhas, mas dessa vez, não
haveria salva vidas para me resgatar.
Trocamos Jiu-Jitsu por alguns instantes. Em alguns momentos, Demian parecia me ceder espaço para ver o que poderia fazer. Por vezes, minha movimentação chega a bloquear o avanço de Demian, mas conforme me movimento e acelero o ritmo, ele acelera ainda mais, diminuindo cada vez mais as chances de êxito em minhas ações. Em pouco tempo, cedo ao movimento de raspagem e me encontro por baixo fazendo guarda. Decido não brigar mais contra a passagem de guarda de Demian, que como um prédio desabando em cima de mim, mina toda e qualquer possibilidade de atacá-lo. Resta-me apenas uma cartada: virar de quatro apoios para a guarda tartaruga.
Minha defesa e meu contra ataque são
os pontos mais fortes do meu jogo e, por algum tempo, não sei precisar quanto,
consigo me defender utilizando minha técnica de tartaruga. Naquele momento
estava testando o ponto mais forte do meu jogo contra um especialista em
trucidar defesas de “tartaruga”.
Durante anos estive de quatro apoios
realizando esta defesa, adquirindo amplo conhecimento e confiança técnica. Este
ponto da luta é um local de descanso para mim, no qual minha técnica me permite
respirar em meio aos ataques. Mas com Demian, este singelo momento de descanso
para repensar a estratégia não acontece. Minhas defesas surtem efeito por algum
tempo, mas a intensidade dos ataques de Demian rompe a minha barreira
defensiva.
Ataque seguido de ataque, Demian vai minando minha movimentação. Com ele me atacando de todas as posições, como uma metralhadora de técnicas, não tive tempo sequer para respirar. Até conquistar as minhas costas, ele havia me atacado com inúmeras chaves de braço, desenhando conforme eu tentava avançar, uma saída para um triângulo. Ou dominava uma esgrima que me invertia facilmente da posição de domínio que me encontrava, era ataque total! Meu tanque de combustível estava começando a apitar, chegava na reserva de minhas energias. Minha tartaruga começou a se tornar ineficaz, não tinha mais força nas pernas para me movimentar. O mar começava a me engolir.
Sinto que não haveria mais saída, Demian destruiu minhas barreiras defensivas, restando-me aceitar a posição mais temida por todos que com ele se defrontam: a pegada de costas.
Quando sinto as pernas de Demian pressionarem minha cintura, meu quadril e pernas são totalmente neutralizadas, dando-me a certeza de estar preso na posição. Na minha mente o narrador do UFC Rhoodes Lima entoa seu bordão: “É UM PASSAGEIRO DA AGONIIIAAAAA!”.
Sem quadril e pernas, resta-me apenas meu tronco e braços para defenderem a última fortaleza antes da tomada total do castelo do meu Jiu-Jitsu. Protejo meu rosto com minha cabeça e mãos, movimentando para vários lados em busca de ar. A agonia aumenta conforme os braços de Demian começam a buscar o domínio de meu pescoço, sinto que em breve eu me afogaria.
Sentia os antebraços de Demian como duas barras feitas de material sólido e cortante. Quando senti o osso de seus antebraços e o aperto de sua pegada, pressionando minha cabeça, torcendo meu pescoço para todos os lados possíveis, soube que não daria para resistir por muito tempo caso ele continuasse neste ímpeto. Consigo escapar de algumas tentativas de finalização, mas, como em um mar revolto, as ondas não cessam, não me dando tempo de respiro. As minhas forças se esvaem, impossibilitando-me de continuar a me movimentar na defesa dos braços, sendo sugado para o fundo desse oceano, ou seja, para dentro do Mata Leão de Demian Maia.
Percebo que o jogo acabou, não há mais via de retorno, o mar me engolia de vez. Os braços de Demian terminam de se fechar em volta do meu pescoço e parte do queixo. A pressão que se segue ao fechar das comportas do Mata Leão de Demian Maia é pesada, esmagando minha glote e travando qualquer entrada de ar por minhas vias aéreas. Chegou a hora de usar o bote salva vidas que me salvaria de sucumbir neste mar, os três tapinhas...
Demian me solta rapidamente, mesmo assim, por uns instantes, o mundo fica turvo. Sinto um alívio imediato ao ser solto de seu golpe, com o ar voltando aos poucos para os meus pulmões. Ufa, parece que estou de volta na areia da praia. Não tenho muito tempo para descansar e refletir sobre a luta contra o mar, Demian já está de pé me convidando a entrar na água novamente.
Neste momento de muito cansaço, contava termos lutado por cerca de uns seis minutos, que para mim pareciam ter durado uma vida inteira. Ao me levantar, sinto um leve girar da minha visão, e foco meu olhar no meu oponente para restabelecer a conexão com o combate, e ele continua sendo o Demian Maia... Só que agora iríamos lutar sem nenhum elemento surpresa possível de minha parte.
Com Demian vindo desta vez para segurar minha perna, não me resta alternativa de escape. Ao comprimir o músculo de minha coxa em sua pegada de single leg, já percebo que não suportaria por muito tempo. Quico um pouco na minha perna de apoio, mas como uma torrente marinha, Demian me puxa e volto para o fundo do oceano.
A incursão para me defender de costas no solo durou pouquíssimo tempo, estando novamente de quatro apoios na tartaruga. Por menos tempo ainda minha melhor defesa foi eficaz, estando novamente preso nas costas com Demian atacando meu pescoço, em um replay mais acelerado da primeira sessão que fizemos.
Defendo-me por alguns instantes, tentando de maneira vã livrar-me do cadeado de suas pernas, e lá estava eu de volta ao fundo do oceano. Lembrei-me de quando, em uma de suas lutas no UFC, Demian Maia estrangulava um lutador estadunidense chamado Rick Story. Não lembrou do nome? Se não viu esta luta, veja depois e você entenderá o que vou lhes contar a seguir, para quem já viu, é o cara que toma um mata leão no rosto, e, quando Demian Maia solta o golpe ante a desistência do oponente, estoura sangue para todo lado.
Revivi essa cena antológica, comigo representando o papel de Rick Story desta vez. Eu não estava disposto a chegar no extremo do combatente do UFC, compreendo as razões dele não ter desistido, mas, para mim, bastava até ali, desisti antes que a pressão estourasse meus vasos sanguíneos, queria voltar pra casa com meu nariz intacto no rosto. Demian não parecia satisfeito ainda, convidando-me para mais uma incursão.
Desta vez, provei do triângulo que fez sucumbir vários dos adversários Demian. Nesta outra releitura das lutas dele, eu representava Chael Sonnen dentro do triângulo. A pressão de suas pernas em volta de minha cabeça e braço, impediu-me de executar qualquer defesa que conhecia. Não sabia se batia para não apagar, ou se desistia por não suportar a dor lancinante da musculatura do meu pescoço sendo amassada. No final, bati por pura sobrevivência mesmo.
O mar virou sertão, fazendo-me um retirante sem rumo por suas veredas. Não fazia mais ideia do tempo, só caia, levantava, seguia em frente e era finalizado. Buscava no horizonte enxergar o oásis daquele sertão, o fim do tempo. Demian percebe que estou quase para parar, e me motiva a continuar com uma promessa: faltam dois minutos.
Quanto mais me aproximava do oásis, mais distante ele parecia ficar. O tempo contra o Jiu-Jitsu de Demian Maia anda diferente, assim como no refrão da música dos Racionais MC “Tic-Tac ainda é nove e quarenta, o relógio da cadeia anda em câmera lenta”. Ainda deu tempo de tomar mais uma finalização para fechar a conta. Demian pareceu ter satisfeito sua fome de finalização, terminando o treino ao doce som de um termo que soou como música para meus ouvidos: “Tempo!”.
Levanto-me com certa dificuldade, e mesmo com a respiração ofegante, busco forças para colocar-me de pé e reverenciar meu oponente de treino. Só um maluco faz Jiu-Jitsu, isso é fato, pois quem mais conseguiria abrir um sorriso depois de ter o rosto amassado, pescoço retorcido e dores que de imediato se apresentavam? Só alguém que flerta com o abismo da loucura, no qual o louco se joga não somente por vontade própria, mas por uma necessidade da alma guerreira. E eu sou só mais um louco desse mar de malucos do Jiu-Jitsu, saindo daquela experiência em mar revolto que, mesmo com o afogamento, foi um dos maiores privilégios que um lutador poderia ter na vida.
Sobrevivi para escrever estas linhas graças à piedade de Demian. Senti na pele um dos maiores poderes que o Jiu-Jitsu já viu, algo que é difícil descrever o quão intenso e poderoso é. Gosto da ideia do Sumô que divide seus lutadores em classes de lutadores, sendo o Yokozuna o nível máximo, visto quase como uma deidade no país criador da arte suave. Caso transportássemos para o Jiu-Jitsu essa hierarquia de classes, Demian seria um dos grandes Yokozunas da história da Arte Suave Brasileira, e eu agora teria a honra de contar para meus descendentes do Jiu-Jitsu que havia treinado com ele.
Capítulo
4. A Essência do Jiu-Jitsu Paulistano
“Hei, São Paulo, terra de
arranha-céu, a garoa rasga a carne, é a Torre de Babel”. Tal como na canção de
um poeta do gueto paulistano, o Jiu-Jitsu da terra da garoa apresenta toda essa
dureza da selva de pedra. Ao mesmo tempo em que a megalópole apresenta sua face
selvagem que nunca dorme, São Paulo também é uma explosão de inovações
artísticas e culturais, e o Jiu-Jitsu faz parte deste panteão de artes que
prosperam na capital paulista.
Em São Paulo, a arte marcial respira
e transpira constantemente. No suor de grandes guerreiros, o Jiu-Jitsu da
capital deu as suas caras desde o seu início no Brasil. Lar encontrado por um
povo de um distante arquipélago do oriente, trouxe em seus navios uma das
comunidades que influenciaram a brasilidade,
que continha em sua bagagem cultural o conhecimento de uma arte marcial
milenar.
Os descendentes dos antigos Samurais
mostraram sua arte na nova terra, ainda que limitados pela dura jornada da vida
de imigrante. Enquanto no Brasil acontecia uma das maiores manifestações
artísticas da história conhecida como Semana da Arte Moderna de 1922, o pequeno
japonês Geo Omori desafiava todo e qualquer adversário no circo dos irmãos
Queirolo. Na estrela deste bravo guerreiro, o Jiu-Jitsu começava a criar face
na capital paulista, e não pararia por aí.
Nos anos 1930 dois eventos importantes marcaram o desenvolvimento do Jiu-Jitsu em São Paulo. Os dois habilidosos irmãos japoneses, Yassuite e Naoite Ono, mostraram a sublime arte da melhor tecnologia marcial advinda de sua terra mãe. E o Gato Ruivo, o incansável George Gracie, deixou seus filhotes do Jiu-Jitsu na capital paulista, levando a essência do Gracie Jiu-Jitsu para a cidade. Até que o Jiu-Jitsu perdeu espaço para o Judô, tornando a metrópole sinônimo da elite da arte marcial japonesa que se tornaria olímpica.
O Jiu-Jitsu, ainda assim, continuaria sua saga na capital paulista, levado a frente por quem aprendeu com os mestres que se recusaram a seguir o Judô. Otávio de Almeida, antigo aluno de George Gracie, manteve o lastro do Jiu-Jitsu paulistano que tomou forma concomitantemente ao que estava sendo praticado além das montanhas que separam a cidade de São Paulo da cidade do Rio de Janeiro.
Nesta mistura de Cariocas e Paulistas, a arte marcial da terra da garoa mantinha a essência da receita carioca e acrescentava seu tempero local. O palco do Jiu-Jitsu segue por um tempo o eixo Rio-São Paulo, importando do Jiu-Jitsu Carioca a malandragem praticada à beira mar.
Se liga malandragem carioca! O malandro paulistano aprendeu sua malícia, jogando suas armas contra quem o ensinou essa arte. Em questão de poucos anos, o Jiu-Jitsu Paulista passou a ser de elite. Em um piscar de olhos, ele já era sinônimo de Jiu-Jitsu de alto nível. Deixe ser, não tem problema, no final é tudo igual, seja carioca ou paulista, o Jiu-Jitsu é patenteado por uma nação só, Brasil.
Quando deixamos a rivalidade regional de lado, enxergamos a beleza da arte do esporte na capital paulista, e penso que estou feliz em ser brasileiro e poder me orgulhar de fazer parte da mesma nação que grandes guerreiros e guerreiras desta terra nas mais diversas artes esportivas. Analisando a legião de lutadores que marcaram história, de Godoi, Macaco, Barbosinha, Telles, Margarida, Demian Maia, até desaguar na genialidade da lenda Leandro Lo... nomes estes que poderiam preencher fácil páginas e páginas, sinto-me privilegiado por poder ter assistido ao show desses grandes artistas.
Eu mesmo carrego parte deste DNA do Jiu-Jitsu Paulistano. Em São Paulo capital, um migrante potiguar aprendeu a arte suave dos conhecimentos do mestre Roberto Lage, brilhando um jovem Claudionor Cardoso, travando lutas… lutas não, verdadeiras guerras nos ringues de Vale Tudo, defendendo o nome do Jiu-Jitsu na porrada! Claudionor Cardoso demonstrava, assim, a resiliência e valentia do guerreiro nordestino aliadas à técnica do jiu-jitsu paulistano. Sua glória nos ringues levou o consagrado lutador a desbravar o Mato Grosso do Sul, que no tempo de chegada de Claudionor quase tudo era mato em se tratando de artes marciais. Da força deste guerreiro nordestino forjado no urbano paulistano, surgiu o Jiu-Jitsu Pantaneiro.
O Jiu-Jitsu Paulistano é tão inspirado quanto um gol de bicicleta de Leônidas da Silva. É tão explosivo quanto a massa da Fiel Corintiana em gol de final de campeonato. Carrega em si a mesma elegância do jogo do palmeirense Ademir da Guia. E é inteligente e dinâmico como a seleção São Paulina de Telê em 1992. Assim como no futebol, o Jiu-Jitsu Paulistano encantou e influenciou partes do Brasil através da beleza desta arte em forma de luta desenvolvida nos diferentes cantos da cidade.
No Jiu-Jitsu de Demian pude sentir em meu corpo esta força da arte suave paulistana. Duro, áspero e dinâmico, o Jiu-Jitsu dele parece avançar como um trem cortando a cidade de ponta a ponta, sem nunca parar. Sua vontade em finalizar parece nascida do ritmo frenético da cidade que nunca para em busca da eficiência e otimização do tempo, com seus trabalhadores marchando apressados em uma luta constante contra o relógio. Como um arranha céu engolindo a visão, o Jiu-Jitsu Paulistano é construído na base dessa vontade da cidade de ganhar os céus.
Da força da mistura racial e cultural paulistana, nasce um Jiu-Jitsu influenciado pelos descendentes da tradição ítalo-brasileira, com elementos da filosofia dos imigrantes japoneses e Nikkeis, pela malandragem carioca e pela garra e talento dos migrantes nordestinos, pois, como dizia o saudoso cantor Belchior, a cidade de São Paulo é o estado mais populoso do Nordeste. Carregando em si o ethos e os dialetos de todos os cantos do país, o Jiu-Jitsu Paulistano é fruto de uma pluralidade de influências no seu estilo de combater.
Com Demian senti na pele o pleno poder do Jiu-Jitsu Paulistano: rápido, eficiente e implacável, assim como por vezes é a luta diária dentro da metrópole urbana. Com Demian Maia percebi a essência do Jiu-Jitsu da capital que não dorme, colocando-me à prova contra uma parte integrante da cultura do Jiu-Jitsu Brasileiro, um passeio doloroso conforme este poder se apresentava. Mesmo experienciando a dureza deste Jiu-Jitsu, não me arrependo nem um pouco de tê-lo feito, e espero ter a oportunidade de refazer esta jornada muitas vezes.
Viva o Jiu-Jitsu Paulistano! Com toda a certeza um dos melhores centros do mundo para se aprender e apreciar esta arte.
Capítulo
Final: Depois do Amanhecer
Tinha planejado no meu pós treino
viver uma tarde tranquila com Luana, mergulhando em nosso universo
compartilhado, um lugar em que o mundo se torna um espaço pequeno e confortável
no qual só cabem dois seres se amando. Mas o estrago na lataria foi grande, e,
logo após o treino, meu corpo sentia a avaria de confrontar-se com Demian Maia.
Após o treino, voltamos para o
apartamento de Luana. Sem tomar banho, joguei-me no sofá em busca de uma
sensação de conforto imediato. Minhas costas doíam, meus braços doíam, meu
rosto doía, minha boca estava cortada em vários pontos, e meu pescoço...
qualquer leve movimento dava uma pontada para me lembrar dos estrangulamentos e
torções sofridos. Os eventos planejados para a nossa tarde de amor tiveram que
ser cancelados. Mas, mesmo assim, o principal deles aconteceu, eu e ela
compartilhando a vida.
Costumo dizer que a vida não tem
roteiro, a minha então... Já tentei escrever um roteiro pra ela, preparar-me
para uma cena bem ensaiada, com tudo no seu devido lugar, ansiando que os
eventos andassem conforme o planejado. Mas não deu muito certo… Aprendi a atuar
de improviso, o roteiro escrevo na hora, o diretor, parceiros de cena, cenário,
figurino... pra mim pouco importa... eu só quero é fazer a cena. Não sei qual o
gênero do filme que estou atuando em minha vida, por hora, prefiro só
aproveitar o processo de gravação.
Luana chegou em minha vida sem
qualquer aviso prévio do roteiro. Preparava-me para buscar uma vida mais focada
na solitude, na ideia de que minha companhia bastaria. Mas durante meu processo
de internalização, sentia que havia algo em mim precisando de uma força
externa, um sentimento que não podia partir apenas do meu autoamor. Não
conseguia enxergar o que que me faltava, até o dia em que meu olhar cruzou com
o de Luana.
Os dois dias restantes do que seriam a data limite de nosso relacionamento relâmpago, foram passados por vezes a conta gotas, e por vezes tão rápido, que parecia que o tempo jogava contra a vontade de estar com ela. O tic-tac do ponteiro anunciava que o filme estava no fim.
Em nossa noite de despedida, fizemos
um passeio romântico pelo circuito cultural da cidade, assistindo a mais um
filme juntos, um que mesmo não sendo muito bom, tornou-se uma experiência
sublime devido a companhia dela. Mesmo me entregando pouco a pouco ao
sentimento, alertava-me de que o momento da despedida se aproximava.
.Em um simples boteco da cidade, um bem paulistano ao meu ver, degustava os sabores da culinária local e levemente me embriagava, bebendo seguidamente dois copos de caipirinha. Com minha visão já trepidante e difusa, enxergava à minha frente na mesa uma mulher de lindos olhos reluzentes, e com um sorriso resplandecente, que poderia admirar a noite toda. Esta noite senti-me realmente vivo, só este momento era realidade.
Chegou o fim de mais um amanhecer
nosso. Tinha que voltar para minha casa, tinha que retornar à minha vida, tinha
que de alguma forma descobrir onde ficaria esse desejo que nasceu por Luana. De
carro, fomos para a rodoviária, um tanto calados, ouvindo a música no rádio,
pegando na mão um do outro em cada esquina. Ao final do trajeto, estava
desembarcando em uma agitada rodoviária.
O tempo jogava contra. O relógio
girava rápido, e havia chegado a hora do até logo, o qual não sabíamos quanto
tempo levaria este “logo”. Sem muito tempo para processar o sentimento da
despedida, tive que correr para não perder o ônibus. Mesmo apressado, em nosso
último abraço e beijo deixo transbordar meu sentimento, pensando que havia
vivido com ela uma das melhores experiências de minha vida, e somente a
promessa de revê-la acalentaria o meu coração.
Corro como não corria há muito
tempo, buscando não perder a volta pra casa. Chego esbaforido na plataforma,
encontrando ao acaso meu aluno Renato “Dilma”, fazendo-me lembrar de vez que
estava voltando para casa. Embarco no ônibus com o sol brilhando forte no céu.
O sonho de amor havia chegado ao fim, era hora de acordar.
Da janela do ônibus, com o pescoço
ainda dolorido, via-me deixando pra trás o caos da capital paulista em uma
manhã ensolarada do terceiro dia do ano. A lentidão do trânsito dava-me vazão
para refletir o que tinha ficado daquela experiência, e neste momento o único
sentimento que tomava meu ser era o da saudade.
Durante as longas quinze horas de
São Paulo a Campo Grande, pude analisar meus sentimentos. Nesse instante, eu
tinha uma visão turva dos meus planos futuros. Não conseguia planejar nada
antes de resolver o que fazer com o sentimento que carregava. Não sabia se
tentaria levar minha vida em frente para deixar aquela experiência como parte
de um amor de verão, ou se tentaria de alguma forma continuar próximo dela, sei
lá... os caminhos pareciam tortuosos e desafiadores.
Ao chegar em minha terra, sentia ter
deixado algo muito importante para trás. Procurei, nos primeiros momentos do
retorno, a realidade, buscando reconectar-me com meu plano inicial. Tentava
retornar ao meu ritmo de vida mais solitário, vivenciando a essência do ser
livre por si só. Mas a liberdade que eu ansiava por anos, naquele momento,
parecia-me feita de grades, as quais impedia-me de voar direto para o amor que
desejava.
A saudade continuava a me martelar.
Pensava se já não deveria ter passado. Meu celular transformou-se em um totem,
carregado por toda parte, em diversos momentos tornando-se a abertura de um
portal que me deixava mais perto de Luana. Mas o horizonte de revê-la parecia
distante, mesmo com nosso empenho em planejar o mais rápido possível nosso
próximo encontro, a previsão era de nos encontrarmos apenas em Fevereiro. Nossa
saudade persistia, até sermos apanhados em mais um lance do destino.
Dois dias após a minha chegada,
completava meu trigésimo sexto aniversário, sendo presenteado por meu irmão e
minha mãe com uma viagem em família ao Rio de Janeiro. Tive uma oportunidade
ímpar de vivenciar com meus filhos uma revisita às raízes de minha família
materna, desfrutando de ótimos dias em meio a pessoas que são parte integrante
da minha história. No dia do retorno, meu irmão anunciou no café da manhã um
pequeno problema: “Vocês terão uma conexão de nove horas em São Paulo...”.
Meu irmão anunciava isto de forma
triste, enquanto em meu íntimo comemorava estas nove horas de possibilidade de
estar com Luana. Eufórico por dentro, enviei uma mensagem para ela contando
sobre a conexão, que também se animou tanto quanto eu com esta possibilidade do
encontro. Voltaria para casa com meu filho, e além de possibilitar a ele uma
estada mais confortável nestas nove horas de espera, poderia mais uma vez estar
com Luana. Mais uma chance? Que roteiro é esse? Até para mim, contumaz vivente
destas nuances do destino, espantava-me mais uma vez poder estar com ela.
Na noite de domingo, chegávamos eu e
meu filho Raphael no Aeroporto de Congonhas. Mais uma vez pude ver Luana em seu
carro a me encontrar, com seu olhar reluzente em meio a um agitado ir e vir de
carros em busca de passageiros. Era impossível esconder a felicidade deste
reencontro fortuito. O que seria deste novo amanhecer?
Difícil dizer aquilo que se quer
dizer. Para mim sempre foi difícil. Escondi-me muito tempo por conta deste
receio de falar aquilo que sinto, de expressar com ações e palavras os
sentimentos guardados no íntimo da minha alma. Desta vez resolvi não fugir,
entregando-me ao que realmente a intuição indicava. Sentia que era o momento,
então, para que deixar passar?
Resolvi entregar-me. Já havia lutado
tempo demais contra o desejo de expressar o que sentia. E antes que acabasse
nosso romance em mais um amanhecer, minha voz conseguiu se libertar de sua
clausura, dizendo aquilo que gostaria de ter dito desde nosso primeiro toque:
“Eu te amo!” ...Recebi em troca a mais doce resposta a esta sentença: “Eu
também te amo!”. O que se seguiria a isto?
Um “Eu te amo” trocado nunca é algo
que plana no ar de forma leve. Esta frase quando compartilhada faz toda uma
estrutura balançar como que em um vendaval. Um mundo se cria quando esta frase
é dita, não dando chances para que o estático tome conta da jornada. Lancei-me
neste sentimento, querendo viver as aventuras de amar alguém mais uma vez, de
mergulhar em algo totalmente novo, sem que eu tivesse tido qualquer tipo de
experiência prévia. Não me importava, a vida não tem roteiro mesmo...
O tempo e a distância são duas
variáveis que têm o poder de conectar e desconectar as relações. Ter que vencer
estas barreiras parecia um desafio hercúleo, em que os limites do desejo,
vontade e saudade seriam postos a prova. Será que iríamos conseguir?
Voltei para casa com o doce gosto do
amor recíproco da mulher que amo. Mesmo perdendo meu voo de volta, pois
confundi os aeroportos, sentia-me realizado. Talvez tenha sido um vacilo meu a
perda do voo, para azar do meu filho, que voltava um tanto insatisfeito pelas
mais de quinzena de horas a mais de viagem. Já eu, mesmo no infortúnio,
retornava sorrindo enquanto dormia.
Mais uma vez estava em casa, mas desta vez com um compromisso firmado com Luana, a qual já podia chamar de minha namorada. Sentia a falta dela, e como na poesia cantada pela banda Skank, não podia esperar tanto tempo assim... Difícil precisar quanto tempo é necessário para se descobrir que se ama alguém de uma forma que a presença dela se torne substancial para sua plenitude. Não sei lidar com tempo, planos e ideia de futuro, não estou seguindo um roteiro. O que poderia fazer com essa vontade de ter perto de mim quem vive milhas e milhas distantes?
Daria para viver tanto tempo ouvindo apenas o som da voz de quem se ama? Eu queria sentir seu cheiro, seu colo, escutar o seu suspiro leve quando adormece em meus braços, os mais singelos detalhes dela me faziam falta. Não sei por quanto tempo resistiria, isso não estava especificado no roteiro, só sei que era com ela que queria atuar neste filme de minha vida.
O Jiu-Jitsu é uma paixão que me levou a navegar por terras e mares distantes de casa. As palavras que escrevi sobre esta paixão acabaram conectando as minhas ideias e sentimentos com as ideias e sentimentos de uma mulher que vivia milhas distantes de mim, a qual desconhecia a existência até ela ler as minhas linhas e procurar saber quem eu sou. No âmago do sentimento que nutro por minha arte, encontrei o amor que se quer sabia que procurava.
Não conseguíamos esperar tanto tempo assim só pensando no momento de nos encontrarmos. Sem que estivesse em nossas perspectivas, Luana conseguiu vir a Campo Grande ainda em janeiro, agora para me acompanhar no ordinário de minha vida cotidiana. Tê-la ao meu lado nos desafios diários, tornaram minha vida mais fácil. O simples toque de sua mão em minha cabeça depois de um dia desgastante, era o bastante para fazer tudo valer a pena. Será que o namoro à distância bastaria para o amor que tínhamos?
Quanto tempo é necessário para saber que a pessoa é aquela pessoa? Seis meses? Um ano, dois ou três pelo menos? Ou seria uma década? Eu honestamente não sei, só sei que não seguia mais os protocolos da razão, seguia apenas o amor que irradiava em meu coração.
Naquele primeiro toque em Três Lagoas, um simples entrelaçamento de mãos, seguido pelo deitar em seu colo, tinham me dado a resposta que precisava. Não era necessário o ponteiro do tempo para me dizer se era ou não amor, o tempo só iria estender a agonia de fingir que ainda estava pensando em qual seria a resposta. Uma decisão difícil de se tomar, deveríamos nos lançar na aventura de nos unirmos de vez?
Por semanas recebi a mesma pergunta de pessoas próximas: Você vai embora para São Paulo? Minha resposta sempre foi a negativa da possibilidade. Mesmo assim, as pessoas sentiam em meu olhar que algo iria acontecer em breve, uma mudança brusca no roteiro.
Pensava em todos os contras de mergulhar de vez nesta história. Eu não sabia o amanhã, se iríamos nos amar ou nos odiar, só sabia o que sentia no momento. Já havia perdido muitas batalhas no amor, havia perdido em grande medida por minha própria incompetência, incongruência e dúvidas. A vida é um tatame, e o amor uma luta das mais difíceis de pelejar, mas, Ah... Foda-se! O que eu quero é me jogar mesmo, e eu já havia decidido para onde iria.
Depois do amanhecer, nossa história continuou, e enquanto escrevo estas linhas, Luana dorme na cama de nosso quarto em Campo Grande, não mais como uma visitante, mas agora como minha esposa. Não estávamos fadados a viver um amor de verão ou um namoro à distância.
Se no Jiu-Jitsu me guiei pela paixão, por que não transportar isso para a minha vida íntima? Sigo agora nesta jornada acompanhado por um amor, ao lado de uma verdadeira companheira de vida, conhecida em uma grande aventura de verão, mas que agora vislumbro que me acompanhará nos vários amanheceres de nossa história.


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