Jiu-Jitsu Adventure MS. Ep. Extra: Jiu-Jitsu e Paixão, Paixão e Jiu-Jitsu: Jornada até a Academia Demian Maia




                                                             Capítulo 1. Até o Amanhecer


        Os caminhos do coração e do Jiu-Jitsu me carregam para lugares que não são, na maioria das vezes, planejados, esperados, nem sequer imaginados. A história que vou lhes contar possui elementos de uma paixão que me levou para mais de 1000 quilômetros distantes de minha casa, tudo graças à força criadora do Jiu-Jitsu. Agora deixemos de enrolação e deixe-me começar a história propriamente dita.

        Há cerca de dois anos, recebia em meu Instagram uma mensagem de uma leitora. Ela havia lido meu livro “Jiu Jitsu Brasileiro: uma visão cultural e antropológica sobre a brasilidade da arte suave”, e compartilhou comigo a experiência dela com as minhas ideias. Gostei das ideias que ela me passou, e daí em diante, mantivemos um contato neste nível de troca de ideias sobre Jiu-Jitsu. Esta leitora é uma paulista que vive na cidade de São Paulo, e se chama Luana.

          Na época em que conheci Luana, ela treinava e trabalhava na Alliance Jiu Jitsu São Paulo. Depois de um tempo, ela passou a treinar e trabalhar na Academia de Demian Maia, lenda do Jiu-Jitsu. Neste momento de mudança de academia, ocorreu um ponto em que mais uma vez cruzei minhas ideias com Luana.

          Penso que meu editor havia me dito algo sobre trechos do meu livro serem selecionados para uma espécie de museu da história do Jiu-Jitsu, mas não fui atrás de saber se tinha rolado. E esta história ficou esquecida, até receber uma mensagem entusiasmada de Luana. Ela me contava que viu trechos do meu livro na academia de Demian Maia. Fiquei muito feliz em saber disso, mas infelizmente não tinha como ver in loco, apenas compartilhando com ela que me sentia feliz pela menção. Com mais proximidade com ela, resolvi pedir um favor.

           Pedi para Luana me ajudar a entregar o meu livro para Demian Maia. Com o auxílio do meu amigo e aluno Caio, residente de São Paulo, fiz uma logística para que o livro chegasse até as mãos dele. Este pequeno momento foi algo que nos aproximou mais um pouco. Mesmo sem nunca termos nos visto pessoalmente, Luana esteve disposta a me ajudar a divulgar meu livro, isso sem receber nada em troca. Esta disposição toda, o carinho com que ela tratava meu trabalho, me fez criar um laço de amizade, mas infelizmente não era possível nos encontrarmos por conta da distância.

            O rio da vida fluiu, e nossos caminhos continuaram distantes. As redes sociais são “o mal” e “o bem” da contemporaneidade, por vezes afastando pessoas que estão próximas fisicamente, e outras vezes aproximando pessoas que estão há milhas de distância de nós. Pode ser dito muito mal das redes sociais, que elas estão enfraquecendo as relações, ou que tornaram as relações líquidas, como diria o filósofo Zygmunt Bauman, em “Modernidade Líquida”. Contrariando esta tese, este testemunho será sobre como as redes sociais conectaram duas pessoas que, mesmo com os corpos distantes, compartilharam ideias e ideais através de uma tela de celular.

            Vindo de uma desilusão amorosa, sim, faixas pretas padecem dos mesmos males que afligem a alma de qualquer vivente do amor, passei por um momento de solidão. Este processo de término, varia de pessoa para pessoa, o meu no caso, levou cerca de três meses, passando por um período de genuína “sofrência”. Durante este processo, comecei a prestar ainda mais atenção em Luana, que parecia lidar bem com a solitude. Passado a “sofrência”, período que fui guiado pela sabedoria das músicas de Marilia Mendonça, me sentia pronto para dar chance a conhecer alguém. Mas não sabia exatamente por onde começar.

             Por incrível que pareça, em vias de alcançar a idade de um Master 2, no ramo da vida amorosa pareci voltar a ser o meu eu da faixa branca Juvenil. Os erros cometidos e os traumas da desilusão, me fizeram regredir no tempo, me fazendo sentir novamente como aquele jovem magricela que fui na adolescência, aflorando meu lado tímido e sem confiança. Como no passado, escolhi me recolher aos meus gostos pessoais, abortando uma “volta” ao universo dos relacionamentos.

             O fim do ano havia chegado, já sentia os ventos dos climas de festejos natalinos. Sozinho, meu planejamento era simples, visitar meu primo na cidade de minha família, em Três Lagoas, e passar uns dias em casa desconectado de Jiu-Jitsu. A primeira parte do meu planejamento transcorria normalmente, até que em um dia os ventos mudaram e carregaram a caravela de minha vida para outros rumos.

         Em uma confluência cósmica, Luana encontrava-se em Votuporanga, pela primeira vez, estávamos distantes por centenas de quilômetros apenas. Isso é longe pra se pensar em conhecer alguém? Depende do ponto de vista, e principalmente do fator chave, vontade. Quando vi que ela estava mais próxima, puxei assunto, mas calculava as possibilidades baixas de nos encontrarmos, pois não tinha ideia do cronograma dela. Mesmo assim, decidi arriscar, e sugeri um encontro nosso, ao melhor estilo que fazia na adolescência, escrevendo a frase de convite, apertando o comando de enviar no impulso, e desligando tudo para não ver a resposta imediata.

           Em meus tempos de sofrência, assisti alguns filmes românticos, a fim de conhecer melhor os causos e percalços da paixão. Um desses filmes se chama “Antes do Amanhecer” (EUA, 1994), que me inspirou. A sinopse do filme é essa: um casal se conhece ao acaso em um trem, o homem está voltando para seu país, os Estados Unidos, e a mulher faz um tour pela Europa. A conexão entre o casal fluiu de maneira tão natural, que o protagonista convida seu par protagonista a passar um dia juntos, antes do caminho de ambos se dividirem. Nesta jornada, o casal vai vivendo em um curto espaço de tempo, diferentes etapas da paixão, antes de se despedirem em definitivo, para nunca mais se verem. Achei interessante a ideia do filme, isso me fez arriscar viver aquela experiência, uma espécie de reedição da ficção na realidade.

         Sem criar mais alarde, Luana aceitou a proposta, e finalmente iríamos nos conhecer pessoalmente, para quem sabe, trazer pra vida real a magia da arte ficcional. Depois de tanto admirá-la virtualmente, iríamos nos encontrar, vivendo na vida real um encontro até o amanhecer.

           Nosso “até o amanhecer” aconteceu no dia vinte três de dezembro. Luana chegaria pela manhã, e em tempos de férias costumo dormir até muito tarde. Ela me avisou que iria sair da cidade em que estava, Votuporanga, interior de São Paulo, cedo pela manhã. Eu li a mensagem, respondi, e voltei a dormir, calculando um longo tempo até ela chegar. Mas fui acordado por uma segunda mensagem dela, enviando uma foto, perguntando se era aquela rua em que estava. Quando visualizei a foto, vi que era mesmo!

          Pulei da cama num susto, e tive tempo apenas de passar uma água no rosto, e fazer uma escovação de dentes às pressas. E assim, ao mais natural de um ser humano, com cara amassada de alguém recém acordado de seu estado de sono, fui ficar cara a cara com Luana, dois anos depois de nos conhecermos virtualmente.

           Quando a vi pela janela do carro, instantaneamente Luana sorriu para mim. Já havia visto seu sorriso várias vezes na tela do meu celular, mas ali, há poucos metros de distância, me pareceu como que, mesmo sendo a primeira vez que a via, aquele era um sorriso registrado em minha memória, não parecendo ser a primeira vez que nossos olhares se cruzavam. Enxerguei um brilho no fundo de seus reluzentes olhos claros, me sentindo instantaneamente feliz.

            Fiquei um pouco sem graça, visto o estado nada arrumado em que me apresentava, sendo essa a primeira impressão que eu passava. Entramos na casa do meu primo, na qual estava instalado, e logo tive que me afastar dela para tomar um banho, algo que tive apenas cinco horas para ter feito antes da chegada dela... Depois de ficar mais arrumado, começamos realmente a nos conhecer.

            Em um passeio de carro pela cidade, seguia ao seu lado no banco do passageiro. Meio tímido no início, estava vivenciando uma timidez que tinha na adolescência, quase evitava a troca de olhares com ela. Essa timidez normalmente me travavam as ideias, mas, mais experiente, consegui fluir e não deixar o assunto esfriar em momento nenhum.

            Estava escutando e me acostumando com o som de sua voz, para mim, apreciar o som da voz de alguém é o primeiro passo. Uma expressão que ambos repetíamos nesta conversa inicial era: “Que doidera!”. Era doido mesmo pensar no que estávamos fazendo, e que dois dias antes nem sequer tínhamos planos de nos encontrarmos pessoalmente, e naquele momento, estávamos ali lado a lado, prontos a viver uma experiência nova para ambos.

           Luana continuava: “Quem imaginaria que estaria em Mato Gross..”. Interrompi-a neste momento, para lhe dar a lição básica de convivência em terras pantaneiras. Chamar só de Mato Grosso, gera uma reação espontânea do nativo, que quase grita: DO SUUUL!  Mas contive em mim este impulso nativo, e em tom médio, completei “do Sul”. Expliquei o porquê da regra de nunca chamar de Mato Grosso, e Luana estava apta a não cometer a gafe, começando a aprender um pouco da cultura local.

            Enquanto o clássico do cinema romântico, que citei como inspiração de nosso encontro, se passava na exuberante Viena, em um lindo dia ensolarado e noite estrelada, nesta versão remake tupiniquim, eu levava Luana para conhecer uma cidade interiorana do Mato Grosso do Sul, Três Lagoas, em um dia de chuva intermitente.

            Mesmo com esta gritante diferença de cenário e clima, resumiria que nosso encontro até o amanhecer refletiu na vida a emoção da arte, deixando um final de saudade, daqueles filmes em que o casal se divide. Nosso amanhecer acabara, tirando-nos daquele sonho passageiro de amor que foi nosso encontro, fazendo-me despedir dela na rodoviária, sem uma previsão de vê-la novamente, apenas na promessa de que não seria a última vez.

             O gosto que ficou depois do nosso encontro até o amanhecer foi de saudade. Sentia que queria conhecer mais dela, e que nosso até o amanhecer não havia acabado. Conversando quase que ininterruptamente durante o natal, bateu uma vontade genuína de nos encontrarmos. Quase como uma telepatia, tivemos a ideia de ela vir até Campo Grande, e eu voltar com ela até São Paulo, passando assim o ano novo juntos. Estava planejando uma viagem de férias, com alguém que havia conhecido pessoalmente dois dias antes, será que esta rapidez e convivência mais longa, quebraria nosso encanto? Como seria a vida após o amanhecer?

            Dia vinte e sete de dezembro, Luana chegava em Campo Grande, encarando mais de sete horas de viagem de carro. Esta jornada que ela cumpria sozinha, me deixava a responsabilidade de fazer valer a pena tanto esforço, e eu estava disposto a fazer valer. Quando da soleira de minha porta via Luana mais uma vez chegar, em uma noite de céu tomado por nuvens avermelhadas, tive a impressão de que não a via fazia muitas luas, e que mataria minha vontade de estar com ela depois de uma era de saudade.

            Tá, e cadê o Jiu-Jitsu nessa história? Calma, estamos chegando lá. Não vou descrever os por menores de nosso segundo encontro, apenas resumindo que a paixão subia em uma ascendente que me impressionava, e ao mesmo tempo me assustava até. Faltava viver um ponto chave de nossa conexão, o Jiu-Jitsu.

            Nossa primeira interação no tatame ocorreu em uma tarde ensolarada da cidade incrustada no cerrado do centro-oeste brasileiro. Dormimos depois do almoço, e recém despertado de um sono profundo mais uma vez iria conhecer Luana, desta vez no Jiu-Jitsu. Mesmo com sono, vinha motivado, percorrendo animado, lado a lado com ela, o caminho até a academia da Gracie Barra Centro, que fica poucos metros defronte meu lar.

            Meu corpo sentia preguiça de reativar o Jiu-Jitsu, mas treinar com Luana era uma motivação extra. Tinha curiosidade em treinar com ela, eu acompanhava parte da sua rotina de treinos, e imaginava que fisicamente ela era super preparada. Seus braços e troncos são visivelmente fortes, e me indicavam que força ela devia ter. Será que nos daríamos tão bem no tatame quanto nos demos fora dele?

          No tatame não há meio de se esconder. Costumo dizer que é no tatame que conhecemos e reconhecemos as facetas mais profundas de uma pessoa. Seus medos, anseios, desejos e temperamento, em algum momento dão as caras. Conhecer Luana no tatame foi mais um elo de ligação nosso. Encantei-me com sua técnica, vontade, e disposição, aliados a uma genuína vontade de me superar em todos os terrenos da luta. Mais uma vez me apaixonava por Luana, desta vez por seu Jiu-Jitsu.

            Apresentei o Jiu-Jitsu que praticamos aqui em Mato Grosso do Sul, um pouco do trabalho que há anos desenvolvo em minha academia, um momento especial desta jornada. Aliado ao Jiu-Jitsu, apresentei as belezas da Capital Morena, como nossa Feira Central, o Parque das Nações Indígenas, e nosso novíssimo aquário, contando a ela que este complexo demorou mais de dez anos para ficar pronto, e foi construído a base de muita corrupção. Tudo transcorria ainda melhor que no primeiro dia.

           Campo Grande havia sido mais um sucesso nosso, Mato Grosso do Sul de certa forma pareceu conquistar Luana. Nesta estada ela conheceu boa parte do meu mundo, minha família, amigos e meu trabalho. Chegara a hora de eu ir conhecer o mundo de Luana, na distante São Paulo, cidade que me assustou no passado, e que por muito tempo me fazia pensar que dificilmente a conheceria.

            Havia estado em São Paulo na minha juventude dos vinte anos. Ainda faixa roxa, lutei o Mundial da CBJJE, que aconteceu no Ibirapuera. O caos urbano, a dimensão da selva de pedra paulistana, assustou meu eu jovem. Nesta estada, só havia ido do hotel para o ginásio, e em seguida para a rodoviária. Voltei para casa quase não olhando pela janela do ônibus, deixando aquela selva de vez, sem a mínima vontade de retornar. Mais de quinze anos depois, lá estava eu, um lutador semi-aposentado, indo encarar novamente a Selva de Pedra, mas em outras circunstâncias.

          Saímos em um dia ensolarado de Campo Grande, e em menos de uma semana estávamos realizando a nossa primeira viagem de casal. Em minhas experiências pregressas, esperava meses antes de arriscar viajar com a pessoa que estava, mas com Luana, poucos dias bastaram para me convencer que seria uma boa aventura. Será que estávamos indo rápido demais? Algumas vezes me perguntei, mas resolvi seguir minha intuição.

              Os ventos sopravam a favor, carregando-nos pela longa estrada como que em tempo acelerado. Cada quilômetro me fazia sentir ainda mais próximo dela, fazendo a viagem de Campo Grande-Votuporanga passar tão rápido como uma brisa refrescante.

             Uma parada em Votuporanga, cidade em que Luana cresceu. Conheci a sua família, nunca antes havia feito isto em tão pouco tempo também. Consegui conhecer nesta estada na cidade de Luana, parte de sua infância e juventude, tornando-me mais íntimo dela, de certa forma parte de nossas histórias de vida já haviam sido contadas para ambos. Seguimos viagem, desta vez rumo ao destino final de nossa jornada juntos, São Paulo capital.

           São Paulo desta vez não mais me assustava. Havia neste trajeto de vida, conhecido outras grandes metrópoles, tais como: La Paz, Singapura, Tóquio, Manila e Los Angeles. De certa forma, a magnitude das megalópoles ainda me intimida um pouco, mas não mais a ponto de me deixar com medo. Nesta volta a Selva de Pedra, tinha uma guia experimentada nos meandros dos caminhos desta relva de cimento, sendo assim, nada precisava temer.

            A cidade de São Paulo estava em seu período mais calmo, não apresentando traços do caos urbano vendido nos jornais. Em uma cidade com pouca movimentação, caminhamos tranquilos pelas ruas, com Luana me apresentando os pontos da cidade, sem distinção de ser bom ou ruim. Fomos nos pontos da cidade que ela mais gostava, os quais compartilhei o gosto dela por estes locais, tanto pelo local, quanto por tê-la como minha companhia. Qualquer passeio nosso era um evento único, mágico e sincero. Enquanto sentia crescer meu sentimento por ela, me alertava que o privilégio da companhia dela cessaria, e ficaríamos léguas distantes um do outro em poucos dias.

            Enquanto os fogos estouravam no céu, e se anunciava o início de um novo ciclo, sentia-me recomeçando, carregando os ensinamentos de tempos difíceis, mas curado deles, vivendo o frescor novo do amor por uma mulher que conhecera há poucos dias, mas que parecia naquele momento já fazer parte integrante de minha vida.

             No dia dois de janeiro, Luana me falou que poderíamos treinar na academia do Demian Maia, onde treina em São Paulo. Mesmo estando de férias, sabia que era uma grande oportunidade, primeiro por mais uma vez ter o prazer de compartilhar a companhia de Luana, segundo por poder ver meu trabalho literário registrado, e terceiro, por poder treinar na escola daquele que considero o maior representante do Jiu-Jitsu puro no MMA. Ela me falou que possivelmente Demian não estaria lá, imaginei mesmo que seria difícil encontrá-lo nesta época de festa, mas as duas oportunidades que teria, já fariam valer a pena a visita.

            No meio das férias mais romântica de minha vida, iria experienciar um Jiu-Jitsu Adventure, desta vez na cidade de São Paulo, visitando o lar da Lenda do Jiu-Jitsu e MMA Demian Maia!

 

 

Capítulo 2. Face a Face com a Lenda- Escola Demian Maia de Jiu-Jitsu Brasileiro

 

        Em uma manhã nublada, o sol aparecia pelas frestas das nuvens, deixando assim um clima abafado, bem diferente da sensação térmica que sentia em meu lar em meio ao cerrado. Saímos do apartamento de Luana rumo à Escola Demian Maia de Jiu-Jitsu Brasileiro, cedo pela manhã, impressionando-me pela agilidade e logística de Luana. Ela mora muito perto da academia, então nosso trajeto foi bem curto, não dando tanto tempo de sentir aquele frio da barriga de quem está indo treinar em um lugar diferente.

            O filtro em minha visão mais comum da capital paulista acaba sendo o cinza, mesmo com toda variação de cores pintadas nas várias artes urbanas, os raios solares refletidos nas estruturas de concreto, metal e vidro, acabam sempre me deixando com a impressão de que os prédios engolem partes do céu, me dragando para os acordes iniciais da música de Bob Marley “Concrete Jungle”. Em uma fachada toda em branco, consigo ler o emblema: “JIU-JITSU - Since 1925”. Chegamos ao destino, era hora de me aventurar pela técnica pura do Jiu-Jitsu de combate real.

            Por dentro, a academia parece absorver o filtro que tenho de São Paulo.  O cinza, o branco e o preto são as cores predominantes que ornamentam as paredes do ambiente. Nas paredes, observo os vários posters de lutas de Demian no UFC, dando-me a dimensão do tamanho do lutador que rege esta escola. Em poucos metros da entrada, chego ao mural que me ajudou a me conectar com Luana.

          Grandes murais fotográficos dragam minha atenção para o alto, e quando olho ao chão, leio anunciado: História, Cultura e Arte. Quando pensamos em museu, lembramos talvez de experiências em lugares específicos, voltado somente para esta atividade, e que guardam objetos de valor artístico histórico, do qual por meio desta experiencia de visualizarmos, temos uma imagem do passado. Este museu guarda as mesmas características de qualquer um, emanando a tradição da arte suave brasileira. E o que há de mais em fotos e breves relatos escritos? Vejamos.

            Meu principal objetivo em escrever qualquer coisa sobre Jiu-Jitsu é exercitar a salvaguarda da história e cultura desta arte marcial. Vejo que temos um déficit neste tipo de aprendizado, sendo grande parte dos praticantes não conhecedores da história da arte marcial que escolheram como caminho, visto isso, resolvi tentar fazer minha parte.

            É um trabalho de formiguinha, em que várias mentes trabalham para ampliar o que já se sabe e divulgar o valor que o Jiu-Jitsu tem em sua trajetória.  Toda a iniciativa neste sentido tem de ser louvada, seja um texto na internet, um livro, um filme ou um museu, são estas produções educativas e de entretenimento que mantêm vivo o legado da arte marcial mais apaixonante do planeta.

            Em não mais de vinte minutos de calmaria e atenção, o visitante consegue construir uma ideia das origens, processos e personagens históricos que fizeram o Jiu-Jitsu ser a arte que é. De Conde Koma, passando pelos membros da família Gracie, desembocando na glória de Demian Maia, a história está exposta ali para quem quiser conhecer e se reconhecer como parte deste universo marcial que é o Jiu-Jitsu. E onde estou eu nesta tão magnífica jornada? Luana me mostra exatamente onde estou.



            Em dois retângulos azuis, vejo escrito naquele acervo parte de um capítulo do livro que escrevi. Naquele singelo instante, me lembrei de quando escrevi aquilo, não do exato momento, mas o que sentia durante o processo de escrita de meu livro. Para mim, era só eu, na solidão dos meus pensamentos, jogando em um papel uma ideia que tinha em minha mente. Não pensava quantas pessoas iriam ler aquilo, pensava que se alguém lesse já estava de bom tamanho, e, agora, vendo aquela ideia em São Paulo, na academia de uma lenda do Jiu-Jitsu, fez sentir valer a pena ter escrito cada palavra. Enquanto ainda vislumbrávamos o museu, digo a Luana: “Olha quem veio.”

            Ao longe vi chegando uma figura reconhecível, mesmo distante. É estranho ver alguém que você já viu várias vezes nas diferentes telas que nos acompanham na vida, contrastando as diferenças de como achávamos que a pessoa é. No primeiro treino do ano, chegava o comandante da academia.

             Demian Maia vinha passando pela catraca, impressionando-me por ser muito maior do que imaginava, uma ilusão de óptica de quem tem a imagem dele lutando com lutadores tão grandes ou maiores que ele, ao vivo, eu percebi que ele era muito maior do que eu!

            Em seu andar com um leve repuxar da perna, vem em minha direção ninguém menos que a Lenda do Jiu-Jitsu. Para o leitor que possa estar pensando ser exagero meu, eu explico a dimensão que a trajetória de Demian tem para o Jiu-Jitsu Brasileiro.

            No cenário esportivo, Demian conquistou a maioria dos títulos dos maiores campeonatos do seu tempo, competindo com e sem kimono. No cartel de Demian no Jiu-Jitsu, estão lutas com os melhores lutadores de sua geração. No MMA é que seu legado se expande ainda mais.

            Não é nada simples esta transição do Jiu-Jitsu esportivo para o MMA, ainda chamado de Vale Tudo nos tempos em que Demian começou nesta vertente de combate. Na geração de Demian, tempo em que o Vale Tudo oferecia melhores condições de ascensão financeira que o Jiu-Jitsu Desportivo, a maioria dos campeões se arriscou nos ringues e octógonos mundo afora. Quantos tiveram sucesso?

            Digamos que muitos lutadores extremamente habilidosos, donos de Jiu-Jitsus impressionantes, acabaram não se adaptando a este ambiente hostil do Vale Tudo, retornando rapidamente para o terreno em que sua habilidade fazia reinar. Um destes campeões fez a migração e demonstrou o caminho necessário para fazer sua técnica valer diante de um combate com poucas regras

            Demian Maia adentrou estes duros e ásperos ambientes, adaptando seu Jiu-Jitsu aos perigos da luta com poucos limites de regras, encantando o mundo com sua capacidade ímpar de fazer a arte suave funcionar diante dos melhores lutadores, de uma modalidade a qual considero a mais dura forma de combate.

            No maior evento de MMA do Mundo, o UFC, Demian foi o bastião do Jiu-Jitsu. Com imagens icônicas de lutadores sucumbindo a sua técnica brasileira de Jiu-Jitsu, suas glórias são orgulho de toda uma comunidade, que sentia emoção ao ver a arte marcial que amam demonstrar sua letalidade e o porquê de ser temida e respeitada. Era esse cara que vinha me cumprimentar.

          Para Luana era só um encontro corriqueiro, para mim, era um evento único, no qual iria conhecer uma figura histórica da arte marcial, ainda por cima em plena atividade. Demian me cumprimenta, naquele momento não sabendo quem eu era, Luana me apresenta, e Demian diz : “Ah, você que é o Diego Colino”, fiquei feliz e surpreso ao saber que de certa forma ele lembrava pelo nome quem eu era.

           Temos uma conversa breve entre nós dois, e Demian se despede nos esperando para o treino. Ele não parecia alguém vindo para um “treininho” de início de ano, me passando a impressão de um atleta ainda compenetrado na disciplina profissional. Não fazia ideia do que esperar de um treinamento guiado por ele, ainda mais em se tratando de um período de férias. Preparei meu espírito para um treino amistoso, mas que com certeza me levaria para mares desconhecidos.

          Vesti minha rash, uma rash emprestada de Luana, havia esquecido de trazer a minha, e pela minha magreza de períodos festivos, pareceu que ia servir. Trajado com uma rash de manga azul, com o logo de Demian Maia no peito, parecia mais um dos discípulos daquela escola, não fosse o aperto e a barriga quase à mostra, em uma vestimenta que claramente não era do meu tamanho. Mesmo no limite, a rash coube, e estava pronto para subir para treinar.

           A estrutura da academia impressiona. Com espaços bem distribuídos, as dimensões do prédio foram aproveitadas da maneira mais criativa possível, e muito bem organizadas. Ao longo do caminho Luana me apresenta os tatames que fazem parte da estrutura, vou subindo as escadas e conhecendo as áreas de luta.

             O primeiro cômodo, chamado de Tatame Carlos e Hélio Gracie, é uma sala de tamanho menor, revestida toda em tatame cinza. O segundo tatame fica um andar acima, semelhante ao primeiro, porém maior, mudando o nome do homenageado para Tatame Fábio Gurgel.

             Nesta ampla sala fechada, com janelas captando a luz solar e iluminando o salão, o tatame em cinza reveste todo o espaço, o treino vai ocorrer. Luana me mostra ainda o tatame que fica no outro lado do prédio, e pela janela da porta, vejo a sala, que não é tão grande quanto a que iríamos treinar, mas era ampla também. O diferencial desta sala é a grade de MMA que reveste parte da estrutura da parede. Olhei aquele espaço, e pensei que gostaria de treinar ali, imaginando que seria um desafio interessante. Voltamos para o tatame principal, o treino iria começar.

            Quando entro na sala, só há um rapaz varrendo o tatame. Com ele compenetrado em sua função, ficamos só eu e Luana no tatame. Quando observo o ambiente à minha volta, sinto sintomas de um mal que me acompanha desde sempre, a claustrofobia.

            Tenho essa fobia de espaços fechados, e no Jiu-Jitsu encontrei a fórmula de amenizar o mal estar de me encontrar em tal situação. Percorro toda a extensão do tatame, buscando me ambientar e acalmar minha mente. Conforme sinto o espaço que percorro, e minhas costas sentem a maciez e rigidez do tatame, minha mente começa a conectar com o terreno, fazendo-me desligar do mal estar fóbico. Rapidamente sinto o ar deixando de ficar quente e pesado, conseguindo sentir meus pulmões se encherem de ar fresco, acalmando assim minha mente.

        Sentia-me bem para aquele treino, observando em vários momentos Luana ao meu lado se aquecendo livremente. Os participantes do treino vão chegando, os poucos previstos por Luana, vão se transformando em muitos, formando uma turma bem heterogênea, com caras grandes e atléticos, junto com jovens garotos e coroas com cara de serem cascudos.

             Demian entra na sala. Automaticamente todos no tatame entram em estado de alerta. A presença dele no tatame é forte, dando a quem está no treino a impressão de que terá uma jornada dura naquelas horas subsequentes. Ele brinca um pouco com seus alunos e faz seu aquecimento para o treino. Em cerca de cinco minutos, Demian Maia anuncia o início da aula.

            Rodeado pelos alunos, Demian explica os meandros da luta em pé, tento perceber cada detalhe que ele ensina. Já havia estudado muito seu jogo de MMA, ver de pertinho e poder aprender diretamente com ele fazia minha atenção hiper focar no que ele explicava. Desta vez tinha uma parceira de dupla especial, Luana.

            Luana foi uma ótima parceira de técnica, demonstrando um vigor físico, que parecia estar num gás muito melhor que eu. Depois das técnicas em pé, Demian demonstra as técnicas mais atuais sobre os famigerados “Heelhooks”. Neste momento troco de dupla, Luana tem uma parceira mulher para desenvolver suas técnicas.

      Faço dupla com um faixa preta de Demian, chamado Nelson. Ficamos eu e ele estudando as possibilidades da situação, utilizando de maneira positiva todo espaço de tempo para aquela atividade. Depois fizemos um específico daquela situação, momento em que temos um confronto um pouco mais intenso, mas tudo ainda na tranquilidade de uma pré temporada. Terminado o específico, já me sentia um tanto cansado, mas ainda com disposição para um rola, caso ocorresse. Demian nos libera para tomar água e diz que na volta teria um sparring.

          Bebemos água e nos preparamos para a última parte do treino. Quando retornamos ao tatame, Demian explica que era para tomarmos cuidado, pois era o primeiro do ano. Concentrava-me para fazer um bom primeiro sparring do ano, e observando a minha volta, se o critério fosse tamanho, haveriam vários componentes do treino com os quais poderia fazer dupla. Demian dividia as duplas, eu e Luana mais ao fundo esperávamos a indicação de quem seria nossa dupla.

            Fui percebendo que as duplas estavam se formando, e eu ainda estava sobrando. Foram uma a uma sendo casadas as duplas de combate, até que Demian olhou para Luana e apontou o destino dela, restando apenas eu sem dupla. Observei ao lado, e vi que todos os alunos do treino já tinham seus oponentes, a maioria já perfilada frente a frente. Nesse momento, fiquei em dúvida qual seria meu destino, cheguei a pensar que poderia sobrar, até que Demian, lá de onde estava, anunciou quem seria meu adversário: “Vamos fazer uma Diego?”. Lá estava meu primeiro treino do ano, ninguém mais, ninguém menos, que a lenda Demian Maia!

            Senti neste momento um misto de emoções, honrado pela oportunidade, e ao mesmo tempo me sentindo um pouco azarado por ser ele meu primeiro treino do ano. Caminhei os poucos metros que me separavam dele, um percurso curto, mas tal como um batedor de pênaltis indo ao encontro da bola, raciocinava todas as estratégias que teria para sobreviver àquele treino. Chego e cumprimento Demian, para ele mais um treino em sua vida, para mim, um dos maiores desafios de minha jornada de lutador.

            Frente a frente com ele, acalmo minha mente, mentalizando minha técnica e buscando fortaleza de espírito. Esperava a indicação de tempo para planejar meu ritmo no combate, e sou mais uma vez surpreendido por Demian, que anuncia o tempo de luta: “Vai ser sem relógio galera, eu vou marcar um tempo, mas aí vocês não sabem”. Agora tinha ficado ainda mais “tranquilo”, um rola sem tempo com Demian Maia...

            O treino começaria na situação de agarrado na single leg. Demian se aproxima, e me pede para começar na perna dele. Não havia tempo para nenhum planejamento, os Deuses do Jiu-Jitsu colocaram-me como primeiro desafio do ano um treino sem tempo com Demian Maia. Restava-me apenas me lançar nesse mar revolto, sem saber qual o tamanho das feras que nele habitam.

         Lá estou eu nesta situação, segurando uma perna de Demian Maia, pensando como poderia derrubar um cara que em sua carreira levou pouquíssimas quedas. Este era meu primeiro desafio do ano no Jiu-Jitsu.

            O sino toca, o corpo de Demian enrijece, me indicando que havia começado a luta. O que poderia fazer naquela situação? Não havia tempo pra pensar muito, eu estava já em alto mar, e os ventos iriam começar a soprar...

            Querem saber como foi minha aventura neste treino? Se apanhei muito do Demian Maia? Se o amor meu e de Luana venceu a barreira do tempo e distância? Se estamos juntos? Se já nos casamos? Estas e outras respostas estarão nos capítulos finais desta jornada de paixão e Jiu-Jitsu.

 

 

 

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