Jiu-Jitsu Adventure MS EP:13: O Último Uivo do Lobo Mau Visita Inesperada ao Portal do Pantanal


 


 Missão Lobo

 

Este Adventure foi diferente do padrão ao qual seguimos ao longo dessa jornada. A situação foi tão inusitada, e tenho certeza, e torço para que, não se irá se repetir evento semelhante. Para começarmos nossa história, primeiro teremos que ir longe no passado, para assim apresentar a vocês o protagonista/antagonista desta crônica. Iremos a seguir para o ano de 2015, para lhes mostrar a ascensão do “Lobo”.

Entre os anos de 2015 e 2018, o mundo do Jiu-Jitsu competitivo foi sacudido por um furacão poderoso, que atendia pela alcunha de Erberth Mesquita dos Santos. Homem negro, alto e forte, sua técnica combinava explosão, instinto implacável em seus ataques, e sem misericórdia nenhuma dos adversários. Erberth fazia seus oponentes sucumbirem facilmente ante seu poder de fogo.

Durante sua jornada de ascensão, Erberth confrontou e venceu varias lendas do Jiu-Jitsu mundial. Suas lutas chamavam a atenção do público, e não era só por conta de sua performance implacável, mas sim por conta de sua personalidade fora do padrão.

No mundo da luta livre de entretenimento, conhecido no Brasil como Telecatch, mais divulgado através de sua maior organização, a WWE, as lutas são performances artísticas e teatrais. Um dos personagens clássicos deste tipo de peças teatrais em forma de luta, são os Heels, termo que traduzindo seu significado, seria o vilão da peça. Erberth em seu tempo se apossou da coroa de maior Heel do universo competitivo do Jiu-Jitsu.

Sua expressão quando registrada pelas câmeras e olhos do público, tinham em sua fotografia a seriedade, cara fechada e quase sempre exalando desprezo por adversários e público. Estes elementos são alicerces da construção de um grande vilão do teatro marcial. Quando Erberth lutava, a plateia o vaiava com toda sua indignação, desejando ver a derrota daquele vilão.

O que poderia ser algo desestimulante para um atleta, se tornou combustível para Erberth Santos. Ele lidou com a chuva de vaiais de uma maneira intrigante: “Eu tive que me vestir dentro do animal... Aí nasceu o Lobo”.

Travestindo-se em sua pele de vilão dentro do quadrilátero esportivo, parecia que Erberth continuava a vestir seu personagem fora de cena também. Sua vida nunca rimou com o caminho do guerreiro seguido pela maioria de seus colegas de profissão. Drogas, sexo e ostentação de luxos, eram a principal produção de conteúdo de sua vida privada.

Mesmo com suas inconsistências de conduta marcial, o Lobo conseguiu chegar ao topo do mundo, sendo um dos, se não o, destaque do mundial de Jiu-Jitsu da International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) no ano de 2017, a maior, mais tradicional e prestigiada organização de Jiu-Jitsu do mundo. Somente com vinte e três anos, Erberth conquistava títulos que muitos lutadores conquistam somente quando mais experientes. Se sagrando campão mundial em seu peso, e vice campeão absoluto, no que foi na minha opinião, foi a defesa de título mais dura da jornada de octa campeão mundial absoluto do recordista Marcus Almeida “Buchecha”. O “Lobo” tinha o mundo aos seus pés neste momento de sua carreira. Um futuro brilhava a frente do novo superstar da arte suave brasileira.

Por mais um ano, o de 2018, o Lobo continuo sua trilha de sucesso, título, fama e dinheiro. O vilão continuava também a acumular polêmicas extra tatame, mantendo nutrida a rejeição do público a sua figura. Nem só de hater vive o vilão da peça, eles acabam aclamados por parte do público, que se identificam com a personalidade destoante do antagonista do show.

Erberth formou sua “alcateia” de seguidores, que sua intensa atividade nas redes sociais, ajudava a manter engajados. Antes dos fatos que vão culminar em sua derrocada derradeira, o Lobo acumulava cerca de quatrocentos mil seguidores, um dos quais o escritor deste texto fazia parte, não por identificação, mas por curiosidade a respeito daquela figura intrigante.

Eis que do auge de seu sucesso desportivo, vertiginosamente Erberth veio ladeira a baixo nos anos seguintes. Sua derrocada desportiva pode ser medida em números: Em 2019- 13 lutas, uma queda vertiginosa quando comparada com as 75 lutas feitas no ano anterior, neste mesmo ano, O Lobo ficou famoso por mais um episódio controverso.

Em um combate de luta casada no BJJ Stars, contra seu arqui-rival, Felipe Pena “Preguiça”, Erberth pediu atendimento médico logo no início do duelo, alegando desconforto no joelho. Durante o momento do atendimento, o Lobo se desentendeu com alguém do staff do rival. Como que em passe de mágica, seu joelho voltou cem por cento, e Erberth partiu enfurecido e sem controle para cima da torcida rival, causando um pandemônio digno das maiores confusões em eventos esportivos. As imagens de Erberth descontrolado batendo e sendo agredido, rodaram o mundo, aumentando ainda mais sua, já grande, fama de maior Bad Boy do Jiu-Jitsu.

Conforme acumulava polemicas, o desempenho de Erberth desabava mais e mais. Mesmo contando com a Pandemia de Covid, que atravancou o mundo, a atividade desportiva de Erberth foi pouco expressiva e relevante nos anos seguintes: Em 2021- 10 lutas, e em 2022, ano precedente aos eventos que aqui serão descritos, foram míseros 4 combates.

O mundo de Erberth nesses anos de pouca atividade profissional, girou em torno de festas, quase que diárias, viagens recreativas constantes, uso público de vários tipos de entorpecentes, confusões com autoridades policiais, e por aí vai... Quase nada na vida do Lobo girava em torno do que havia o catapultado ao estrelato, o Jiu-Jitsu. Estando neste fundo de poço astral, foi que Erberth Santos, o Lobo, foi anunciado como presença Vip, em terras pantaneiras.

Em 2020, eu e meu amigo Breno Vidal “Carioca”, resolvemos investir nosso tempo em um tipo de modelo de comunicação que popularizou nestes tempos pandêmicos, o Podcast. Nosso ideal era levar para a tela dos dispositivos de comunicação, uma troca de ideias livre e sem censura, nascendo assim o Póstreino Podcast.

Nestes quase dois anos de atividade no ramo, entrevistamos no programa dezenas de estrelas do cenário local do Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul. Tivemos neste tempo de atividade, muitas boas entrevistas com a constelação de personagens da fauna exótica do Jiu-Jitsu Pantaneiro. Mas ainda não havíamos tido a chance de entrevistar uma personalidade conhecida mundialmente, e a visita do Lobo parecia ser o momento de darmos este passo adiante.

Sem nenhum meandre, convidamos o Lobo, conclamando nosso público, o qual se mede na casa de centenas, a inundar a rede social de Erberth, pedindo uma chance dele ao nosso programa. Não achava que isto seria o bastante, então pedi a ajuda a um dos malucos viventes do lifestyle do Jiu-Jitsu, Nicolas Favareto, o popular Nikão, que seria nosso emissário nesta missão.

Nosso emissário foi escolhido ante sua habilidade e disposição em buscar sempre um novo treino ou experiencia marcial. Nikao era o homem certo para conseguir convence-lo, visto que ele não tem vergonha de convidar, e disposição de sobra pra um confere dentro do tatame. O emissário até conseguiu contato com o Lobo, mas nos trouxe uma resposta desanimadora: “O cara é mala demais, é só Money... Ele disse que o BJJcria (outro canal de Podcast) pagou cinco conto pra ele falar lá uma horinha”.

Para um programa de orçamento limitadíssimo, pagar cache a um convidado é o fim da linha na tentativa de entrevista-lo. Visto este cenário, dei por encerrado a missão de angariar o Lobo como convidado, e assim termos nossa primeira entrevista com uma figura de projeção mundial.

Eis que um dos patrocinadores do programa, se mostrou interessado em ver acontecer este momento, oferecendo suporte financeiro, para assim convencermos Erberth a falar conosco. Fiquei sabendo desta notícia no domingo, sendo que segunda-feira seria o seminário de Erberth em Aquidauana, cidade conhecida como “Portal do Pantanal”.

Tínhamos um patrocínio, só necessitava disposição e vontade de ir encontra-lo, assim oferecendo ao Lobo um agrado financeiro que o fizesse mudar de ideia.  Convoquei o já parte integrante da troupe do Jiu-Jitsu Adventure, Melchor Ejea, que acompanhava há anos a carreira de Erberth, se empolgando com a missão tão logo a descrevi, e desta vez viria conosco Igor “Bodão”, um fã do estilo rebelde e sem limites do Lobo.

Nossa trinca partiu de Campo Grande-MS em uma tarde ensolarada. Até nosso destino, Aquidauana, em tese não levaria mais que três horas de viagem. Ao longo do caminho, vim destacando a meus alunos que, conheceríamos uma das forças mais assombrosas do Jiu-Jitsu. Mesmo sabendo do estado decadente que Erberth estava, ainda acreditava haver dentro dele traços de sua genialidade marcial.

A relva de Cerrado foi se transformando em selva do Bioma Pantaneiro ao longo do caminho entre as duas cidades. Seguimos pela noite por uma estrada pouco movimentada, não tão preocupados com veículos, mas sim com o maior perigo desta estrada, a travessia de animais selvagens. 

Por vezes temos o desprazer de ver algum animal típico da fauna pantaneira estirado no asfalto, vítima do avanço da civilização humana por dentre os domínios naturais em que estes animais vivem. Mesmo com esta triste realidade, a qual íamos com cuidado para não aumentar estes números, pelo escuro da noite adentramos a cidade de Aquidauana, o Portal do Pantanal.

A cidade de Aquidauana tem um ar de cidade antiga, com sua aura clássica refletida na arquitetura de casas do início do século passado, e nos paralelepípedos que são o alicerce de várias ruas do centro local. Adentramos uma localidade pacata, que em seu início de noite parecia já recolhida, com seus cidadãos vivendo suas atividades privadas.

Não tivemos muito tempo de vislumbrar a cidade, indo direto para a academia. No caminho vim me recordando da principal estrela revelada no Jiu-Jitsu de Aquidauana, Matheus Godoy, o conhecido e reconhecido “Pombo”.

Pombo começou o Jiu-Jitsu naquela localidade, mas ainda jovem migrou para a capital, aonde ano a ano buscou desenvolver suas habilidades marciais. Em poucos anos, Pombo chegou ao topo do esporte local, depois se destacando nacionalmente, e internacionalmente. O Jiu-Jitsu de Aquidauana pode se orgulhar de ter revelado para o mundo um dos maiores representantes sul-mato-grossense da história deste esporte.

A recordação de Matheus, que foi um dos oponentes mais duros que tive em minha carreira, me arremeteu ao seu combate com Erberth Santos. Um ainda inexperiente faixa preta, se confrontou com Erberth ainda vivendo seu auge, sucumbindo ao poder do Jiu-Jitsu do Lobo, que não deu chances no combate. Ainda disse aos meus companheiros de viagem, que no momento atual, seria o oposto, Erberth não teria chances contra o Pombo.

Chegamos rapidamente à academia da Team Gusmão, local em que aconteceria o Seminário de Erberth “o Lobo” Santos. Confesso que meu foco estava fixo na missão de convencer Erberth a dar a entrevista, acabei por não reparar nos traços singulares da frente da academia na chegada. Já eram quase sete da noite, imaginei que poderia já chegar e dar de cara com o Lobo, mas quando íamos adentrando a academia, ele não estava.

Na porta de entrada, conversavam os dois professores da academia, Gusmão e Leandro, que pareciam tratar de um assunto sério, e ao nos ver chegando, pararam a conversa e nos cumprimentaram, aparentando um certo ar de surpresa ante nossa chegada. Já era quase sete horas da noite, e Gusmão me disse que Erberth não havia chegado ainda, ele estava vindo de Anastácio, cidade colada a Aquidauana.

Em uma noite quente, que nem o esconder do sol havia diminuído o impacto do calor que o dia havia deixado, estávamos na academia Team Gusmão para cumprirmos a “Missão Lobo”. Me dirigi direto ao vestiário, que ficava bem no extremo da área da academia, e enquanto nos trocávamos, Igor Bodão fez uma observação: “Aquele cara maior (Leandro) deu uma risadinha quando chegamos, tem alguma coisa aí...”. Dissuadi Bodão a pensar que tinha algo rolando, pensei que talvez o Erberth estivesse atrasado, ainda falei que nós mesmo nos atrasávamos as vezes, imagina um Rockstar da parada, devendo ser o estrelismo de Erberth o motivo da risada disfarçada de um dos anfitriões. Nem mesmo havia vestido completamente o kimono, quando adentrou o vestiário Gusmão, que carregava no rosto uma expressão preocupada.

Gusmão veio e anunciou o que não esperava: “Mano, o Erberth não vem...”. Ele explicou que tinha havido um desentendimento entre o Lobo e o organizador do seminário, e ele não cumpriria o acordo. Gusmão continuou seu relato, de que Erberth havia passado o dia em Bonito, bebendo e usando outras coisas mais, e não estaria em condições de ministrar um seminário também. Enquanto absorvia o impacto da Missão Lobo se encerrar ali, fui persuadido por um pedido inesperado, “Dilon, você pode substituir o cara?”.

Os meus planos daquela noite eram outros, estar em um tatame para aprender algo, experenciar talvez uma força de Jiu-Jitsu sobre humana, negociar com um figurão com ar de estrela do Rock, mas não tinha em nenhum dos cenários previstos uma situação como aquela. Acredito que Gusmão nem deve ter notado minhas dúvidas quanto a aceitar o convite, pois no mesmo momento concordei em salvar o “show”.

Deixemos por hora o Lobo de lado, ele havia sido somente o instrumento que me carregou até aquele lugar, a Missão Lobo se transformou em questão de minutos em um Jiu-Jitsu Adventure MS na Academia Team Gusmão, conhecendo mais a afundo o Jiu-Jitsu Aquidauanense.


 Team Gusmão, Mantendo Vivo o Jiu-Jitsu de Aquidauana

 

A Team Gusmão fica em um galpão amplo, que possuí dois tatames de materiais diferentes, mas que mantém área de atividade como a mesma. A cor predominante do prédio é o preto, que recobre as paredes e a cor dos tatames. Consegui em um primeiro olhar notar que havia um número grande de mulheres aguardando, a maioria delas faixas brancas, além delas, havia alguns faixas azuis, mas a maioria do público eram de iniciantes. 

Entrei no tatame um pouco sem graça, pois teria que anunciar que a estrela do show não viria, mas que eu, alguém que a maioria deles não devia nem saber quem é, iria dar o show no lugar dele. Em minha mente, era como se uma banda reconhecida mundialmente viesse dar um show, mas não aparecesse na hora, e o promoter oferecesse em alento ao público, um show com uma banda local. Minha motivação para esta aula era fazer ao final os alunos esquecerem que o “show” programado para aquela noite era outro.

Já na chegada pude sentir que o tatame, que fica no início da área, era mais fino e feito de borracha, mas quando piso na segunda área, que é feita de lona e raspa, sinto como que pisando em solo cimentado. O carro chefe da Team Gusmão é o Muay Thai, uma arte marcial que com o efeito do impacto gerado dos seus treinamentos, assenta a raspa de pneu de tal forma, que compacta a raspa, transformando o tatame em solo tão duro quanto o chão.

Nos perfilamos, e Gusmão anunciou que havia acontecido um imprevisto e Erberth não viria, mas... Havia um professor, destacou parte do meu currículo que ele conhecia, que iria substituir o seminário. Não percebi neste momento grande impacto de desalento nos alunos, pareceu natural a troca, alguns inclusive, pareciam até empolgados com a surpresa de última hora.

Como fiz o ano todo, segui meu roteiro de seminário, ensinando meu estilo de defesa tartaruga. Os alunos da Team Gusmão são compostos em grande parte de iniciantes, e para minha grata surpresa, um dos maiores núcleos femininos que encontrei na estrada até agora.

Pode parecer comum, mas infelizmente não é. O tatame de Jiu-Jitsu por muitos anos foi ambiente hostil as mulheres, conto nos dedos as mulheres que convivi no tatame em meus primeiros anos de Jiu-Jitsu, isso lá nos anos 2000. Quando comparado com meu início, hoje temos um cenário melhor, mas não ideal. Visto estes números, fiquei muito impressionado com a capacidade de Gusmão em agregar um grupo tão grande de mulheres em uma turma, um resultado de trabalho louvável, e que tem de mim uma profunda admiração.

Conforme minha aula corria, não parecia que os alunos se recordassem que era para ser outro professor, um mais famoso, mais conhecido e tal... O tatame compactado do Muay Thai foi um desafio para me ajustar á aquele ambiente. Gusmão me advertiu que o tatame estava bem duro, concordei com ele, e Leandro completou “É tatame de Pantaneiro!”.

Aquidauana apresenta toda dureza do bioma pantaneiro. O Pantanal é um ambiente que em sua maior parte apresenta uma natureza hostil. A natureza em seu estado selvagem é hostil em todo lugar, sendo um palco de guerras permanentes pela sobrevivência dos seres vivos que nela habitam. Certa vez trabalhei como arqueólogo bem no meio do Pantanal, fiquei quinze dias em meio a relva de característica pantaneira, e o que aprendi dessa experiência foi que, no Pantanal, quase tudo se mexe e cada planta pode te machucar.

O tatame duro é uma representação dessa dureza do ser pantaneiro, que sobrevive em meio a agressividade da natureza, endurecendo a sua casca, adaptando-se, moldando assim, um ser humano resistente ao desconforto. Já eu, sou um cara criado nos luxos e confortos citadinos. Quando me deparo com o desconforto, tenho uma primeira reação de evitar para depois me adaptar. Lição que carrego destas experiências, é a de que o/a guerreiro/a do Jiu-Jitsu, se adapta ao ambiente, não o ambiente que se adapta o/a guerreiro/a.

O treino técnico rolou muito bem, os alunos da Team Gusmão demonstraram interesse em realizar e aprender as técnicas, os mais experientes, um faixa azul competitivo, e um jovem, também faixa azul, muito parecido em compleição física com Matheus Godoy, nos receberam muito bem mesmo. O grupo feminino da Team Gusmão também foi excelente na aceitação da aula, mesmo com a dificuldade das iniciantes, elas me pareceram muito solícitas uma com a outra, e determinadas em aprender tudo aquilo que estava ensinando.

Chegara assim a hora do rola, que com toda certeza seria uma experiencia diferente do que o Lobo iria proporcionar. Tive oportunidade de neste treino conhecer a força do Jiu-Jitsu de Aquidauana. No tatame estilo pantaneiro, me defrontei em um treino amistoso com diferentes níveis de alunos de azuis á preta. Tanto Gusmão quanto Leandro, são adversários que exigem do físico, cada pegada que faziam era para não mais ser largada, brecando o avanço nas posições., aliado a envergadura privilegiada de ambos, que conseguem alcançar pegadas de muito longe.

O calor da noite aquidauanense, o tatame duro, os adversários bem fortes, faziam me arremeter aos meus tempos sobrevivendo ao bioma pantaneiro, que reproduzia sua aspereza ali naquele tatame, aliando a cultura marcial da arte suave, com a cultura dos habitantes daquele povo ribeiro ao Rio Aquidauana.

Ao final do processo, estava com o quimono encharcado, corpo sentindo algum desgaste do treinamento inesperado, mas me sentia feliz por “salvar” aquele evento. Os alunos não pareciam desapontados pela substituição de última hora, me tratando com respeito, admiração e carinho, tanto quanto teriam (naquele dia) caso o Lobo tivesse vindo.

Na tela do celular, transmito para as redes um resumo breve dos eventos daquela noite, que culminaram neste décimo terceiro episódio desta série: O Lobo não havia vindo, então tive que uivar no lugar dele, e finalizamos o vídeo uivando, aludindo o personagem que proporcionou aquele momento.

Após o treino fomos levados a um Açai da cidade junto com Gusmão e alguns de seus alunos. Minha curiosidade maior era sobre o que havia acontecido nos bastidores que fez Erberth desistir do seminário. Quando Gusmão começou a descrever a rotina e sua experiência no convívio com o convidado, me pareceu mesmo que aquele homem estava em desalinho com o equilíbrio de sua vida.

Uma das características descritas por Gusmão, era a impaciência de Erberth, não fazendo com que o Lobo conseguisse permanecer em paz por muito tempo em um lugar, necessitando, quase que como urgência, se deslocar para outro lugar em questão de minutos, procurando sempre um novo “pico” para se entreter. Quando percebi que este era o estado de Erberth, dei por encerrada a “Missão Lobo”.

Gusmão me passou um resumo atualizado do cenário local. Aquidauana e Anastácio são duas cidades que formam uma região só quando se trata de Jiu-Jitsu, a história desta arte marcial no local, passa por um personagem também controverso. O primeiro professor da região, acabou preso por crimes violentos contra uma mulher, mesmo assim, alguns daqueles alunos foram em frente em buscar conhecimento e continuar no Jiu-Jitsu. Atualmente as duas cidades possuem núcleos separados de ensino de Jiu-Jitsu, Gusmão com o Muay Thai parece ter conseguido um bom público, que acabou migrando para o Jiu-Jitsu também.

Quanto a união dos representantes daquela localidade, a história parece se repetir como escutado em outras cidades interioranas ao longo de nossa jornada. Alguns professores se unem, outros são arredios a uma união, fazendo com que um núcleo já pequeno de praticantes, fique ainda mais dividido. Mesmo com as dificuldades, relações interpessoais conflituosas, Gusmão me transpareceu um profissional sério em busca do melhor para seus alunos, e que não se afeta com o externo.

Saímos de Aquidauana já beirando às vinte três horas. No clarão da luz dos faróis na estrada, cruza um pequeno Lobinho, uma espécie típica da fauna Pantaneira. Vendo aquele lobinho cruzando meu caminho, me fez pensar que os seres do Jiu-Jitsu Pataneiro podem não ser tão gigantes como de qualquer outra fauna, mas são resistentes, justamente por sobreviverem em uma selva hostil, que molda o espírito guerreiro do/a lutador/a local.

A visita inesperada ao Portal do Pantanal foi uma aventura sem precedentes, mudando o cenário rapidamente conforme avançamos. Aquidauana é um local emblemático, em que o Jiu-Jitsu passa por torrentes de popularidade, mas que não deixa se extinguir a paixão local pela arte suave. 


Mergulho no Inferno do Lobo 

 

Havíamos chegado em Campo Grande por volta de uma hora da manhã, como não tinha aula pelo período matutino naquele dia, tirei aquela manhã como descanso. Meu corpo sentia os efeitos do treino no tatame estilo pantaneiro. Com uma composição cada vez mais enxuta, minha ossatura entra em contato direto com o solo, sem uma capa de gordura que o amorteça. Meus ossos do quadril doíam bastante, e ao acordar, foi que vieram estas dores do desgaste físico.

Pela tarde me sentia melhor, indo seguir meu cronograma de aulas. Bodão, que havia estado presente nos eventos do dia anterior, chegou animado: “Dila, o Lobo tá em Campo Grande! Bora tentar falar com ele!”. Não acreditei que ele estivesse falando sério, mas Bodão estava, então respondi: “Bodão, você não viu que o cara tá doido? Esquece o Lobo!”.

Pensava que neste momento, havia passado a ventania que a visita do Lobo ao estado trouxera. Erberth apareceu para seu seminário em Corumbá, a principio tudo parecia ter corrido bem, com fotos nas redes sociais de vários participantes alegres com o seminarista da noite. Mas pela manhã de quarta-feira, foi que se revelou o que se escondia a real atividade daquela estrela em decadência.

Acordei pela manhã de quarta se quer pensando que havia alguma coisa a mais que me arremetesse a “Missão Lobo”, até me abrir para o universo de informações do celular. Tinham algumas mensagens pendentes, as quais fui esmiuçando conforme me despertava para o mundo. Meu irmão havia me enviado algumas fotos e um vídeo. As fotos eu vi bem quem eram, um deles era Erberth Santos, o outro rapaz era desconhecido para mim, mesmo estando de kimono no registro, e quando abri o conteúdo do vídeo, foi que me surpreendi.

Em uma sala com poucos móveis, surge um homem negro, alto e careca, vestindo um sobretudo marrom, e que ostentava em suas mãos uma longa faca que reluzia. Em seguida no vídeo, uma mulher de peitos desnudos aparece no registro, ela parece implorar para que o homem para sua ação. De primeiro momento não entendi muito bem a cena, o que estava acontecendo e o porque daquilo estar acontecendo, mas não tinha dúvidas de quem era o protagonista daquele registro, o Lobo, Erberth Santos.

Revi o vídeo algumas vezes, mesmo assim, não tinha informação necessária para compreender o contexto daquilo. Em alguns minutos, toda a informação veio desabando como uma cascata. Erberth Santos passava de uma estrela do passado do Jiu-Jitsu, para um procurado pela polícia por uma acusação de crimes sexuais e roubos.

 Fiquei atônito no sofá de minha sala, lá fora o dia reluzia em plenitude, enquanto naquele momento um dos episódios mais sombrios da história do Jiu-Jitsu, acho que dos esportes em geral, se desenrolava. Quando me abri ao mundo, a maioria das pessoas buscava informações do ocorrido. Bodão me mandou mensagem, e apontei o perigo do qual nos escapamos em não mais procurar aquele sujeito. Uma comunidade inteira estava chocada com aquele vídeo, e ficaria mais ainda quando as luzes foram jogadas naquele mergulho de cabeça no inferno do ser de Erberth Santos.

Em algumas horas, o Lobo e seu comparsa, André Pessoa, também faixa preta de Jiu-Jitsu, foram presos no interior de São Paulo. O itinerário criminoso do Lobo, passou por Campo Grande indo até Três Lagoas, local em que o vídeo havia sido gravado. O que o vídeo mostrava era parte de um dos roubos realizados por Erberth e André, roubos estes, que depois ficou-se sabendo que eram praticados após estupros das garotas de programa roubadas.

Tudo naquela série de eventos era macabro, e conforme os detalhes vinham vindo à tona, pior ficava a situação, do agora já banido para o limbo da história, Erberth Santos. Ainda está em curso o levantamento de provas dos crimes praticados por Erberth e André, os dois continuam presos preventivamente, aguardando o termino das investigações, acareações e tramites do processo penal em andamento. O que se sabe, é que como lutador, era o fim da linha do Lobo.

Muito se disse após os acontecimentos que estava na cara que ia, como dizem no popular: “dar merda” esta visita de Erberth ao estado. Bom, lembrando o famoso thriller de ficção científica protagonizado por Tom Cruz, Minority Report, em que em um futuro distante, os crimes eram descobertos antes de acontecer, e o criminoso preso antes mesmo de praticar o ato, parecia que as pessoas tinham o poder desta tecnologia fictícia. Diziam que todos os indícios do caráter de Erberth estavam explícitos, eu já não acho isso.

Existe uma distancia grande entre um lutador causar tumulto, e ele ser um estuprador em série. Quem de nós chutaria que Erberth seria preso por estes crimes? Talvez se fosse preso por desacato a autoridade, ou até mesmo roubo, o qual sua ficha criminal já estava manchada com tal delito, não seria tão surpreendente, mas por um crime tão hediondo como o que praticou, a mim surpreendeu.

Pensei no perigo que seria caso O Lobo tivesse chegado ao seu destino, caso naquela noite tentássemos uma negociação com ele, ou mesmo a segurança daquelas mulheres as quais participariam do seminário em Aquidauana. Tivemos sorte de naquela noite o criminoso ter decidido não dar o ar da sua graç... quer dizer, desgraça.

O Lobo mergulhou fundo em seu próprio inferno, deixando um rastro de violência física e sexual, mostrando ao mundo, que os demônios internos que haviam sido libertados em seus vários episódios controversos nos tatames, eram leves perto daqueles que em seu íntimo ainda guardava.

Finalmente havia terminado aquele episódio, que por mais que eu tenha somente indiretamente estado em contato com Erberth Santos, me fazia sentir profundamente impactado por ter quase cruzado caminho com ele. É assustador pensar que poderia tê-lo entrevistado, ter rolado com ele, ou somente trocado algumas ideias, por sorte nada disso ocorreu.

O Lobo está enjaulado, e o prognostico é que não veja por muito tempo um ambiente sem grades e muros. No Mato Grosso do Sul se encerrou a jornada de Erberth Santos, O Lobo, que se revelou ser um Lobo Mau, dando deu seu último uivo em liberdade após fugir do estado. A figura dele foi jogada na a lata de lixo da história do esporte, figurando no futuro somente em peças criminais, não mais gozando do prestígio, admiração e respeito, daquilo que por um tempo foi capaz de segurar seus ensejos criminosos, o Jiu-Jitsu. 

 

 

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