Jiu-Jitsu Adventure MS EP.12 Bonito: Jiu-Jitsu no Paraíso
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O
Up prata escuro, guiado por Melchor, desliza pela noite da Serra da Bodoquena,
indo em não mais que uma hora de Jardim á Bonito. Chegamos na cidade já próximo
da meia noite, e ainda teríamos de adentrar as estradas de terra que nos
levariam até o chalé em que iriamos ficar. A avenida da entrada da cidade estava
bem iluminada ante a escuridão da noite, anunciando que chegamos em uma
localidade bem diferente do padrão das cidades do interior do estado.
Bonito
é um polo turístico do estado de Mato Grosso do Sul, conhecida no Brasil e no resto
do mundo. Quando morei no exterior, sempre que apresentava meu estado para alguém
de fora, dava uma pequena amostra das belezas naturais do meu estado com uma
foto de Bonito. Bastava isso para convencer meus interlocutores de que aquele
local é uma visão paradisíaca na terra, um orgulho para um saudoso nativo do
Estado do Pantanal.
No
escuro da noite, pouco se podem ver destas belezas citadas, pois não adentramos
a cidade na chegada, já nos desviando para a estrada que nos levaria ao local
de estadia. O chalé pertence ao meu antigo aluno, Luís Guilherme Figueiredo,
conhecido em minha academia pela alcunha de “Bundinha”, mas calma, mais a
frente explicarei a origem deste apelido.
Melchor
possuí um talento ímpar em encontrar lugares, sempre bem localizado, ele tem
uma memória fotográfica quanto a decorar caminhos. Sem muita dificuldade,
chegamos na porteira do Chalé. Melchor desceu do carro para abrir a porteira,
mas voltou correndo assustado para o carro.
Um latido grave havia repelido Melchor de continuar seu trajeto. Saí do carro e avistei o vulto de um cachorro. Fui criado em meio a muitos cachorros, minha mãe é bióloga e veterinária, e desde pequeno convivi em meio a uma alcateia canina. Quando mais jovem trabalhei com minha mãe em Petshop, neste tempo aprendi mais ainda sobre psicologia dos cães.
O cachorro de grande porte demonstrava ferocidade ao defender seu território, mas é criado em um lugar de constante acesso de pessoas, o que não o torna perigoso em potencial. Minha técnica em lidar com cachorros nestes casos, consiste em um protocolo: Ignorar a presença do animal, jamais recuar ante as ameaças de latido, manter-se calmo e seguindo seu trajeto sem demonstrar intimidação pela presença do cão. Confiava plenamente no protocolo, visto que aquele cachorro deve sempre passar por este contato com estranhos. Sigo em direção a porteira ao som dos latidos cada vez mais estridentes do cão.
Não foi tão perigoso quanto Melchor imaginava. Executo o protocolo à risca e consigo abrir a porteira sem ser incomodado pelo guardião canino. Perguntei a Melchor o que ele faria caso eu não estivesse com ele, e ele me respondeu: “Ia dormir no carro Mestre”.
Estávamos
em um chalé digno de nota. Com uma arquitetura bem trabalhada, misturando
elementos do moderno e o rústico. A casa do Chalé abrigaria fácil dez pessoas divididas
entre seus três quartos, mas teria somente dois visitantes com espaço sobrando.
Bem acomodados, escuto somente o silencio da noite em meio a natureza, som que
é uma dádiva para acalmar os sentidos. Do externo só me chega os ouvidos os ruídos
dos insetos e movimentação do vento na mata quando fecho os olhos para dormir.
Sentia os efeitos físicos do treinamento em Jardim, necessitando de ter uma boa
noite de sono, da forma que mais gosto de ter, não tendo um horário para
levantar no outro dia.
O
calor da manhã me impede de acordar tão tarde quanto gostaria. Parece que estar
em Bonito cria um senso de urgência, uma necessidade de não gastar seu tempo
com atividades ordinárias, um alerta, avisando que existe um paraíso a sua
volta para se viver, então não perca tempo! Mas não me deixo contaminar por
esse sentimento, prefirindo seguir em um ritmo mais cadenciado, indo no meu
tempo, e curtindo o paraíso sem pensar a todo momento estar atrasado.
Melchor
também compactua com minha filosofia, me acompanhando neste ritmo sem pressa. Tínhamos
um bom tempo até o treino que faríamos na Fight Sports Bonito, que seria
somente às dezoito horas. Visto um short e saio para decidir nosso cronograma
com Melchor. Preferimos antes de tudo nos alimentar, afinal, teríamos um
treinamento mais tarde, e como vão descobrir, treinar com a galera de Bonito é
missão brava!
Mas
antes de ir pra cidade, tínhamos que dar uma passada no rio, mesmo que não
fosse para ficar por lá. Melchor, que havia acordado bem mais cedo que eu, e já
havia ido explorar a beira do Rio Formoso. Do chalé ao rio não da mais que
cinco minutos caminhando, cerca de uns cinquenta metros. No meio do caminho já
consigo escutar o som da água em choque com superfície sólida, um dos sons mais
relaxantes produzidos pela natureza, o de uma queda d’água em plena atividade.
Quando
a faixa de mata se abre, o que consigo ver é uma pintura em aquarela viva da
natureza. Em meio a mata nativa, surge um rio de águas de cor esverdeada clara,
que reluz os feixes de raios solares que transpassam a copa das árvores. A
visão daquele quadro me carrega direto para a paz propiciada pelo encontro do
ser urbano com a natureza, vivenciando um legítimo sentimento humano de volta
as origens. A vontade era de assentar acampamento e permanecer ali, mas
teríamos um dia cheio ainda pela frente, me deixando apenas ter o vislumbre
visual desta formosura natural.
Os
lutadores advindos daquela cidade construída em meio a um emaranhado de rios,
riachos, cachoeiras e cavernas, são reconhecidos por sua capacidade física
diferenciada. Tive alguns alunos naturais desta região, e verdadeiramente notei
que as valências físicas deles não são comuns. A lenda que corre entre a
comunidade do Jiu-Jitsu local é de que a água calcárea da região é o segredo da
força deles. Será que é?
Como
os gauleses das histórias de Asterix e Obelix, que tomavam uma poção mágica que
elevava suas forças, os tornando guerreiros invencíveis, acredita-se existir
uma poção do lutador de Bonito. Reza a lenda que a água da região, que tem alto
teor de cálcio e magnésio, uma água que diria ter um gosto estranho para nós
não nativos da região, seja a poção desta versão Sul-Mato-Grossense da tribo de guerreiros gauleses da fictícia história dos quadrinhos.
Meu
objetivo era descobrir os segredos desta força, para isto, me foquei em
enxergar o mundo pela ótica do nativo de Bonito, buscando compreeender qual
seria o elemento que fazia o poder físico deles ser tão fora de série. Caso não
achasse a resposta, aí daria como verdade a lenda da água calcárea.
Meu
objetivo era descobrir os segredos desta força diferenciada, para isto, me propus
enxergar o mundo pela ótica do nativo de Bonito. Iria buscar nesta convivência,
tentar compreender qual seria o elemento que fazia o poder físico deles ser tão
fora de série. Caso não achasse a resposta, aí daria como verdade a lenda da
água calcárea.
Nos dirigimos para a cidade, levantando poeira pela estrada, que agora posso ver com clareza ante a iluminação advinda do sol brilhando com poucas nuvens no céu. A música que toca no som do carro diz em sua letra: “Eu posso ver agora que a chuva se foi, eu posso ver todos os obstáculos em meu caminho...”. Jimmy Cliff solta a voz, me fazendo fechar brevemente os olhos, me transportando em espírito para a caribenha Jamaica do cantor que entoando este Reggae, tal é a vibe do nosso “caribe” Sul-mato-grossense.
Depois de nos alimentarmos com saudáveis salgados de padaria, retornamos ao chalé. Transitamos pelo paraíso no ritmo do Reggae, na calma, paz e, principalmente, sem pressa. Mesmo assim, ansiávamos por estarmos logo tranquilo a beira do rio, aproveitando o máximo daquele vislumbre natural que nos arrodeava de todos os lados.
.De barriga cheia, tendo comprado mantimentos para nem paro chalé ter de voltar, me transporto de corpo e alma para o paraíso de Bonito, que naquele momento é o quintal da minha estádia. Em meio a natureza silenciosa, com o contato humano urbano distante, procuro desligar os problemas que carrego comigo, buscando uma conexão intrínseca com a paz que aquele momento proporciona. Em um dos decks construídos a margem do rio, não perdi tempo de criar contato com o Formoso, que parecia me dragar de forma irresistível, convidando-me a dar-lhe um mergulho e provar das suas águas.
Sinto com os pés a temperatura da água, que o que tem de esplêndida em sua coloração e cristalinidade, tem de gelada. Os locais sempre vão dizer-lhes que é a época do ano, o que para mim não cola, pois já fui em diferentes períodos do ano, e sempre encontrei a água tão fria quanto da vez anterior. Esta estratégia do Bonitense pra justificar a água frio não me pega eim!
Mesmo constatando com os pés o frio da água, sinto uma necessidade de mergulhar no profundo daquelas águas, sentindo o poder que aquele rio tem. Nesses momentos de indecisão tenho um protocolo também, um que utilizava na juventude quando ia “chegar” em uma menina. Basta juntar toda a coragem, fechar os olhos, e contar até três, se lançando no dois. Mais uma vez executo à risca um protocolo criado por mim mesmo, e me lanço às águas. Tchbummmm!
Meu
corpo sente o choque térmico do meu calor corporal sendo inundado pelo frio das
águas do Formoso. O frio toma conta de meu ser, me fazendo submergir
rapidamente buscando o calor do ambiente externo. Toda dor, toda ansiedade com
o futuro próximo, e todos os pensamentos supérfluos, somem ante ao choque térmico
nas águas frias do rio. Quem nas águas dos rios de Bonito se banha, parece
submergir destas águas um um pouco diferente do que era antes deste encontro.
Seria que é a água gelada do Rio Formoso a fonte do poder do lutador Bonitense?
Tinha esta pista na mente.
Alguns
decks acima do leito do rio em que mergulhei, me descanso ao som de uma queda
d’água, aproveitando o momento de paz em meio a uma natureza controlada. O
ambiente a volta não é hostil a nossa presença, somos recebidos como
visitantes, claro que a atividade humana de construção de estrutura que
propícia este encontro harmônico, deixando-nos como convidados de honra deste
local exuberante.
A
tarde caminha lenta, como que no ritmo do rio naquele ponto nos encontrávamos, correndo
leve e natural ao seu destino. Aproveito o deleite de vivo estar, de respirar o
ar que respiro, de ter capacidade plena de encher os pulmões e soltar o ar na
velocidade que quiser, sentindo o cheiro da mata, escutando o som da floresta,
e me desligando de qualquer desarmonia que meu ser carregue, um privilégio que o
caminho da arte que escolhi como meio de vida me proporciona viver.
Depois
desta contemplação ao contato harmônico da civilização com elementos do natural,
voltamos a ter contato com outros seres humanos. Leandro Mutante, Ronan e Lucio
(aluno faixa marrom da Fight Sports Jardim) chegam com suas famílias para aproveitar
o dia no rio até a hora do treino. As famílias assentam seu acampamento, com
crianças eufóricas por explorar o playground aquático. Diferente dos adultos,
as crianças parecem não serem afetadas pelo frio daquelas águas. Os filhos e
pais vão para o rio, neste momento procuro observar, e algo me chama a atenção,
fazendo-me notar algumas sutis diferenças entre nós e os habitantes locais.
Enquanto
Lúcio e Ronan ficam no deck, evitando o contato com a água fria, Leandro
Mutante se lança as águas do rio sem muitos rodeios. Em questão de alguns minutos,
Mutante percorreu boa parte da extensão navegável daquele lugar, percebendo
todas as possibilidades que aquele ponto do rio proporciona. Em pouco tempo, Leandro
Mutante havia realizado um reconhecimento completo das possibilidades e perigos
que o ambiente apresentava, enquanto nós criados no urbano, apenas observávamos
ao longe, evitando as possibilidades.
Nosso
anfitrião chega algum tempo depois. Luís Guilherme “Bundinha” já sem camisa,
nos saúda da parte de cima do deck que estávamos. Esperava que ele viesse pelo
caminho da trilha, mas de onde estava mesmo, ele se lançou ao rio. Luís veio
nadando rápido como uma Piraputanga, peixes viventes naquelas águas, os quais
podemos ver aos montes devido à límpida clareza da água.
Minha conexão com Luis Guilherme ocorreu de forma semelhante a de Leandro Mutante. Luís chegou até mim na época “Igrejinha”, seguindo o mesmo caminho do conterrâneo, vindo morar na capital em busca de seu diploma universitário. Ele chegou já bem pronto de Bonito, praticando Jiu-Jitsu desde sua tenra idade através de seu pai, Jorginho, o pioneiro desta arte marcial na cidade de Bonito.
Luís Guilherme conviveu comigo durante alguns anos, sendo meu aluno da época de juvenil faixa azul até alcançar a graduação de faixa preta. Tal como seu conterrâneo Mutante, Luís Guilherme era bruto, rústico e sistemático, se chocando com as modernidades culturais da capital. Na sua faixa de peso e idade, ele era imbatível neste tempo. Com um jogo dinâmico, tendo muito gás para estar sempre no ataque, sabia como ninguém usar sua baixa envergadura a seu favor. Lutar contra aquele pequeno lutador era tarefa indigesta para os adversários. Luís Guilherme era um dos talentos mais promissores de sua geração. Agora, e o apelido de “Bundinha”? Aposto que estão curiosos para saber.
Em uma comunidade de homens jovens, lá nos tempos de “Igrejinha”, qualquer coisa era motivo para todos fazerem graça com seu companheiro de tatame. Apelidos surgiam aos montes durante este tempo. Eis que lá por 2012 ou 13, Luís Guilherme e seu companheiro de tatame, Léo, foram tomar tereré com umas amigas que haviam estudado com Luís em Maringá. Durante este encontro, as meninas disseram que o apelido dele nos tempos de cursinho em Maringá era “Bundinha”. A informação chegou aos meus ouvidos e rapidamente se espalhou.
Como um rústico morador de cidade do interior, no qual a hombridade é um elemento importante, a quebra de paradigma daquele apelido fez surtir uma legítima contrariedade de Luís ao escutar ser chamado de “Bundinha”. Um apelido é melhor ainda quando incomoda o apelidado, e inocentemente Luís Guilherme caiu nesse alçapão, sendo daquele dia em diante nomeado de “Bundinha”, depois vindo a ser diminuído o infame apelido para “Bundis”.
Ficamos recordando as histórias e contos dos tempos da Igrejinha, e a tarde passou voando, chegando a hora de partir para o treino. Recolhido o acampamento, nos despedimos da calmaria do rio para adentrar os domínios do ambiente do tatame, o qual sabíamos que seria bem mais hostil que a natureza que nos circundava naquele momento.
Mesmo com uma ponta de preguiça, nos arrumamos, e partimos para a cidade. Pelo menos conseguimos recarregar a bateria depois da tarde no rio, mesmo assim, ainda sentíamos o cansaço do treino do dia anterior. Quando chegamos a frente da academia da Fight Sports Bonito, não parecia que estávamos quase em um sábado a noite, tal era o volume de carros estacionados na rua. De fora dava pra ver que a musculação estava lotada, mas um treino de Jiu-Jitsu no fim da tarde de sábado, será que ia dar quórum?
Adentramos as dependências da Fight Sports
Bonito, academia também de iniciativa de Gugu de Matos, meu antigo adversário dos
tatames. A estrutura é parecida com a da sua irmã gêmea de Jardim, com o espaço
de tatame ao centro da academia, ficando encoberto em partes pelos sacos de
boxe ao redor da área. Por dentre as frestas de visão que tenho, consigo
perceber presença de gente esperando o treino começar.
O
tatame está lotado! Muitos dos representantes do Jiu-Jitsu Bonitense vieram dar
suas caras e mostrar qual era o poder dos lutadores locais. Fico animado em ver
um tatame cheio, mesmo sabedor do calvário que seria naquela noite encarar
todos eles. Esse calvário dos treinos duros é uma motivação dúbia do lutador de
Jiu-Jitsu, que vai abraçando sem pensar o desconforto, e ainda por cima de
maneira empolgada. Se tem muita gente já presente, falta um personagem
importante para apresentar.
Não sei se pra sorte ou azar, não teria o reencontro com meu antigo nêmesis, Gugu de Matos. As paredes repetem o uso da cor branca, ostentando em seu nível mais alto as bandeiras da Fight Sports entre as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos. Como decoração, temos pedaços da história do idealizador da academia. As fotos, cinturões e medalhas, demonstram a força de Gugu através de sua carreira vitoriosa.Me sinto orgulhoso de ter tido um adversário tão formidável quanto Gugu. Nossa rivalidade não surgiu repentinamente, indo de uma parceria para uma rivalidade acirrada. Conheci Gugu nos meus tempos representando a Fight Sports, neste tempo íamos viajando para competições diversas, nós dois navegando no mesmo barco. Nossa relação mudou quando saí da Fight Sports para fundar a Gracie Barra Pantanal. De parceiros, em questão de tempo fomos nos tornando rivais.
Gugu é um dos espécimes do Jiu-Jitsu Sul-Mato-Grossense. Visivelmente forte, mesmo sua musculatura avantajada não dá dimensão do nível de força comprimida que este lutador tem. Sua pegada é tão poderosa, que precisaríamos de um alicate para quebra-la, fazendo cada ponto do quimono que ele pega, se tornar automaticamente um ponto dominado do corpo do adversário. Dizem que ele é capaz de nadar longa extensão do rio, dando-lhe condições físicas que torna desconhecido o limite de seu gás.
Hoje enxergo como natural nosso distanciamento naquela época. Nós éramos da mesma categoria de peso, faixa e idade, ambos tínhamos o objetivo de ser o número um do estado, e no lugar mais alto do podium só tem um lugar. Desta forma, de amigos, nos tornamos adversários, mantendo respeito fora do quadrilátero competitivo, mas com o anseio de superar o Jiu-Jitsu um do outro.
Ser recebido na academia de Gugu, ver o quão longe ele foi, e ainda está indo, como competidor, me fez orgulhar por tê-lo tido como adversário. Uma vitória é do tamanho do adversário que vencemos, e uma derrota não é tão constrangedora ante a qualidade de seu oponente. Gugu de Matos foi um dos grandes adversários que tive, graças aos confrontos que tive com ele, me moldei como lutador que sou e competidor que fui.
Em um tatame branco com um logo da Fight Sports já desgastado ao centro, tomado exclusivamente pelo público masculino, está prestes a iniciar as atividades da noite. Conheço bastante gente que está no tatame, já outros só iria conhecer durante aquele momento de treino. Bundinha chega um pouco depois de nós, me fazendo perder as contas de quantos faixas pretas teriam naquele treino, mas falta chegar o mestre que fez surgir toda aquela coluna de lutadores Bonitenses, o pioneiro do Jiu-Jitsu na cidade, Jorge Figueiredo, ou simplesmente, Jorginho.
Quando
Jorginho entra no tatame a vibração até muda. O respeito que aqueles lutadores
tem pelo mestre é visível e perceptível. Lembro-me de encontra-lo mais de
quinze anos no passado, na época eu um faixa roxa na idade dos vinte, e
Jorginho um faixa preta Master, muito mais velho inclusive do que sou hoje.
Minha
juventude julgou que, pelo tamanho e idade, Jorginho não ofereceria um risco
tão grande quanto os parceiros de treino que tinha, lutadores mais jovens,
maiores e fisicamente mais fortes. Parti para cima de Jorginho com tudo, eis
que um estrangulamento rodado aplicado por ele quase me tira do ar caso não
tivesse batido rapidamente. Esta finalização acabou me dando uma dose bem forte
do melhor remédio que o Jiu-Jitsu tem pra casos assim, humildade.
O
treino era simples: tempo no relógio e porrada! Experimento o Jiu-Jitsu de
Bonito em suas várias faces, na agilidade e raça de Luís Guilherme, que leva
seu braço às últimas resistências ao defender um armlock que aplico, escapando
quando não mais pensava haver possibilidade. Na força extraordinária de Eduardo
Jaqcues, irmão de Leandro Mutante, encontro uma base sólida, demonstrando que a
força é uma herança de família. Me surpreendo com um armlock voador aplicado
com ousadia por um jovem garoto faixa laranja. Mutante também não deixa de me
dar mais uma dose de sua força contraída singular. A cereja do bolo deste
treinamento foi mais uma vez, depois de quinze anos, ter a oportunidade de
rolar com o Pioneiro do Jiu-Jitsu de Bonito.
Jorginho começou o Jiu-Jitsu quando tudo era mato, lá nos anos 1990 em Campo Grande, guiado incialmente pelo Mestre Ocídio Nunes. Mesmo com uma bagagem já construída de Judô, o Jiu-Jitsu acabou valendo mais forte em seu coração. Jorginho seguiu firme no caminho do conhecimento marcial, treinando com mestres como Luís Claudio Isaías e Roberto Cyborg Abreu.
Estar no mesmo tatame, e ainda por cima rolar a vera com um pioneiro, é uma honra e privilégio. No alto dos seus sessenta anos, a vitalidade, disposição e técnica sólida impressionam qualquer um que treine com ele. Consigo nele enxergar as bases que formaram aqueles lutadores fantásticos de Bonito que já vi lutando. Será a técnica sólida de Jorginho o segredo da força do lutador de Bonito?
Nos anos 2000, Jorginho formou uma equipe de competição muito forte, se tornando uma tropa auxiliar da Equipe Fight Sports que sempre trazia bons lutadores para os campeonatos. Luiz Guilherme ainda era criança no auge da equipe Jorginho Jiu-Jitsu, quando dali saíram grandes lutadores para cenário competitivo no Jiu-Jitsu e MMA. Uma característica singular da cultura do Jiu-Jitsu de Bonito é a rivalidade interna entre companheiros de time.
A cultura masculina da cidade cultua a competição de quem faz mais. Os atletas locais estão sempre tentando fazer mais que seu companheiro de treino, o tornando um adversário tão próximo quanto o oponente para o qual se prepara para lutar no campeonato. Os lutadores oriundos daquelas bandas não são afeitos a fechar categoria, uma filosofia que não existe problema nenhum em se defrontar um parceiro de treino. Seria a rivalidade acirrada, permanente e constante o segredo da força deles?
O treino termina depois de quase duas horas de muita gestação de força, técnica e gás. Olho para Melchor e enxergo meu companheiro de jornada totalmente estafado por mais um dia de treinamento duro fora de casa. Terminamos nossa missão, que parecia até simples, treinar dois dias seguidos, mas que ante ao poder daqueles lutadores se tornou árdua, sugando boa parte de nossa energia e vitalidade.
Lardeado pelos Titãs que ajudou a formar, o pequeno mestre de olhos de um azul profundo, posa para a foto de mais um treino feito. A longa estrada de Jorginho nas artes marciais fez surgir Jiu-Jitsu de qualidade em meio aquele paraíso natural, levando para o tatame o poder daquela população ribeira, que ostenta em sua força e garra, a essência do que é ser bonitense.
Missão cumprida, bastava somente aproveitar a noite pelas ruas iluminadas e movimentadas do centro da cidade. No outro dia planejávamos aproveitar a manhã na beira do rio e depois retornar para casa. Mas uma missão extra surge...
Luís Guilherme nos convida para na manhã seguinte, às dez horas, fazermos um treino sem kimono com a galera da Rocha Top Team. Normalmente me daria por satisfeito com a missão caso terminada da forma que estávamos terminando, mas vai lá, parecia que os ventos todos estavam a nosso favor, então não havia porque negar mais uma missão. Mesmo cansados, Melchor e eu aceitamos de pronto o convite, e no outro dia faríamos mais um treinamento.
A noite Bonitense é famosa no roteiro turístico sul-mato-grossense. Quem por lá passa, avista uma cidade cintilante, convidando o turista a passear por suas ruas lardeadas de comércio. Uma bebida local se destaca dentro os elementos singulares que a cidade possuí, Taboa. Mas não seria nessa oportunidade que testaria a força da famosa bebida alcoólica local.
Não poderei descrever a experiência noturna de Bonito, pois devido aos treinamentos intensos de dois dias, retornamos ao Chalé sem ânimo para nada. Ansiávamos somente por dormir e repousar para o desafio final. Já tinha uma ideia do segredo da força do lutador Bonitense, mas teria que observar até o último contato para ter certeza de que minha teoria fazia sentido.
Antes
da meia noite estávamos desacordados em sono profundo. Acordei mais uma vez com
o calor intenso da manhã, sentindo de maneira mais acentuada o desgaste físico
dos dois dias. Pelo menos estávamos do lado de um renovador de energias, o Rio
Formoso. Logo cedo, lá pelas oito da manhã, fomos nos despedir do rio que nos
presenteou com memórias fantásticas.
O
sol das oito da manhã já brilhava firme no céu, dando uma prova que o dia seria
tão quente quanto o anterior. Quando cheguei ao rio, o calor do ambiente
amenizou, me fazendo antes de dar o mergulho de despedida, repensar se
aguentaria aquele frio. Tal como no dia anterior, juntei minha coragem de
lutador, fechei os olhos, e me lancei nas gélidas águas do Rio Formoso.
O mergulho foi de uma intensidade ainda maior que no dia anterior. A água ainda não havia sido esquentada pelos raios solares, a deixando tão gelada, que o mergulho logo se transformou em uma corrida aquática para retornar ao deck e sentir novamente meu corpo o calor do sol. Nos despedimos daquelas paisagens, dando um último respirar daquele ar, escutar o som da mata, sentir o cheiro da relva, agradecendo ao universo a paz de espírito ali encontrada.
Levantamos acampamento e partimos para a cidade. Em um domingo de manhã de céu claro, para a maioria das pessoas seria óbvio aproveitar mais um tempo nas tantas atrações turísticas que a cidade possuí, mas nossa missão era para com o Jiu-Jitsu. Quem vive essa filosofia, constantemente anda no contrafluxo do padrão social vigente, já estamos acostumados a fazer coisas que poucas pessoas fariam.
A academia da Rocha Top Team fica defronte a antiga academia de Jorginho, aonde Claudio Rocha, líder da equipe, se formou como lutador. Os participantes do treino foram chegando, Luís Guilherme e seu pai, Jorginho, mais uma vez exalavam vontade de gastar mais do seu Jiu-Jitsu. Mutante também apareceu, parecendo tão ou mais cansado do que nós, mas ele tinha uma motivação extra para estar ali, a presença do seu filho no treino. Por dentre uma pequena porta, adentramos as dependências da academia liderada pela Rocha de nome Claudio.
Em um espaço pintado todo de negro, troféus e cinturões demonstram a competência dos lutadores daquele local. Claudio Rocha é um experimentado lutador de MMA, sendo faixa preta de Jiu-Jitsu graduado pelo professor Gerson Santos de Campo Grande. Infelizmente ele não estaria presente, não fisicamente, mas seu espírito guerreiro emanava por todo aquele tatame. Aquele ambiente formado naquela manhã, me transportou na nostalgia dos meus tempos no MMA, um esporte que considero um decatlo da luta, testando ao limite máximo o espírito guerreiro de quem nos ringues e cages se arrisca.
Claudio e sua esposa Cindy são orgulhos do esporte local. Os dois disputaram combates em cages e ringues Brasil e mundo afora, mantendo viva a chama da vontade de se testar mais e mais, fazendo um já quarentão Claúdio, manter-se em treinamentos constantes tal como se fosse um jovem lutador em início de carreira.
Minha jornada no MMA terminou justamente contra um lutador local, Gilmar Sanches. Assim como Gugu, eu e Gilmar éramos companheiros de equipe, nos unindo como parceiros de treino, ansiando ambos seguir o caminho do Vale Tudo, que hoje é chamado de MMA. Fomos juntos nesta caminhada, até Gilmar se desentender e sair da equipe Fight Sports. Se com Gugu foi rivalidade esportiva, com Gilmar era uma disputa pessoal.
Fiz contra Gilmar um dos maiores impropérios contra o espírito desportivo. Em uma luta de Submission (No-Gi), dominei e finalizei Gilmar com um Katagatame. Tão logo ele bateu, me levantei, olhei para Gilmar no chão, e inspirado no filme “Tropa de Elite”, fiz uma emulação de engatilhar uma doze, mirei, e imitei o som da arma disparando. Depois desta comemoração, a luta desportiva virou briga, comigo e Gilmar frente a frente ameaçando iniciar uma agressão. A resolução veio com uma luta de MMA, que decidiria dentro do Cage quem era o melhor.
Em 2011, minha carreira de MMA terminou em seu início. Em um momento singular, foi produzido um grande evento de MMA local, com divulgação ampla, tornando a nossa luta um evento importante para a cena da luta. Vivendo o desembocar de um sonho, me vi começando melhor na luta, mas decaindo drasticamente na parte física. Fui dominado por Gilmar, que não parou de jogar socos até o árbitro interromper o combate comigo ainda de pé, mas em vias de ser desacordado a qualquer momento. Atualmente ainda por vezes me lembro do sentir daqueles socos, vindos sem parar, chacoalhando meu cérebro e doendo os ossos do meu rosto a cada contato.
Os alunos de Claudio Rocha estavam presentes nas figuras de Diego, Maycon e Douglas, me fazendo poder experimentar o Jiu-Jitsu da escola de MMA. O clima do treino me jogou diretamente no OldSchool, quando era chamado de Submission. Peito nu, tempo no relógio, e porrada!
Começo com um dos alunos de Claudio Rocha, o qual não fazia a ideia de que graduação tinha no Jiu-Jitsu. Em todas minhas investidas, o lutador de MMA não aceitou nenhuma delas, brigando com todas suas forças e habilidades para não ceder as posições. É muito difícil finalizar um lutador de MMA, a briga no cage é de um nível diferente de força, explosão e garra, tornando a tarefa de dominar um lutador que vive nesse ambiente hostil, um trabalho hercúleo.
O abafo da academia ao sol das onze da manhã, me provoca um efeito quase claustrofóbico. O ar parece não vir para os pulmões, chegando sempre abafado e necessitando força para puxa-lo e expeli-lo. Cada um dos rolas me exige sair por completo da segurança da técnica, obrigando a buscar no fundo da alma o espírito guerreiro de não sucumbir ao adverso.
Me defronto mais uma vez com Jorginho, que não sente a mudança de ambiente nesta nova a oportunidade de rolarmos. No auge de sua sexta década, aquele lutador experiente continua a me demonstrar sua garra, técnica e coragem. Seu filho, Luís Guilherme, herda no DNA físico e de Jiu-Jitsu o legado do pai, tendo a mesma garra que ele, me deixando mais uma vez próximo, mas não conseguindo o feito de finaliza-lo. A determinação em não ser finalizado de Luís Guilherme, me faz ainda me impressionar com a capacidade de meu antigo pupilo. Terminamos assim nossa última missão. Sobrevivemos a mais um treino, desta vez esperava ser o último desta jornada.
O Jiu-Jitsu voltado para o combate mais real possível, apresenta uma forma rústica, focada nos princípios mais primevos da natureza humana de se autodefender. Estar mais uma vez neste ambiente, me carrega para o momento da vida que meu sonho era seguir esta estrada, um sonho que não se concretizou, mas que deixou lições importantíssimas para meu conhecimento da arte suave. Estar no tatame da Rocha Top Team faz-me reconectar com um dos aspectos mais intrínsecos da arte marcial, a defesa pessoal em seu nível mais alto de realidade.
Terminamos nossa jornada de treinos. Eu e Melchor tínhamos gastado até a última gota do nosso desejo por estar vivendo o Jiu-Jitsu local. Descansamos em frente a academia, tomando tereré ao som da melhor roda de conversa que se pode ter, a de um pós-treino de Jiu-Jitsu. Luís Guilherme nos leva para uma última aventura, uma que parecia ser a coroação do sucesso da empreitada, mas que se mostrou ser um último teste.
Nossa última parada é no Balneário Municipal, um grande complexo que recebe turistas e moradores locais para aproveitar o domingo na beira do Rio Formoso. A beleza do lugar é tão exuberante quanto a que vivenciamos no Chalé, com a diferença de ter uma multidão de gente. Não sou afeito a lugares muito cheios, mas o sentimento de satisfação era tanto, a aglomeração era mero detalhe.
Com o corpo ainda quente do treino, nos lançamos as águas do Balneário Municipal. Luís Guilherme me convida para dar uma nadada pelo rio, me apontando uma pedra que não estava distante mais que vinte metros. Fiz natação em determinado momento da vida, cresci frequentando por vezes piscinas, lagos, córregos, riachos, rios e mares, não pensei não ser capaz de acompanha-lo.
Conforme meus braços batiam na água, buscando no virar de minha cabeça ar para continuar a empreitada, parecia que as forças que me faziam deslizar naquelas águas iam se esvaindo rapidamente. Luís Guilherme já chegava ao ponto indicado, enquanto eu estava na metade do caminho.
Quando me fixei no conjunto de pedras que seria o ponto final, emergi buscando folego, que parecia ter sido totalmente sugado, acelerando minha respiração como se estivesse acabado de fazer uma luta de campeonato. O ácido láctico corria pelos meus braços, fazendo cada músculo utilizado naquele nado contrair-se fatigado do esforço daquele singelo exercício. Luís Guilherme ainda quer ir mais longe, parecendo saído de uma simples caminhada matinal.
Pensei em desistir por ali, mas queria sentir na pele o que era ser bonitense. Em ritmo ainda mais lento, parecia que minhas forças não seriam o bastante para me fazer chegar ao ponto final do desafio de natação no rio. Luiz Guilherme chegou ainda mais rápido no final, tirando uma com a minha cara “Ta nadando estilo pantaneiro Dila?! Cabeçona pra fora da água!”.
Meu nado não tinha mais estilo ou técnica, era um exercício de sobrevivência de alguém já sem folego ou força pra demonstrar vigor. Sofrendo fisicamente como em muitos anos não sofria, terminei o trajeto na força de vontade e desespero de um sobrevivente. Naquele momento de fatiga extremo, foi que tive o vislumbre do poder que fazia aqueles lutadores terem forças sobre humanas.
Me lembrei do ex-lutador Ricardo Arona, o Tigre de Nitéroi, que nos anos 2000 assombrou adversários nos tatames e ringues com sua destreza e vigor físico. O segredo da força de Arona era creditado por ele ao seu treino na natureza, aonde todo o esforço de explorar e sobreviver ao ambiente natural, fazia seu físico se fortalecer muito mais que qualquer treinamento em academia de musculação.
Quando avisto os dois jovens garotos faixa laranja que estiveram no treino do dia anterior, se divertindo jogando futebol no balneário, reflito sobre a origem desta qualidade física local. Desde jovem a diversão dos bonitenses é estar em contato intrínseco com a natureza. Movimentar o corpo é regra fundamental para quem vive naquele local paradisíaco, o rio é tão reconhecido por eles quanto as ruas da minha cidade, e as trilhas que levam aos recantos mais escondidos na mata, são obstáculos simples de serem vencidos pelos locais.
A poção da força do lutador de Bonito reside nos seguintes ingredientes: A vida em meio a natureza, tornando os desafios do ambiente mera brincadeira, o que faz com que feitos físicos inacreditáveis, sejam vistos por eles como apenas uma diversão comum. Acrescido a isto, temos a base sólida ensinada por seu pioneiro, que edificou um Jiu-Jitsu compacto e brigador. O tempero dessa poção é a competitividade extrema da masculinidade local, que motivou estes lutadores a buscarem a perfeição pela vontade de superar seu parceiro de treino. Posso estar enganado nesta receita, mas se não for isso, talvez seja a água calcária mesmo...
Deixamos ao cair da tarde a cidade, deixando para trás nossas vivencias de fazer Jiu-Jitsu no Paraíso. Ao sair de Bonito tínhamos sentimentos ambíguos, a felicidade de voltar para casa depois de um Adventure bem sucedido, e sentindo ao mesmo tempo saudade daquela vibe paradisíaca. Depois de visitar Bonito, nos dias quentes em meio a selva de pedra da capital, provavelmente vislumbrarás se teletransportar para beira do Rio Formoso e sentir a força da natureza. (No dia que termino este escrito, o sol escaldante passa dos 35°em Campo Grande, despertando em mim desejo por estar em Bonito)
Planejei umas “férias” do Jiu-Jitsu Adeventure, por uns dois meses pelo menos. Mas como quase tudo nessa jornada, acalmaria duraria pouco tempo. Logo depois da aventura por Bonito, voltaríamos para a estrada, desta vez seguindo o uivo de um “lobo”, que nos jogaria próximos a maior jornada criminosa executada por um lutador de Jiu-Jitsu. Não percam o próximo capítulo do Jiu-Jitsu Adventure, em que seguiremos os rastros do Lobo em uma visita inesperada ao Portal do Pantanal.
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