Jiu-Jitsu Adventure MS. EP:11: Ao Encontro do Mutante e do Ronin, Fight Sports Jardim

 

        O inverno do cerrado é implacável, alternando pequenos períodos de frio intenso com períodos de um calor escaldante, aliado a uma secura digna de deserto. Os meses de inverno são a provação da sobrevivência no clima hostil do cerrado. Saíamos para uma jornada que provaria ainda mais esta resistência, indo de encontro a duas forças da natureza que o Jiu-Jitsu moldou, iriamos de encontro ao Mutante e o Ronin.

        Vou apresentar aos poucos nossos dois personagens ao longo desta história. Temos de retornar mais uma vez ao meu passado longínquo, para que assim possam compreender minha ligação com um dos protagonistas desta Adventure.

           O ano era 2012, havia acabado recentemente, junto com outros dois amigos, de formar uma equipe, a Gracie Barra Pantanal. Neste mesmo ano, também havia recém me graduado faixa preta e me formado na faculdade de história, vivendo um período intenso, com conquistas importantes, mas com muitos desafios a superar ainda. Neste tempo dava aulas em um salão de uma igreja evangélica neopentecostal, a qual posteriormente foi apelidada carinhosamente de “Igrejinha”.

     Na “Igrejinha”, o sistema era Oldschool: porrada, porrada e mais porrada. Neste clima de competição constante, todo aluno tinha que se tornar um treino em potencial. Do tatame pude ver adentrando pela porta um homem enorme, com uma cabeça grande e quadrada, o qual só de bater o olho percebia-se a força física abundante exalando de seu ser, ele era Leandro Jacques, anunciando a chegada de um treino duro.

          Leandro havia recentemente vindo de Bonito, seguindo um curso comum de seus conterrâneos naquele tempo, mudar para a capital pra fazer faculdade. Ele não era um completo estranho para mim, já o conhecia de outros carnavais. Quando faixas roxas, havíamos disputado a mesma categoria, contra um mesmo adversário, um gigante corumbaense chamado Althier Farbrício.

    Com a ajuda de Leandro, que venceu rapidamente o gigante corumbaense, adversário o qual havia sofrido para derrotar, conseguimos fechar a categoria, pois éramos naquele momento companheiros de equipe, Leandro fazia parte da filial da equipe Fight Sports em Bonito.  Naquele campeonato já fiquei de olho no poder que tinha aquele lutador, pensando que talvez não tivesse condições de vence-lo, pelo menos naquele dia tenho certeza que não o venceria.

        No primeiro treino que tive com Leandro, eu já quis testar a força de seu Jiu-Jitsu. Pelo tamanho, achei que o derrubar seria tarefa árdua, o chamando rapidamente para guarda, nesta época domínio da luta que tinha mais habilidade. Quando Leandro juntou minhas pernas, dominando meu quadril de forma que meus membros inferiores ficaram paralisados, descobri que a força dele era descomunal mesmo. Minha guarda neste dia foi uma barreira tão eficaz quanto uma pequena mureta de uma casa tentando impedir a entrada de um ladrão sedento por roubar.

        Passados alguns treinos, conseguimos eu e os outros companheiros de treino, descobrir algumas formulas para neutralizar a passagem de guarda de Leandro. Mesmo assim, os treinos com ele eram sempre o menos aguardado pela maioria. Nesta época se destacava no The Ultimate Fighter Brasil (TUF) um jovem lutador, que tinha força, explosão e destreza, assim apelidado de Mutante. Observei as semelhanças daquele lutador com o aluno que tinha em minha academia, o nomeando Leandro como Mutante, apelido que seus companheiros de treino instantaneamente acataram como nova identidade de Leandro no Jiu-Jitsu.

       Deste passado ressurgia Leandro Mutante, hoje um agente penitenciário residente da cidade de Jardim. Nesta cidade, Mutante voltou com mais afinco ao Jiu-Jitsu, pegando a responsabilidade de liderar a Fight Sports em Jardim, uma tarefa que inicialmente não estava em seus planos, visto que ele sempre foi reticente quanto a dar aulas, mesmo assim, ele nunca se esquivou desta responsabilidade.

        Mutante foi um grande competidor deste meu roll de alunos desta época. Sua força e destreza eram reconhecidos por seus adversários, e qualquer um o visse lutando. Certa vez, durante um campeonato, Mestre Luís Claudio Isaias viu Mutante aquecendo para sua luta. Mestre Isaias chegou próximo de mim na grade, e me perguntou em seu sotaque chiado de carioca: “O Leandro Jaques está treinando com vocês?”, respondi que sim, e ele completou: “Este é um dos caras mais fortes que eu já vi”.

        Mestre Isaias fez parte da elite da equipe Carlson Gracie entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Ele simplesmente conviveu com a mais lendária equipe de competição da história do Jiu-Jitsu Brasileiro. Lutadores que se tornaram lenda por seu poder físico, foram vistos in loco por Mestre Isaías, e mesmo assim, a força de Leandro o deixou abismado. Aí que pude perceber que a dimensão de poder físico de Leandro Mutante era diferenciada.

        Algumas semanas antes da nossa Adventure por Jardim, vinha me visitar meu antigo companheiro de treinos Leandro Mutante. Em um treino de sexta-feira, ele apareceu para o tradicional treino da tarde, um treinamento voltado exclusivamente para usar o Jiu-Jitsu em força máxima. Pela janela pude avistar vindo um armário feito de músculos, assombrando aquele treino, mostrando que aquele dia não ia ser fácil.

        Em um alinhamento cósmico de força, recebemos a visita de outro personagem que já passou pelo Adventure, Irineu Bertani, da Soul Fightes-MS. Em uma tarde testando a sobrevivência para não sucumbir ao poder da força de Mutante, com parceiros de treino também muito fortes, o Jiu-Jitsu providenciou muitas brigas boas, que rememoraram o passado da Igrejinha, quando Leandro Mutante era meu costumaz parceiro de treino. 

    Confiava totalmente no poder de fogo que tinha Mutante, o incentivando a lutar todos os campeonatos ali no início dos anos 2010.  Eu já era faixa preta, sofrendo a cada treino contra meu aluno faixa marrom, e acreditava piamente que ele era o melhor peso pesado do Estado. Quando rolou o primeiro Indoor Black Belt, em 2013, vi o potencial de vitória de Mutante. Fui para inscreve-lo na categoria +100 quilos, mas havia um impedimento que não me deixaria inscreve-lo.

        No Indoor Black Belt era permitido somente faixas pretas. Conhecia os possíveis adversários de Mutante, havendo lutado já com alguns, e não queria deixa-lo de fora da disputa, acreditando em seu potencial de vitória. Inspirado em Mestre Myagi, do filme Karatê Kid, que na mesma situação em que estava, furtou a faixa preta de uma bolsa, e lhe conferiu a graduação necessária para a inscrição do pupilo, e disse ao presidente da Federação, Fabio Rocha: “Então inscreve ele aí que vou dar a faixa preta pra ele”.

       Eu nem poderia dar a faixa preta, por isso busquei apoio na minha decisão com Miguel Contis, que acionou nosso professor na época, Francisco Fernandes Jr “Chiquinho de Cuiabá”. Chiquinho achou plausível nosso motivo, e não se opôs a nossa decisão. Faltava somente avisar a decisão para Mutante.

      Preferi manter o segredo, certificando que Leandro iria poder lutar, uma meia verdade, que escondia que pra isso ele seria graduado. Chegando no campeonato, sem rodeios, o avisei que ele iria lutar de faixa preta, e que agora Leandro Mutante estava graduado a tão sonhada e temida faixa do Jiu-Jitsu.

        De volta ao presente, após o treino de sexta-feira, combinei com Mutante nossa logística pra visita-lo. Ele nos sugeriu fazer em Jardim sexta a noite, e no sábado descermos para a cidade de Bonito, e assim treinarmos com Luís Guilherme” Bundinha” e seu pai, o primeiro professor de Mutante, Jorginho. Adorei a ideia, mas sabia que seria uma empreitada dura para o corpo.

        Pedi alguns dias de preparo, e combinamos para ocorrer no início do mês de agosto esta jornada dupla do Jiu-Jitsu Adventure. Me preparei como pude, malhando, treinando e focando em me manter em forma para dar conta da visita ao Mutante e depois aos seus conterrâneos bonitenses.

        Chegando próximo do evento, eis que sinto uma dor no joelho que me acompanha há alguns anos. Todo o lutador que se jogar no Jiu-Jitsu totalmente, herdará uma lesão que o acompanhará sempre. Dando períodos de trégua, estas dores até mesmo nos enganam que se foram, para assim retornarem e nos lembrar dos infortúnios que é doar uma articulação ao Jiu-Jitsu.

        Cheguei a cogitar adiar o Adventure, mas sentia que era o momento de fazer, não cancelando a missão. Os ventos estavam favoráveis para se lançar pelos veios hidrográficos da Região da Serra da Bodoquena, conhecendo o Jiu-Jitsu em meio a natureza exuberante desta região.

        Em uma manhã quente, com sol alpino refletindo toda força de seus raios no amarelo da grama ressecada, deixando no ar desertificação do cerrado invernal, iniciamos nossa epopeia.  Iriamos mais uma vez em dupla somente, eu e meu já companheiro fiel de Jiu-Jitsu Adventure, Melchor. Íamos esperançosos no sucesso da viagem, indo ao encontro do poder do Jiu-Jitsu de Mutante, e de uma outra figura emblemática do Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul, Ronan Tangerino, por mim apelidado de “Ronin”.

        Saímos no meio da tarde. Pela estrada seguimos, os dois de óculos escuros, para assim suportar a emissão intensa dos raios solares, que sem uma nuvem sequer para esconde-los, anunciava que o astro rei não daria trégua durante seu reinado nos céus. Percorrido alguns quilômetros, nos despedimos da planície e fomos subindo a Serra da Bodoquena.

        A estrada que nos leva até Jardim apresenta seus riscos, riscos estes que Melchor me explica serem amortizados com uma direção segura e consciente. Mesmo assim, não podemos ignorar os perigos. A contenção de ferro da estrada se encontra danificada em uma íngreme subida, anunciando que alguém acabou sucumbindo ao perigo da serra.

       Do alto do desfiladeiro pouco podemos ver do que aconteceu, apenas a estrutura metálica destruída. Ao passar pelo local, por poucos instantes conseguimos ver um veículo virado no fundo do desfiladeiro. Melchor avista veículos que ele conhece a função, os carros da funerária e da polícia.

        Vida e morte caminham lado a lado pelas estradas. Aquele veículo talvez carregasse pessoas que tinham o mesmo destino que nós, mas que não lá chegaram. Refleti rapidamente, e naquele momento percebi a dádiva de estar vivo para seguir viagem, tendo em minha jornada mais um dia para estar fazendo o que amo, Jiu-Jitsu.

        O sol nos deixa em determinado ponto, trazendo consigo a escuridão da noite na região serrana. A viagem até o destino foi bem fluida, com uma estrada com pouco fluxo, tanto é que quando adentramos a cidade Jardim, tínhamos tempo de sobra.

        Estive em Jardim em duas ocasiões, a primeira em 2007, durante um seminário do Mestre Ricardo De La Riva. Na época era bem jovem, tinha dezenove anos, e fui para prestigiar meus antigos amigos de equipe, que se graduaram a faixa preta naquele seminário. Depois retornei alguns anos mais tarde, em 2010, para o famoso Carnaval de Jardim, sendo a minha primeira e última aventura carnavalesca, que foi divertida, mas não faz meu tipo de diversão, não mais fazendo parte de meu roteiro de vida.

       A cidade é entrecortada por uma grande avenida, com um comércio bem estruturado ladeando-a. Jardim é um polo turístico do estado, com belezas naturais tão encantadoras quanto de sua vizinha Bonito. Mas a natureza exuberante não poderá ser visitada neste dia, nosso itinerário na cidade seria somente preenchido com Jiu-Jitsu.

        A Fight Sports Jardim é uma academia que vista os olhos, tendo uma faixada que já exibe sua arquitetura finamente ornamentada. Desde a escolha dos aspectos decorativos, a iluminação e qualidade de equipamento, a Fight Sports Jardim é uma espelha uma academia de alto padrão. Levando a marca mundialmente conhecida por seu idealizador, Roberto Abreu “Cyborg”, a academia é uma iniciativa de Adley Lobato de Matos, ou simplesmente Gugu. Ainda não descreverei Gugu, deixando para o episódio seguinte, na cidade de Bonito, aonde irei apresenta-lo.

         Em um tatame todo branco, ornando com as paredes na mesma cor, em conjunto de cores contidas na bandeira da equipe Fight Sports, conseguimos perceber o mesmo padrão de decoração que as academias filias possuem. Encontro com Mutante, que está sentado sozinho, em um ponto mais escuro da sala, apreciando o silencio da academia antes de chegarem os alunos.

        Temos um tempo para conversar e lembrar do passado. Nossos encontros sempre nos levam para a Igrejinha, e as várias aventuras que vivemos naquele tempo. Mutante me chama de Tiozão, brincadeira com o fato de na época nossa academia não ter uma figura mais velha, como é o pai de Roberto Cyborg Abreu, Roberto Pai, popularmente conhecido como Tiozão.

       Os alunos vão chegando, variando em peso, idade e graduação. Os alunos de Mutante variam muito em experiência, muitos deles chegaram para treinar já graduados de outras academias, o que torna seu grupo bem heterogêneo, padrão que consigo perceber nas cidades de interior. Rodeado por seus filhos, chega Ronan Tangerino, o Ronin.

    Ronan é um dos grandes talentos que acompanhei crescer no Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul. Liderados por Matheus Godoy “Pombo”, Ronan fez parte de uma talentosa geração, que cresceu atrás de destaque competitivo, cultivando seu jogo a base do bom Jiu-Jitsu Porradeiro, em que a lei é do mais forte. Quando Ronan Migrou de equipe, tivemos um convívio no mesmo time por alguns anos, os dois fazendo parte da Gracie Barra Pantanal.

        Ao sair da equipe, Ronan buscou treino em minha academia, achei interessante recebe-lo, mas por um acordo interno das equipes Gracie Barra do MS, não poderia abriga-lo como parte do time. Ronan não ficou chateado com a impossibilidade de continuar conosco, brincando e dizendo que ia ser como um Ronin, um samurai sem mestre, e que ia buscar seu Jiu-Jitsu de maneira individual.

     Fiquei com isso na cabeça, pois achei a analogia que Ronan usou para ilustrar seu momento encaixava muito bem. Os Ronins tinham um modo individual de buscar aperfeiçoamento, a vida destes Samurais, que nos tempos do Japão Feudal percorriam o país em busca de um senhor que contratasse sua expertise na arte da guerra. Eles eram hábeis guerreiros, que viviam solitários em seu poder, naquele momento Ronan compartilhava o mesmo sentimento destes Samurais.

        Jardim é uma cidade que tem uma tradição mais antiga que a chegada de Mutante e Ronan. Na segunda metade dos anos 2000, conheci o professor André, conhecido como Andrezão, que fez parte da De La Riva MS. Além de André, chegou mais ou menos neste tempo o Professor Junior “Monkey”, residindo na pequena cidade vizinha de Guia Lopes. Monkey é corumbaense que foi radicado em Campo Grande, amigo antigo dos meus tempos de faixa azul e ele marrom. Infelizmente nossos cronogramas não bateram e não pude encontra-lo nesta visita. Além deles dois, um ex aluno de André também tem sua escola, Antonio Cauby, academia que revelou bons talentos para o Jiu-Jitsu do estado, como seu filho Keuby, que me recordo ter sido um atleta promissor nas categorias juvenis, mas que não seguiu carreira no esporte.

        Tirando Andrezão, que não se junta para treinar com os outros professores, razão a qual eu não sei informar o motivo, os alunos das outras escolas da região costumam treinar com Ronan e Mutante, dois cascas grossas que reforçaram a força do Jiu-Jitsu daquela cidade.

        Mutante me apresenta para a turma. Fico muito orgulhoso de vê-lo a frente de uma academia, quando era meu aluno nos tempos da Igrejinha, via muito potencial nele como lutador, mas para professor não imaginava que ele tinha esta vocação. Com um jeitão rústico, Leandro era um estudante de veterinária, carregando em si a cultura sertaneja do Sul-Mato-Grossense. Sempre que acionado para uma explicação de técnica, se sentia tímido e inibido a demonstrar, então o via e o tratava mais como um lutador.

        Até que alguns anos depois dos eventos relatados, Leandro Mutante me chamou para tomar conselhos de professor. Ele havia começado uma turma de Jiu-Jitsu na academia de musculação em que malhava próximo de sua casa. Me perguntando se poderia ajuda-lo nesta empreitada. Fiquei surpreso com a iniciativa dele, não o esperava ver seguindo a docência da arte suave.

        Em determinado momento Mutante teve de se ausentar por duas semanas, e eu o substituí com esta turma e pude acompanhar seu desenvolvimento como professor. Os primeiros alunos de Mutante tinham uma aura boa, vontade, e disposição para aprender, era interessante ensina-los. Eles se encantaram com a ferocidade da luta, confeccionando uma camisa com a frase: “Jiu-Jitsu, a suave arte de quebrar ossos”, Mutante dava risadas da frase que seus alunos escolheram, se divertindo em seu início como professor.

        O seminário transcorre com uma turma mais tímida, tirando Zadrick, um faixa azul pré-histórico, que nos meus tempos de Fight Sports já era azul, e que agora depois de mais de uma década retorna para continuar sua jornada, e por termos este conhecimento prévio, consigo ter mais interação com ele, mas a maioria é silenciosa e focada nos exercícios que passo. É interessante notar isto, pois é uma característica bem espelhada de Mutante, me lembrando dele nos seus tempos de aluno.





        Em meio a um grupamento majoritariamente masculino, duas resistentes mulheres fazem sua jornada nesta turma. É comum ainda no Jiu-Jitsu uma maioria masculina, bravas são as mulheres que percorrem seu caminho em meio a tantos homens, sobrevivendo firmes, em um ambiente que vai ser bem mais duro para elas do que é para eles. Admiro a fibra delas, e de todas as mulheres que colocam a cara e enfrentam o dia a dia do Jiu-Jitsu entre homens, se provando verdadeiras guerreiras.



        A aula corre bem, mas busco apressar um pouco as coisas, pois Leandro e Ronan são entusiastas de um método bem específico de treinar Jiu-Jitsu, o rola. Exercitar o Jiu-Jitsu em seu estado mais primal, a luta, é o método principal aos olhos de Ronan, que quando preso a teorias, posições e drill, se sente como um adolescente dentro de uma sala de aula escolar, entediado.



        Começamos os treinos de luta, e rapidamente busco já treinar com Ronan. Conheço seu potencial já há anos, sei que treinar com ele é sempre um grande teste para meu Jiu-Jitsu. Completo em quase todas as áreas do combate, dificilmente conseguimos uma situação confortável na luta, nos sentindo sempre em estado de alerta ante aos perigos que a técnica dele apresenta.

        Em um tempo curto, três minutos, não seria possível superar Ronan, que com força, agilidade e técnica, ataca constantemente, me jogando direto para um modo defensivo. Por mais que o tempo tenha passado, e Ronan estar afastado do circuito competitivo há algum tempo já, ele continua sendo um dos grandes lutadores que você pode topar em sua andança pelo Jiu-Jitsu Sul-Mato-Grossense.



        Observo a distancia Mutante chamando os alunos dele, que vão ao encontro dele com cara de quem sabe que irá ser provado. Um encontro com Mutante é sempre uma prova de sua capacidade de resiliência, tendo a sua frente um oponente que terá muito mais força que você, e que ainda por cima, possuí técnica para neutralizar suas armadilhas, sendo cada treino com ele, um encontro com a essência do poder da força, uma experiência que sempre marca sua lembrança da arte suave.

        Foi com Mutante que desenvolvi parte da técnica de tartaruga. Quando iniciei minha jornada por desenvolver este jogo, meus testes com ele quase todos eram falhos, tal a disposição com que ele destruía minha defesa. Ele me disse algo que me alertou para uma dimensão da luta, de que comigo ele viu a persistência em insistir em uma técnica, algo que vivi na pele, mas não tinha parado para refletir.



      Ao desenvolver algo novo, vamos precisar de tempo para que isso logre êxito, não é uma construção de um dia só. Vejo este processo de desenvolver um jogo no Jiu-Jitsu como uma árvore em crescimento, que demorará a dar frutos, então, se podarmos seus galhos ao primeiro revés, nunca chegaremos a desfrutar dos frutos que ela pode dar.

        Os alunos de Leandro e Ronan cultivam as raízes desse Jiu-Jitsu aguerrido, estilo que busca em sua essência, demonstrar sua força como lutador e dominar seu adversário. Se os alunos da Fight Sports Jardim foram tímidos no seminário, não dá pra dizer o mesmo durante o rola.

        De três em três minutos, cada um deles, variando em faixa, idade e peso, veio até mim de corpo e alma pra demonstrar sua força e tentar me superar. Sinto neles a mesma energia e força que Ronan e Mutante possuem, com dois guias destes, não dá pra dar menos que o cem por cento durante os minutos que a luta dura.



        Cada segundo durante rola é uma oportunidade de superar seu oponente, mesmo assim o fazendo em harmonia, em uma simbiose de guerra e diversão, parte integrante da técnica da arte suave, que muitas vezes pode ser mais áspera que suave.

        Terminamos o treino, conseguimos sobreviver ao encontro com Mutante e Ronin. Eu e Melchor nos entreolhamos felizes, cientes da árdua jornada que superamos naquela noite, já que éramos conhecedores do poder de fogo dos dois. Mutante agradece de coração a minha presença, destacando meu papel como professor em seu passado, e sinto o mesmo respeito ou maior advindo de seus pupilos para comigo.

        Meus joelhos sentem o desgaste do impacto feito naquela noite, mas nada que parecia impedir nossa jornada de continuar. Meus joelhos sobreviveram ao encontro com Mutante e Ronan, dois espécimes que parecem terem sido criados em algum laboratório produtor de quimeras bestiais do Jiu-Jitsu.  Quem com eles dois se confrontar, terá com toda a certeza um trabalho hercúleo ao fazê-lo.



        Terminado nossa visita, nos deslocamos para jantar com Mutante e alguns de seus alunos. Nosso grupo forma uma mesa de gente de fora da cidade de Jardim, mas que pelo Jiu-Jitsu consegue se conectar perfeitamente ao local. Seja para alguém de passagem, como eu e Melchor, ou seja, como Mutante e alguns de seus alunos, que o destino os carregou para aquela cidade, o Jiu-Jitsu sempre cria um lar para habitarmos.


Leandro Mutante marca parte importante de minha jornada, reencontra-lo, assistir sua paz profissional, familiar e de espírito, me deixa muito feliz e orgulhoso de ter sido seu professor. Me despeço momentaneamente dele, pois nos encontraríamos brevemente, conhecendo mais profundamente as raízes que formaram este espécime do Jiu-Jitsu.

  


        Saímos de Jardim pela noite mesmo, Melchor e eu somos seres que não temem o escuro noturno. Por uma estrada escura, atentos a passagem de animais silvestres, vamos rumo ao Paraíso da Natureza, um local que é visto como mágico, e que vai nos apresentar o poder do Jiu-Jitsu do povo da água calcária.

        Nos acompanhem na segunda parte desta jornada, em que arte suave e natureza vão se misturar de maneira singular, venham conosco para fazer Jiu-Jitsu no Paraíso, conhecendo a força dos lutadores de Bonito. 

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