Jiu-Jitsu Adventure MS EP 10. Projeto Social Eagle Fight Team: Amigos são a Família que Você Escolhe




        Depois do último Adventure na noite dos namorados, a agenda de visitas ficou livre. Por um tempo, procurei descansar e focar em outros projetos pessoais, mas conforme as semanas passaram, senti a necessidade de voltar para a estrada, e continuar minha exploração pelo Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul.

        Me lembrei de uma figura das mais carismáticas que já conheci no Jiu-Jitsu, e que tinha manifestado desejo de que visitássemos a academia em que treina, Rocamboli. O gordinho mais simpático do Jiu-Jitsu do estado, quiçá do Brasil, me convidou com intuito de me apresentar o projeto social do qual sua equipe faz parte, o Projeto Social Eagle Fight Team.

           Quando tive este insight de visita-los, entrei em contato com Rocamboli, quem descreverei mais a frente, e acertei dia e hora para visita-los. A negociação para acontecer a visita foi das mais rápidas que tive, como que em concordância de intenções. Rocamboli me sugeriu ir na segunda-feira a noite, um dia que para mim é ótimo, pois não preciso remanejar aulas ou compromissos. Neste acordo mutuo, ficou marcado mais um Jiu-Jitsu Adventure MS.

       Sabia muito pouco sobre o local que visitaria, conhecendo mais profundamente Rocamboli, através de sua entrevista ao Podcast que dirijo. O Projeto da Igreja Universal, aquele que foi um dos episódios passados, é linkado com o Eagle Fight Team através de Rael Azambuja, instrutor que faz parte da equipe e do projeto. De informação tinha só estes personagens, não sabia quantos alunos seriam, ou se o público frequentador da academia era mais de crianças ou adultos. 

            Se voltarmos alguns dias antes da visita, teremos a mensagem de um amigo que não via a muito tempo. Era um amigo das antigas, que já não via pessoalmente há mais de dez anos. Quando li a mensagem, minha mente voou para um passado distante já quase duas décadas.

Em uma academia de musculação, adentrava um jovem garoto de dezesseis anos, magricela, pesando sessenta e poucos quilos, peso distribuído em um metro e oitenta de altura, uma conta que não fecha. De boca metálica, reluzindo seu aparelho dentário e cabelo cortado no limite exigido pela escola militar que estudava, este jovem buscava se reconectar com algo que havia deixado de praticar anos antes, o Jiu-Jitsu.

          Aquele tímido adolescente, era eu, que saído de uma catarse de inserção no meio militar, buscava um outro caminho na vida. Quando adentrei a academia e me dirigi ao tatame, avistei um cara de kimono sentado sozinho esperando alguém para a aula. Anos antes deste encontro, havia praticado Jiu-Jitsu em minha pré adolescência, na cidade de Porto Velho, em Rondônia, local que residi e que me iniciei nesta arte marcial no ano de 2000. Com essa experiência prévia, não tive receio em chegar no tatame, me apresentar pra ele, e dar o primeiro passo do recomeço.

         Mesmo passadas quase duas décadas, me recordo daquele treino com detalhes, sendo guiado nesta volta por aquele homem que era faixa azul na época (naquele tempo era comum faixa azul dar aula). O professor da aula basicamente me pediu pra mostrar o que sabia, despertando minha lembrança do que tinha mais legal no Jiu-Jitsu, lutar.

Aquele simples treino me despertou para algo que havia adormecido em mim, a emoção de estar no tatame. Este retorno tinha algo de diferente neste momento. Meu corpo já mais crescido, me dava possibilidades a mais do que quando pré-adolescente, me fazendo sentir-me poderoso. Eis que quase vinte anos depois, marco de dar um treino com aquele que havia me recebido de volta no Jiu-Jitsu, Junior Donnati, ou simplesmente, Juninho.

         Os elogios que me deu neste primeiro treino,  fez crescer em mim o interesse por aquela atividade, a qual que havia deixado em meu passado ao sair de Porto Velho. Daqueles primeiros passos, uns dois treinos depois, Junior deixou de me dar aula particular, e me levou para a academia de seu Professor, aonde eles planejavam me colocar para lutar contra outro jovem da minha idade, que tinha sido campeão de um campeonato, e nas palavras deles estava “marrento”, precisando de uma lição, a qual eu seria o instrumento para isto.

        Fiquei nervoso em ter esta responsabilidade, mas agarrei a possibilidade, e me senti prestigiado. Junior parecia acreditar mesmo que eu era capaz de superar o outro garoto. Mesmo um tanto receoso, aceitei a ideia de fazer este desafio, então fui levado a uma pequena academia, que ficava aos fundos de um estreito corredor, que findava em uma varanda, que abrigava com um tatame de lona, lar de quem ficou sendo meu professor.

        .Fui levado por Juninho para treinar com Fabio Myazato, faixa marrom, e que ficou sendo meu primeiro professor aqui em Mato Grosso do Sul. Fabinho Jiboia, como era conhecido, era um cara jovem, que conseguia o feito de ser tão magro quanto eu, só que menor em tamanho. Descobriria que ele era muito maior do que sua estatura indicava. 

Fabinho era a essência daquilo que me faltava a época, pois mesmo pequeno e magro, ostentava duas orelhas grandes e estouradas, estereótipo típico lutador de Jiu-Jitsu dos anos 1990 e 2000. O semblante calmo de Fabinho, refletia sua elevada autoconfiança e coragem, que o fazia parecer muito maior. Observando o estilo aguerrido de Fabinho, de técnica leve e saltadora com seus golpes voadores, foram a minha inspiração em seguir este caminho.

        Deste passado havia ressurgido Juninho, dizendo que estava vindo para Campo Grande, e me perguntando se haveria treino em minha academia. O dia combinado foi um sábado à tarde, dia então previsto em que ia rever esta figura tão importante do meu passado já distante. 

        Tarde de sábado, já na minha última aula da semana, aguardo ansioso meu amigo das antigas. Espero no tatame com meus alunos desta aula, uma turma de coroas, a maioria pra lá dos quarenta anos. Eis que chega Juninho, que se encaixa perfeitamente no perfil daquele treino, idade parelha com o dos meus alunos, ainda ostentando uma excelente forma física, parecida de quando o conheci, com a diferença de os cabelos não fazerem mais parte do conjunto.

                                                  Equipe Nova Impacto, Professor Fabinho Jibóia, 2004

         Eu e Junior ficamos o ano de 2004 treinando com Fabinho, que no final deste ano se mudou para Curitiba, em um projeto de se destacar no Vale Tudo (MMA da atualidade). Migramos juntos para a equipe da Dela Riva, que na época era capitaneada por Emílio China, que foi nosso professor entre os anos de 2005 e 2006. Treinar com Juninho era resgatar parte deste passado, passado este que ainda vive em minha mente. Acredito que eu e ele saímos mais jovens daquele treino.

        Recuperada nossa jovialidade, decidimos sair pela noite como nos velhos tempos, ao melhor estilo anos 2000, se jogando sem mapa, sem linha de partida ou chegada. Éramos dois velhos amigos se reencontrando e editando uma dupla de sucesso nas antigas.

Convidei Juninho para irmos juntos a esta visita na Eagle Fight Team. Tinha poucas informações para dar a ele, mas uma das minhas previsões o tranquilizou. Imaginava que por ser um projeto social, haveriam mais jovens que adultos, o que dá um trabalho maior na hora de ensinar o seminário, mas que exige menos no físico na hora de rolar com a galera.

Nos acompanhando vinha Melchor, ele não deixaria de abraçar uma missão destas. A aula estava marcada para as dezenove horas, começando com o treino das crianças e findando no dos adultos uma hora depois. Rumamos assim para o Projeto da  Eagle Fight Team, que fica no bairro Coronel Antonino, local um tanto distante de minha casa.

Durante o caminho, viemos eu e Juninho recordando do nosso passado, tempo que tínhamos que ralar para treinar Jiu-Jitsu. Nos anos 2000, existiam poucas academias na cidade, e na maioria delas havia um estrito senso de exclusividade. Não era comum visitar outras academias, e quando alguém se arriscava, encontrava quase sempre um ambiente hostil. Eu e Juninho já tínhamos essa vontade de explorar, tendo uma vez desafiado este dogma.

 Emílio China, não era favorável as visitas a outras academias. Havia acabado de abrir a primeira Gracie Barra da cidade, na época dirigida por um faixa preta de Brasília chamado Bruno Triangulo. Fomos convidados eu, Juninho e Cabeça, hoje um dos líderes da Fight Sports Pantanal, e que na época fazia trio conosco nesta busca, a irmos a um treino livre nesta nova academia. Nosso professor recomendou que não fossemos, mas batemos o pé, e mesmo com a contrariedade dele, resolvemos arriscar. 

Chegando lá, haviam muitos alunos da nossa faixa, a maioria era azul, algo que me indicou que aquele treino iria ser um bom teste. Coloquei meu kimono e fui para o tatame, com expectativa alta em encontrar um bom desafio. Estava ansioso, animado, e ao mesmo tempo nervoso para treinar com aquela galera. Quando a ação começou, tivemos um problema.

De onde estava rolando, observei o treino parado aonde estava Juninho, e ele estirado segurando sua mão. Notamos que era grave, e rapidamente saímos do treino para e leva-lo ao hospital. Nosso treino acabou nem acontecendo, Juninho teve uma luxação no dedo, e nosso professor confirmou que a ideia dele estava certa. Mesmo assim, não desistimos da ideia de explorar o Jiu-Jitsu para além dos muros de nossa equipe.

Os anos me comprovaram que esta experiência de visitar uma academia pode ser enriquecedora. Os tempos mudaram, e mudaram muito. Desta vez tinha certeza de que tudo daria certo, diferente daquela experiência que eu e Juninho tivemos, o presente reflete um quadro bem melhor sobre a atitude de visita a outra equipe. Rocamboli é alguém que batalha pela bandeira do Jiu-Jitsu do estado, com certeza seriamos muito bem recebidos lá.

Os anos me comprovaram que esta atitude de visitar uma academia que não é a sua, pode ser enriquecedora. Os tempos mudaram, e mudaram muito. Desta vez tinha certeza de que tudo daria certo, diferente daquela experiência que eu e Juninho tivemos, o presente reflete um quadro bem melhor sobre a atitude de visita a outra equipe. Rocamboli é alguém que batalha pela bandeira do Jiu-Jitsu do estado, com certeza seriamos muito bem recebidos lá.

 Que bom que os tempos mudaram...

Com a súbita da mudança de nosso professor China para a Bahia, evento que em algum momento devo descrever, migramos para a Fight Sports. Juninho chegou a começar conosco esta nova jornada, mas se mudou para Curitiba pouco tempo depois. Nossas jornadas se separaram, e nesses mais de quinze anos, nos reencontramos em poucas oportunidades. Nesta noite compartilharíamos parte desta história novamente.

Adentramos os domínios Coronel Antonino, bairro mais afastado do centro, próximo a bairros mais carentes da atuação do estado. Desde a época que éramos mais jovens, eu e Juninho gostávamos de ir treinar em academias conhecidas popularmente como de “bairro” (como se todas não fossem também). Nos sentíamos retornando a nossas origens, quando uma vez na semana costumávamos ir treinar na academia da De La Riva que ficava no bairro Aerorancho, local em que sempre fomos super bem recebidos, e fazíamos ótimos treinos fora de casa.

Chegamos na rua da academia em tempo recorde, nosso motorista, Melchor, conhece as ruas e bairros de Campo Grande como ninguém. Enquanto o carro estaciona, vejo uma pequena porta bem iluminada, e algumas pessoas na frente esperando, indicando que havíamos chegados ao local certo, em uma academia de Jiu-Jitsu prestes a iniciar suas atividades da noite. 

Ao descer do carro, passam por nós um grupo de três dependentes químicos (popularmente conhecidos como “Nóias”), uma mulher e dois homens. A mulher fala bem alto: “OS AMIGOS SÃO A FAMÍLIA QUE VOCÊ ESCOLHE!”. Aquela frase reverbera em minha mente, me trazendo uma reflexão sobre o momento. Junior percebe também a natureza filosófica da frase, e se espanta, assim como eu, com a sabedoria advinda dela. Aquela frase profunda, vindo de alguém vivendo o mais profundo da miséria humana, tinha uma riqueza que não combinava com seu estado.

Nos dirigimos ao espaço que abriga o Projeto Eagle Fight Team, passando pela porta e encontrando algumas pessoas já esperando o treino. Em um pequeno hall de entrada, uma estante exibe vários troféus, um deles eu reconheço bem. Um troféu em acrílico, indica a vitória por equipe do antigo e já extinto “Mega Festival de Artes Marciais”, evento memorável no passado.

Para quem não conhece, ou não se lembra, o Mega Festival de Artes Marciais ocorreu entre meados da década de 2000, indo até mais ou menos início da década seguinte. Este foi evento importante no cenário desportivo local. Era uma verdadeira festa das lutas, realizando no mesmo dia e local, diferentes competições de artes marciais.  Uma destas artes marciais que acontecia no evento é o ponto comum para estarmos ali.

Em um tatame todo avermelhado, de dimensões consideráveis, tendo defronte um conjunto de espelhos, temos um grande Banner que anuncia a arte marcial que dá nome ao espaço: “Essa é Minha Capoeira!!!”. O grupo de Capoeira que divide espaço com o Jiu-Jitsu é o Grupo Filhos da Jamaica, do Mestre Jamaica. Vale ressaltar que a arte do Banner é muito bonita, com o logo do Grupo ao centro, uma Onça Pintada de um lado, um Jacaré do outro, e abaixo desse conjunto, temos algumas imagens do complexo urbano campo-grandense. Estava curioso para saber qual a relação da Capoeira com o espaço.

Capoeira e Jiu-Jitsu Brasileiro são artes marciais que se ligam em um passado já distante. Quando comecei a fazer Jiu-Jitsu, havia um grande preconceito quanto a Capoeira. Os Jiu-Jiteiros da época, recém saídos de eras de guerras de sua arte contra outras artes, se referiam a qualquer luta que não fosse Jiu-Jitsu de forma jocosa. A frase que me recordo, depreciava a arte marcial que hoje nos recebe: “Capoeira é Dança!”. 

Eis que descobrimos através da história, isso em um período mais recente, que a Capoeira tem uma ligação intrínseca com o Jiu-Jitsu Brasileiro. Em sua formação, a Capoeira Carioca do inicio do século XX, influenciou o Jiu-Jitsu Gracie, que absorveu inclusive movimentos dela, como a levantada técnica, pisão, e movimentação livre no solo. Capoeira e Jiu-Jitsu Brasileiro são duas artes marciais desenvolvidas em solo brasílico, o que as torna parte de um mesmo caldeirão cultural formativo. Se Capoeira é dança, Jiu-Jitsu Brasileiro também é.

Somos recepcionados por Rocamboli, o gordinho que é sinônimo de paixão pelo Jiu-Jitsu Sul- Mato-Grossense. Rocamboli é um cara bem alto, com físico avantajado, que abriga dentro de si um sujeito simpático, alegre e desinibido. Foi através dele que tive mais intuito de me jogar em comunicar aquilo que pensava sobre o Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul, sendo ele o primeiro a ter esta iniciativa. Junto com Rocamboli, temos a figura que me daria as informações que gostaria a respeito do Projeto, seu professor, Gilmar Trindade.

Assim como Rocambolli, Gilmar é a simpatia em pessoa. No tatame ao chegar, temos pouca gente ainda, o que acho estranho, pois seria aula das crianças. Gilmar me anuncia que as crianças estão de férias escolares, então havia dado férias do Jiu-Jitsu para eles também. Este anuncio me deixou com a ideia de que teríamos uma noite mais tranquila, com menos alunos por conta da ausência das crianças no treino.

Com este incentivo, Gilmar resolveu desenvolver um projeto social no espaço. Nenhum dos alunos paga mensalidade, Gilmar me falou que eles apenas fazem um rateio, para que assim, se paguem os custos de manutenção e funcionamento do prédio. Achei esta iniciativa fantástica, pois é incomum projetos que agreguem uma população adulta, ou se tem este público, é uma solene minoria frente ao público infantil. Veremos que no Projeto Social da Eagle Fight Team, este retrato é bem diferente.

Em nossa conversa, pude perceber em Gilmar, o mesmo que percebo de Rocamboli, o amor e doação pelo Jiu-Jitsu. Quase que como um pároco cuidando de um centro espiritual, Gilmar se lança ao sacerdócio da docência da arte suave de cabeça, não medindo esforços para que leve o conhecimento marcial aos seus pupilos.

Nada ali é cômodo para que Gilmar realize seu sacerdócio. Ele mora bem longe da academia, percorrendo quilômetros diariamente para dar aula e treinar. Seu projeto não tem incentivo público, sendo toda a assistência advinda de doações privadas. Quando me contou sobre sua rotina e desafios diários, fiquei abismado, pensando se teria a mesma perseverança dele em ocupar boa parte de meu tempo nesta missão. Nem mesmo quando nasceu seu filho, Gilmar deixou seus alunos na mão, fazendo o seu sacerdócio, por mais árduo que seja, com um grande sorriso na face. Me perguntava: Qual a motivação daquele cara em seguir firme com tanta convicção e esperança em sua missão? Descobriria naquela noite a resposta. 

Naquela meia hora mais ou menos que tivemos de espera, fiquei no tatame esticando meu corpo e me preparando para o treino. Neste tempo de espera, consigo conhecer um pouco mais do projeto, e me surpreender conforme avança a descrição de Gilmar, tamanho o empenho que ele tem para com seus alunos. Também aproveitamos para contar um pouco da ligação que eu e Juninho tivemos no passado, um tempo que ninguém ali sequer imaginava trabalhar com Jiu-Jitsu.



Fotos e vídeos normalmente são um dos meus pontos fracos. Digamos que a tecnologia andou mais que minhas capacidades em alguns pontos. Quando o assunto é redes sociais então... Sei o básico do básico. Mas naquele dia não teria problemas, tinha ao meu lado um mago das redes sociais, Rocamboli.



Cerca de três anos atrás, conhecia um faixa roxa, que nunca havia visto antes, através das redes sociais, era ele, Rocamboli. Ele chegou até mim com uma intenção de fazer uma live no Instagram, algo que na época, por conta da Pandemia de Covid, estava bombando nas redes. Fizemos a entrevista na live no Instagram, na época tinha muita pouca desenvoltura frente as câmeras, algo que Rocamboli já dominava através de seu carisma, coragem, e verdadeiro interesse em conhecer os personagens do Jiu-Jitsu MS.

A página RocamboliBJJ no Instagram foi um marco para a comunicação do Jiu-Jitsu MS. Com sua criação de conteúdo, se abria um polo que prestigiava os personagens do Jiu-Jitsu local, não que não o fizessem no passado, mas Rocamboli elevou este estilo de comunicação. Posso considerar que meu projeto de Podcast nasceu inspirado no pioneirismo de Rocamboli, que ascendeu a chama desta ideia de comunicar. Agora teria a chance de conhece-lo dentro do tatame.

Quando o horário se aproximava das oito da noite, começaram a chegar os alunos da aula de adultos. Em pouco tempo, o tatame vermelho da Eagle estava tomado de gente. Os alunos que adentravam a academia, variavam em gênero, idade e graduação. Fiquei surpreso com tanta gente, realmente não tinha expectativa de muitos alunos em um projeto social, como disse no início, tinha em mente que haveriam mais crianças. Com aquele tatame lotado, teria que ter folego e ajuda para lidar com tantos alunos, uma tarefa que por sorte havia trazido reforço para me ajudar.

Os alunos continuavam a chegar, e a maioria deles parecia já me conhecer. Alguns contam terem lido alguns textos do blog tão logo Gilmar e Rocamboli anunciaram minha visita, reproduzindo até mesmo trechos destes textos. Fico ainda espantado quando isso acontece, pois quando sento na frente do computador, sou só eu descrevendo minhas experiências e sentimentos desta jornada, não faço ideia de quantas, ou se as pessoas vão ler, assim, sinto uma alegria autentica de escritor quando esta conexão acontece. 

Quando Gilmar fala, automaticamente os alunos já param e atendem suas ordens. Deu para notar que os alunos nutrem respeito, admiração e carinho por seu mestre. Ao me apresentar para a turma, Gilmar destaca a importância de minha visita, e em como os alunos estavam ansiosos pela aula. Pode parecer que não, mas nestas aulas em que o Professor fala que os alunos estão esperando, eu ainda sinto aquela ponta de nervosismo, o que é algo bom, demonstrando que aquele momento, por mais que seja corriqueiro, ainda é muito importante pra mim.

Os alunos se espalham pelo tatame. É tanta gente, que faz o espaço de atividade ficar apertado. Conforme inicio as técnicas, ainda tem gente chegando, me deixando ainda maior a tarefa de rodar e experimentar o Jiu-Jitsu daquele pessoal, anunciando uma maratona de treinos.

Com pouco tempo de aula, já me sentia conectado com aquela turma. O ambiente da Eagle Fight é de muita camaradagem e companheirismo. Notei que os alunos se preocupavam em ajudar seus parceiros nos exercícios, não demonstrando ímpeto em apenas superar o seu companheiro de treino. Este tratamento de cuidado, criou uma atmosfera de ajuda mutua, que faz os alunos se sentirem mais confiantes e felizes no tatame.


A aula fluiu muito bem, tirando a dificuldade de espaço por conta de tanta gente, chegamos ao final do seminário com tudo aquilo que havia programado para mostrar. Respondo algumas perguntas, me apressando um pouco, pois percebia que eles já estavam na vontade do momento principal, o Róla.

O Róla (termo criado pelo Jiu-Jitsu Brasileiro, que designa treino de combate livre, algo que fatalmente quando falado para fora do âmbito do Jiu-Jitsu é interpretado com duplo sentido, arte típica da comédia do brasileiro) é o momento de se conhecer mesmo o Jiu-Jitsu de alguém. Quando estou conhecendo uma academia, gosto de rolar com os diferentes níveis de alunos, percebendo as qualidades daquela escola a partir deles. Cada um deles me espelha o que de melhor se ensina no local, e na Eagle Fight Team não foi diferente. 

Tínhamos um batalhão de alunos para rolar. Nossos parceiros de treino eram de pesos, faixas, idades e gênero diferentes, uma mistura bem heterogênea. O grande espelho que reflete o tatame a sua frente, não tem mais visibilidade, neste momento só consigo ver a parte do espelho acima da cabeça dos alunos. Observava o olhar daquela galera, e conseguia enxergar a vontade que estavam para soltar seu Jiu-Jitsu, uma vontade que me recordava ter, e muito, quando jovem. 

A maratona começa, primeiro vindo ao meu encontro os alunos mais graduados. No meu primeiro róla, a força do meu parceiro de treino, um faixa marrom, rapaz negro grande e forte, me lembrou os treinos de vinte anos atrás, com minha força parecendo muito aquém de meus oponentes.  Superado os três minutos, veio mais um, depois mais um, mais uma...

Tive oportunidade de rolar com Gilmar e Rocamboli. Eles demonstraram grande respeito por minha técnica, dizendo-se admirados com a capacidade defensiva do meu estilo, então fiquei em dúvida se me atacariam ou ficariam receosos. Os dois, quase que em um arranjo combinado, tiveram a mesma atitude, a de partir para cima e arriscar tudo que tinham.

Admiro quando meu parceiro de treino realmente se arrisca na minha técnica. Gilmar foi até as últimas resistências de sua técnica, me demonstrando resiliência em lidar com situações complicadas, não desistindo de lutar em nenhuma situação de luta que o colocava. Já Rocamboli, este arrisca tudo que tem.

O Gordinho de feição simpática, arrisca técnicas que sequer imaginava que faziam parte de seu arsenal, girando com uma agilidade impressionante, aliado ao seu peso que naturalmente te esmaga ao cair em cima. Quando o cronometro marca os dez segundos finais, relaxo um pouco meu corpo, a luta estava em pé, não havia muito o que fazer naquele curto tempo restante. Mas percebo a movimentação de Rocamboli, que parece que iria tentar uma última cartada. Ele agarra minha manga e gola com força, e gira o corpo como um tornado, tentando emular a técnica que é a marca registrada de Roberto Cyborg Abreu.

Mesmo surpreendido pela técnica de Rocamboli, consigo me defender na última hora. Extraí destes dois treinos, aquilo que acredito ser a filosofia de luta da escola, arriscar até o último segundo. Gosto de combater contra este estilo de Jiu-Jitsu ofensivo, a luta fica mais fluída, exigindo-me movimentação, agilidade e concentração constante.

A maratona continua, de três em três minutos vem mais um aluno ou aluna. Olho para o lado para ver se Juninho está bem. Ele parecia estar sofrendo um pouco, suando a careca e um tanto esbaforido, mesmo assim, sei que é este tipo de adrenalina que ele gosta. Mais uma vez a vida nos presenteava com este momento, dois velhos amigos sofrendo lado a lado em um tatame, buscando a mesma coisa, juntos em uma mesma jornada.

Se fosse descrever todos os rólas que fiz naquela noite, me exigiria muitas páginas ainda a preencher.  Em síntese, do faixa preta, o Professor Gilmar, até o menos graduado deles, um jovem adulto, magrinho, de quimono largo para seu tamanho, calça com cor diferente do paletó, me dizendo que seria seu segundo róla na vida, e partindo para cima de mim como se não houvesse amanhã, eles me demonstraram a mesma energia. Ali reside uma força de entregar-se ao momento, e expelirem em técnica todo o Jiu-Jitsu que reside em suas almas.

Ao fim da maratona, desta vez conseguindo atender todos os presentes que se voluntariaram, em um misto de cansaço e satisfação pelo momento, somos reverenciados por aquela galera. Naquele pouco contato com eles, compreendi a motivação do esforço de Gilmar, seus alunos valem a pena a doação de corpo e alma de um professor.

Compartilhamos naquela noite o espírito e magia do Jiu-Jitsu, em um quase ritual de luta, em que buscando fazer o oponente dar três tapas de desistência, forjamos amizades para a vida, criando uma irmandade de tatame.



Com o treino terminado, interagimos ainda mais com os alunos, os conhecendo um pouco, compartilhando suas jornadas, sonhos e metas. Nos dias seguintes a visita, recebi mensagens destes alunos, todas muito carinhosas e agradecendo pela visita. Um aluno faixa branca até mesmo editou um vídeo de nosso treino, em que emulava uma cena da série “Todo Mundo Odeia o Chris”, em que eu representava na sátira a vida que batia no protagonista.

Antes de nos despedirmos em definitivo, ainda resta tempo para uma comemoração do aniversário de um jovem garoto faixa branca. Local escolhido para celebrar mais um ano de vida, a academia, bolo, de temática de Jiu-Jitsu é claro.

Seria redundante tecer mais elogios ao Projeto da Eagle Fight Team, um verdadeiro projeto social de Jiu-Jitsu. Termino dizendo, que um dia ainda tenho este desejo de me doar mais pelo Jiu-Jitsu, hoje minha jornada ainda não me permitiu viver este momento, e se um dia permitir, que tenha a entrega, desejo e vontade que aquele projeto tem.

Consigo perceber que os alunos da Eagle Fight Team espelham a humildade e paixão de seu professor. Jiu-Jitsu já parecia algo muito importante na jornada daquelas pessoas, e aqueles a sua volta eram mais que amigos, eram a família que cada um deles escolheu. 

Volto pra casa bem cansado do Adventure daquela noite. Eu e Juninho e Melchor estávamos esgotados, já que perdemos as contas de quantos rólas fizemos naquela visita. Juninho enaltece a vontade dos alunos, e fica impressionado com o respeito e educação deles, dizendo: “Pediram até pra tirar foto comigo”. Olho para ele, e por alguns segundos, repasso nossa jornada na mente como um filme avançando em alta velocidade, e digo: “Você merece isso Careca!”.

Eu era um adolescente e Junior um adulto jovem, e tínhamos sonhos no Jiu-Jitsu que guiavam grande parte dos nossos esforços. Eu realizei o meu sonho, Junior realizou o sonho dele, demos uma volta inteira no mundo, cada um para o seu lado, e naquele momento estávamos mais uma vez lado a lado na jornada da arte suave.

O Adventure no Projeto Social da Eagle Fight Team foi uma celebração em tanto da minha jornada, me transportando para a nostalgia do passado, revivendo as emoções que meu eu jovem tinha, e que me fizeram me apaixonar por esta arte marcial. Como já dito: os amigos são a família que a gente escolhe, e me alegro de ter um irmão de tatame como Juninho!

Recomendo a todos que desejam conhecer esta experiência do doar-se pela arte, a visitarem e ajudarem o Projeto Social da Eagle Fight Team, o qual desejo que por muitos anos ainda continuem ajudando quem precisa encontrar um sentido em sua vida, ofertando um dos melhores remédios para os males da alma: Jiu-Jitsu em meio á uma família de tatame.

Juninho voltou para Curitiba, e eu segui minha jornada, que me levaria para uma grande viagem, em mais um reencontro, desta vez indo à cidade de Jardim, ao encontro de uma das forças mais assombrosas do Jiu-Jitsu, o Mutante, Leandro Jacques. 

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