Jiu-Jitsu Adventure MS EP.08: De volta Para Minha Terra, Soul Fighters-MS e o Jiu-Jitsu Douradense
Já
era hora de voltar para a estrada, e iria percorrer um caminho que conheço bem,
um caminho que me levava de volta as minhas origens, não no Jiu-Jitsu, mas sim
da minha existência. Nasci no dia cinco de janeiro do ano de 1988, na cidade de
Dourados-MS. Por mais que hoje me identifique mais com Campo Grande, em virtude
do tempo que resido aqui, voltar a Dourados sempre é um mergulho na raiz do meu
ser.
A oportunidade de voltar a minha
terra foi proporcionada pela Soul Fighters-MS, tradicional equipe da cidade,
que está sempre presente nas várias etapas do circuito do campeonato estadual.
Meu contato maior foi com Irineu Bertani, um jovem faixa preta que é figurinha
carimbada nas competições. Para além disso, muitas vezes nos contactamos via
rede social, a qual Irineu sempre me deu um bom feedback dos trabalhos que faço,
e ele também já havia participado de um seminário de Tartaruga e ataque de costas,
que fiz ano passado na Gb Centro junto com o professor Gregory Ortega.
Quando o projeto do Jiu-Jitsu
Adventure MS tomou corpo, Irineu se mostrou interessado em participar. Ele
entrou em contato comigo e acertamos uma data para ocorrer um seminário da
defesa tartaruga, e assim eu poder conhecer o trabalho deles por lá. A data acordada era para início de maio, mas
acabou coincidindo com a etapa de São Gabriel do circuito estadual,
necessitando ser remarcada. A data remarcada ficou para o dia 27 de maio, um
dia muito importante para mim.
Neste dia vinte sete de maio, celebra-se o aniversário do meu irmão Marcello. Voltar a cidade em que crescemos, justamente neste dia, fazendo Jiu-Jitsu, arte marcial que nos iniciamos juntos há mais de vinte anos, era trazer à tona memórias mil de minha relação fraternal.
Tudo parecia bem encaminhado, um seminário na cidade que eu nasci, no aniversário do meu irmão, com uma galera que parecia que iria trazer uma ótima experiencia, dava expectativa que seria um sonho..., mas o sonho começou em pesadelo.
Meus pais haviam viajado um dia
antes do evento, justamente para visitar meu irmão Marcello em seu aniversário.
Minha filha me pediu para fazer uma festa com as amigas e amigos dela na casa dos
meus pais, nada que parecia perigoso. Minha filha tem treze anos, mesmo assim,
concordei que fizesse esta festa, ela sabendo que não ficaria responsável por
nada, pois tinha compromissos pela noite até as vinte e três horas mais ou
menos, sendo assim, a “festa” seria vistoriada pela mãe dela.
Minha filha parecia animada com a
festa quando a busquei na escola. Ela e as amigas eram só alegria nos
preparativos, sempre com a promessa de que seria algo tranquilo. O acordo era
simples, eu iria dar aula e a mãe dela viria para cuidar a “festa”, algo que
minha filha não queria, mas que era necessário. Quando chegou a hora de ir dar
a minha aula, haviam uns dez adolescentes mais ou menos, alguns meninos e
meninas somente, exatamente como o prometido.
Esperei pacientemente minha ex-esposa
chegar, mas ela não chegava, então resolvi ir para meus compromissos, a
avisando que tive que deixar os jovens sozinhos sem supervisão. Deixei em
suspenso que a mãe dela chegaria, imaginei que uma autoridade chegando a
qualquer momento, inibiria possíveis transgressões.
Minhas regras para festas juvenis são
bem simples, consistem em três: Não quebrem nada, não se quebrem, e não façam
nada que tenha que contar para os pais de vocês. De resto, eu acredito na auto
regulação dos jovens, os limites, deveres e obrigação partem deles, uma visão
talvez utópica do processo da confiança e responsabilidade juvenil.
Já sentado na bancada, prestes a
iniciar o Podcast, recebi uma mensagem de minha ex-esposa. Com certo grau de
descrença, ela me relatou que haviam cerca de quarenta adolescentes lá, me
mandando uma foto do jardim da casa tomado de gente. Acho que minha mente
estava muito focada em apresentar o programa, não me fazendo me atentar para a
delicadeza da situação. A respondi com uma mensagem até simpática, lembrando do
filme Projeto X, uma comédia estadunidense de um jovem que faz uma festa sem
limites na casa dos pais enquanto estão viajando.
Terminei minha gravação, e por volta
das vinte três horas estava indo para a casa dos meus pais. Meu plano era descansar
para viajar no outro dia por volta das nove da manhã, voltava para casa de meus
pais nesta simples e doce intenção. Quando virei a esquina, e busquei a mão no
controle para ao longe abrir o portão, notei que não teria que fazê-lo, pois
estava já aberto.
Ao
adentrar os domínios da garagem, parecia que havia voltado para outro lugar em
vez da casa dos meus pais. Todo meu modo calmo e zen sumiu, meus doces planos
já pareciam fadados ao fracasso, e meu estado emocional feliz, foi dando lugar a
um misto de incredulidade e revolta com a cena que presenciava.
Haviam
jovens e adolescentes aos montes pela casa, gente da qual nunca vira minha
filha se quer perto na vida. A sala estava tomada por adolescentes de idade
acima da idade de minha filha, dos quais tinha certeza que nem sabiam quem eu
era. Busquei a ordem adulta da casa para me explicar o que era aquilo. Minha ex
esposa assistia atônita, mas mantendo um controle para que os mantivessem em
grau de civilidade. Ela é professora, acostumada a conviver com jovens, já eu
não.
Meu ímpeto inicial foi de expulsar todos
aqueles jovens instantaneamente, e dar fim a festa de forma abrupta e nada
simpática. Mas me lembrei de quando nesta idade fui expulso de uma casa por um
pai bravo de uma menina, que era minha colega de turma na escola. Detalhe que
eu estava lá somente por convite dela e com outros adolescentes de nossa idade,
e de verdade, pode até não parecer hoje em dia, mas naquele tempo não era
perigo nenhum pra filha de ninguém, estava lá sem nenhuma intenção além da
realização de um trabalho escolar. Talvez pensando haver naquele monte de
jovens um desavisado como eu fui no passado, me controlei para não agir como
aquele pai babaca.
Respirei fundo, e chamei quem eu queria para descontar minha raiva, a causadora daquele estrago, minha filha. Sem me importar com os presentes, descarreguei minha metralhadora de insatisfação sem dó ou bons modos, sim, eu também tenho esse modo, que por sorte não dá muito as caras. Mas somente isso não bastava para conter minha cólera, precisava de mais.
Procurei dentre aqueles tantos jovens na casa, algum valente que quisesse desafiar minha autoridade. Planejava provocar essa ousadia, e em resposta jogar o mais valente deles pelo portão da garagem, tal como o Tio Phil fazia com o Jazz naquele antigo seriado dos anos 1990 protagonizado por Will Smith: “Um Maluco no Pedaço”. Mas por sorte deles, nenhum pareceu disposto a isto, desviando o olhar ao primeiro contato, deixando esta vontade violenta somente no campo das ideias destrutivas que temos na mente.
Aguentei mais algum tempo para não surtar e violentamente acabar com a festa, até que meu limite chegou. Chamei minha filha e pedi pra avisar que a festa havia acabado. Ela avisou, e aos poucos os “convidados” foram indo embora, mas ainda restando alguns, que diziam estar sem meios para ir embora. Fui para o quarto e pedi pra avisar se caso saísse de lá e houvesse alguém mais, a coisa ia ficar feia. Minha ex esposa ainda teve compaixão com aqueles pobres adolescentes sem condução pra casa, eu me detive a falar “Não sou pai deles, não estou responsável por eles, então estou nem aí pra como vão voltar pra casa!”.
Fui dormir no nível mais alto de insatisfação, raiva e descontentamento, resultado de ser obrigado terminar a força aquela festa mal programada e executada por minha filha. Fazia uns bons anos que algo tirava minha paz daquela forma, meus planos foram todos ruídos com aquele evento.
Neste clima de raiva, acordei pela
manhã em que seria a viagem ainda puto com minha filha. Se eu estava neste
clima, meus companheiros pareciam bem diferentes. Melchor estava radiante,
pronto a assumir o comando do carro e ir em direção a sua paixão, que é
treinar. Edson Júnior, dupla do seu irmão albino Luan, parecia animado e
determinado em participar daquela empreitada, e completando o time, vinha
Geovani, que não acreditei que conseguiria um alvará de sua esposa, para em um
sábado viajar com três homens solteiros para outra cidade, retornando somente
quase de madrugada, sinceramente, não apostei que ele conseguiria vir, ponto
para a sua esposa Dani, que acreditou em nós.
Estampado em meu rosto, estavam as
marcas daquela noite fatídica, aonde minha paz e sossego foram tirados, pelo
simples fato de ser pai de uma adolescente irresponsável. Mesmo assim, o clima de
empolgação e alegria acabou imperando, graças aos meus companheiros de viagem, nos
levando para a estrada novamente para viver mais uma Adventure.
De
Campo Grande a Dourados existem duas formas de ir, uma que pega a BR 163, e
outra que vai pela BR 060, que passa pelas cidades de Sidrolândia e Maracaju.
Escolhemos a segunda opção, visto que a estrada não tem pedágio, e parece menos
cheia que a 163, recurso já utilizado anteriormente quando retornamos de lá na
aventura pelo Sul do Estado.
A estrada foi fluindo em paz, em um dia de céu aberto com pouquíssimas nuvens no céu, que abria espaço para o rei Sol clarear o dia quase ao limite do filtro de nossa visão. Conforme nos afastávamos do nosso ponto de origem, a conversa foi tomando os rumos de prosa de viagem, me fazendo deixar um pouco para trás aquele evento, me conectando em definitivo com minha missão. Mesmo assim, vez ou outra voltavam meus sentimentos de revolta e decepção.
Percorri esta estrada por muito tempo, desde criança até a idade adulta. Olhando pela janela, é como se aquele ambiente já tão comum aos meus olhos, de certa forma tivesse um brilho diferente naquela manhã. Meu presente se conectava com meu passado, me carregando para onde tudo havia começado.
Mesmo com o posto de segunda maior
cidade, Dourados é dos lugares que morei, o mais pacato deles, sempre me
passando um clima de tranquilidade em suas ruas. Mesmo em seu horário de rush
comercial, não parece que Dourados se movimenta com tanta pressa. A economia local se impulsiona pela forte
influência do agro, além de sua segunda maior fonte de renda, as universidades.
Dourados se tornou uma cidade de clima universitário, agregando jovens de
várias regiões do país, na luta por um diploma nas tantas faculdades locais.
Tive meu tempo de universitário em Dourados também, mas desta vez me focarei em
lembranças mais antigas que tenho de lá.
Os distritos que passamos, nos quais
o comércio de especiarias locais lardeia a estrada que passa por eles, vão
anunciando que estamos próximos do destino. Estas pequenas localidades, que
subsistem por conta do fluxo da estrada, parece que pouco mudaram desde que me
entendo por gente. É possível no caminho se ver ao longe as comunidades
indígenas, que são as mais populosas do estado.
Dourados
é uma cidade de forte influência da cultura indígena dos Kaiowa. Mesmo assim,
quando criança o contato que tive com eles foi distanciado apenas. Lembro-me de
vê-los no portão de minha casa muitas vezes. Sempre que os via, estavam
maltrapilhos, na condição de pedintes, e perguntando: “Tem Pão Véio?”. Mais
velho, principalmente no período de acadêmico de ciências humanas, pude
compreender a penúria daquele povo, que via quando criança somente na visão de
mendicância, mas que carrega dentro de si a tradição ancestral nativa do povo
brasileiro.
É estranho pensar, que mesmo com tantos
indígenas em sua localidade, pouco vemos desta população no Jiu-Jitsu, um esporte
ainda bem distante da realidade que vivem, quer dizer, sobrevivem, dada toda
uma dinâmica sócio-histórica que os jogou nas condições precárias, situação
comum a maioria das comunidades indígenas espalhadas pelo estado. Após minhas
reflexões para com os indígenas, conseguimos avistar a entrada da cidade.
Volto
mais uma vez a minha terra natal, por mais voltas que dou, o destino parece me
carregar sempre para uma volta. Seguimos triunfantes, perfilando pela principal
avenida de Dourados, a Marcelino Pires. Passo pelo Shopping da cidade, que pode
até ser visto como modesto frente aos da capital, mas que sempre me
impressiona, pois quando criança, um Shopping naquela cidade pequena parecia um
sonho distante.
Conseguimos chegar em um tempo tranquilo de se organizar, algo que nem sempre acontece em nossas empreitadas. Com Melchor no volante, sempre vamos em segurança, e o mais rápido que o trecho permite. Tivemos tempo de almoçar sem pressa em um restaurante indicado por ele, o Esquina Carioca. Neste restaurante, a boa comida amortece um pouco dos meus sentidos raivosos, me deixando mais relaxado para a empreitada que viria a seguir. Depois do almoço, nos deslocamos para o local de destino, a academia Soul Fighters-MS.
No trajeto, passando por ruas sempre bem arborizadas, e obeservando o estilo arquitetônico das casas, algumas que me lembrava de desde criança ver, me arremeteram direto a minha infância naquele local. Por mais que o tempo passe, Dourados sempre me parece ser um lugar de calmaria, e naquele momento meu coração precisava de calma para executar a missão que viria a seguir, sem me contaminar pelo estado de insatisfação que estava.
Acompanho há algum tempo já o
desempenho dos atletas da Soul Fighters nas competições, principalmente na
etapa de Dourados do Estadual. Sempre vejo muita entrega e técnica deles nas
lutas, então, sabia que encontraria bons treinos nesta visita. Iria descobrir
que o que via nas competições era apenas uma parte dos integrantes da equipe.
Meu contato prévio com o Jiu-Jitsu
de Dourados foi na equipe liderada por Fernando Walevin, a Nine Nine, local em
que com toda certeza desejo visitar no futuro e relatar com detalhes minha
experiência por lá. Desta vez conheceria uma outra faceta do Jiu-Jitsu de minha
terra natal, estava curioso para conhecer a galera da Soul Fighters-MS.
Chegamos tranquilamente ao local da
academia, que fica em uma rua de pouco fluxo de carros, em um bairro que já
havia visitado no passado não tão antigo, me recordando da padaria que fica em
frente a academia. Em um início de tarde ensolarado, com a copa de grandes
arvores dando boa sombra, adentrei ao salão em que fica a academia Soul
Fighters-MS.
Já dentro dos domínios da academia, em
meu primeiro contato visual, vi que se encontram alguns integrantes da equipe
aguardando no tatame, já trajados de quimono. Sou recepcionado pelo líder do
time, aquele que intitulo de o “Imortal”, Pedro Júnior, o popular Pedrex. O
apelido que dei a ele advém da sua quase onipresença nas competições locais,
muito raro é não o ver lá na área de aquecimento, esperando paciente sua hora
de subir mais uma vez na arena de combate.
Pedrex é alguém que dificilmente não
conseguimos notar. Totalmente careca, ostenta uma volumosa barba avermelhada, e
com olhar profundo, conjunto que rapidamente captura a atenção de quem o vê. Se
ao longe sua feição arremete a um guerreiro viking, de perto ele aparenta a
calmaria de um monge budista, com sua fala calma, baixa, e pausando a cada
palavra dita.
Junto de Pedrex, temos seu braço
direito e frente da equipe, Irineu Bertani. Irineu é um jovem que transborda
sua paixão pelo Jiu-Jitsu, mantendo a mesma constância que seu professor e
amigo Pedrex nas competições. Não raro é vê-lo percorrendo as principais
academias de Campo Grande, buscando se aperfeiçoar como lutador. Apesar de seu físico avantajado, Irineu não
tem uma feição que intimide, seu rosto transparece sua simpatia, e seu sotaque
fortemente marcado pela origem paranaense em Pato Branco, lhe deixam ainda mais
amistoso. O que sobra de simpatia, transborda em ferocidade em sua performance
no tatame, a qual pude acompanhar de perto nas várias competições que o vi
lutando.
A Soul Fighters MS fica em um grande
salão entrecortado por duas salas. O Azul é a cor que dá tom nas paredes da
academia, que está decorada ao fundo com retratos dos fundadores do Jiu-Jitsu e
da liderança da franquia que carrega a marca, e de cartazes e cinturão da super
luta que Pedrex participou e venceu. As paredes possuem o diferencial de
estarem adornadas com motivos no estilo grafites de rua, decoração que me
chamou a atenção pela criatividade. Os dois tatames estão divididos por um
pequeno lance de degraus, dando uma visão parcial quando se está em um deles,
quase como se estivéssemos em duas salas separadas.
O aspecto arquitetônico da academia
me lembrou a academia da Gracie Barra Ponta Porã, em que o prédio apresenta a mesma
estrutura de um grande casarão mais antigo. Acho interessante este modelo,
quase como se a academia fosse uma grande casa, em que nos sentimos realmente
em um Jiu-Jitsu família.
Após a entrada, me apressei em ir me
trocar, utilizando um banheiro que fica bem ao fundo da academia. Neste
trajeto, acabo tendo uma oportunidade breve de já saudar os presentes do evento,
a totalidade composta por adultos. Quando entro e começo a me trocar, me veem a
mente ainda as lembranças da noite anterior.
Visto
meu kimono, tento entrar no personagem que sou no tatame, mas por um momento,
meus sentimentos parecem não deixarem este processo acontecer. Paro brevemente
para fazer uma concentração. Fecho meus olhos, junto minhas mãos em forma de
pirâmide no centro do meu peito, como fazia nos tempos de lutador competitivo,
buscando a energia e concentração daquele passado.
Neste
breve ritual, acabo deixando todos meus problemas para fora de mim, conforme me
imagino emanando energia, fazendo um movimento de mãos abrindo os lados do
triangulo formado, sintetizando um movimento de dispersão. Minha concentração
buscava focar exclusivamente naquele momento, naquela energia, com esperança
que ela cure meu estado de cólera, e traga paz a minha alma.
Quando volto ao tatame, parece que
algo em mim já mudou. Consigo sentir de perto a energia e alegria daqueles
alunos, os quais vão chegando cada vez mais. Um público entanto a Soul
Fighters-MS trouxe. Em vários níveis de faixa, a equipe é composta por mais
adultos e masters, majoritariamente masculino, com algumas mulheres no
conjunto. Um seminário só para adultos, me traz um público que tenho mais
costume de trabalhar.
Irineu e Pedrex me apresentam rapidamente aos alunos, em uma formação conosco a frente e os alunos perfilados em ordem de faixa. Não sou muito de me delongar no início, indo direto para o que eles vieram buscar, e eu pretendo entregar, o Jiu-Jitsu do estilo tartaruga.
Conforme as dinâmicas dos exercícios começam, vejo algo que sempre me chama a atenção nas visitas que faço. Normalmente, os faixas brancas se reúnem em pequenos grupos, os quais eu sempre adoro interagir. Deles normalmente partem muitas perguntas, questionamentos e até mesmo reflexões que são incríveis, outras nem tanto... brincadeira, sou fã dos faixas brancas!
Aos poucos vou me conectando com
aquela turma, que em cada exercício realmente se esforça pra extrair o máximo
de conhecimento contido. Neste seminário fui metralhado por uma série de
questionamentos, muitos dos quais me fizeram refletir bem sobre aquilo que estou
ensinando já a algum tempo. Não tem aula melhor do que uma assim.
Chegamos ao final das técnicas, indo
para o momento que posso experimentar na pele o Jiu-Jitsu do lugar. Era ainda
meados da tarde, teria assim um bom tempo para rolar com os vários integrantes
da equipe. Tão logo iniciou os rolas, Pedrex já veio ávido para ser um dos
primeiros treinos.
Pedrex lutando parece uma rocha, com
uma base firme, a qual mesmo com muita tentativa, parecia não se mover muito.
Tentei aplicar um triangulo, que parecia bem encaixado, mas foi prontamente
defendido por ele, que depois me confidenciou ter visto a técnica de defesa em
um vídeo na internet. Realmente ele havia aprendido aquela técnica bem. Tive
também a oportunidade de finalmente conhecer de perto o Jiu-Jitsu de Irineu.
Como previsto, a força física de Irineu é um dos pontos chave de sua fortaleza, conseguindo explodir em vários momentos, buscando sempre o avanço da luta. Sua juventude ainda lhe dá margem para muito crescimento, e a julgar pelo interesse e dedicação que tem, e o que pude sentir de sua luta, Irineu ainda irá fazer grandes lutas no cenário do Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul.
Um dado interessante sobre a Soul Fighters-MS, é que vários dos componentes fizeram parte de outras equipes locais, como exemplo de James Moraes, que me recordo de ser um dos professores radicados na cidade, e que hoje faz parte do time. Pelo visto, vários deles encontraram ali um ambiente que lhes propiciou continuar sua jornada pelo caminho da arte suave.
Cada estudante que comigo se testou,
tinha seu próprio estilo, alguns como Irineu, apresentavam a mesma base sólida
de Pedrex, outros mais leves, preferiam uma movimentação e velocidade intensa.
Eu e meus alunos tivemos excelentes treinos nesta tarde, findando depois de
quase três horas de início aquele treino, que caso não fossemos alertados,
teria durado até a noite.
Ao final, tinha praticamente
esquecido o percalço da noite anterior, estava totalmente relaxado e renovado,
tendo experimentado um Jiu-Jitsu que transborda em entusiasmo e paixão pela
arte. Mas havia uma última tarefa, esta que foi a mais difícil do seminário.
Irineu me pediu que contasse um
pouco sobre mim para os alunos. Se tem algo que tenho muita dificuldade, este algo
é falar de mim mesmo, ainda mais para uma plateia que parecia curiosa com que
tinha a dizer. Por mais que pareça desinibido em me comunicar, sou muito tímido
em falar sobre mim, talvez pela experiência prévia da universidade, aonde
conheci pessoas que buscavam em cada momento engrandecer a si mesmos de maneira
exagerada.
Mesmo com a timidez típica desta
atividade, me senti honrado em compartilhar minhas histórias com eles. Ao final
desta conversa, pude conhecer um pouco dos alunos, muitos deles que rapidamente
pude perceber serem pessoas interessantíssimas, mas que pela correria, não pude
aprofundar os conhecimentos deles sobre Jiu-Jitsu e outros assuntos.
Já era fim de tarde quando as
atividades se encerraram. Eu fui o último a deixar o tatame. Naquele dia
precisava do máximo de contato possível com o melhor remédio que encontrei na
vida para as angustias do cotidiano. Pra mim não existe dor na alma que um
tatame não dê conta de curar. Nossa missão havia se completado, e Irineu nos
convidou para um churrasco em sua casa, convite prontamente aceito por nós. Neste
pós-treino, teríamos a chance de conhecer ainda mais profundamente a galera da
Soul Fighters-MS.
Nos dirigimos para a casa de Irineu,
que dirige com orgulho seu fusquinha, que o faz parecer apertado dentro daquele
pequeno carro clássico, que foi o mais popular do século passado. Me sinto
satisfeito neste momento, tendo conseguido não ser influenciado pelo mal
momento pessoal, entregando para aqueles alunos o melhor que eu tinha, e
recebendo deles o melhor também.
Na casa de Irineu, o churrasco aos poucos vai sendo preparado. Durante este tempo de preparo, o pessoal da academia vai chegando aos poucos. Todos eles parecem muito integrados, demonstrando uma convivência saudável para além do âmbito da academia, com a maioria deles me confidenciando que em seu tempo livre também se mantém conectados com Jiu-Jitsu. Com mais tempo, Pedrex e Irineu me apresentaram um pouco de sua história.
O Jiu-Jitsu em Dourados chegou na segunda metade da década de mil novecentos e noventa. O professor pioneiro foi alguém que conheço bem, Júlio Cezar Campos, o popular Lelo, que neste tempo representava a equipe de Claudionor Cardoso. Lelo me confidenciou que iniciou o Jiu-Jitsu lá por livre e espontânea pressão de seu mestre, o colocando na história como pioneiro naquela cidade.
A partir desta semente inicial, ao
longo dos anos foi aparecendo mais gente envolvida com aquela arte marcial
desconhecida, que disputava popularidade com artes marciais de origem japonesa,
como Judô e Karatê, movimentadas pelos descendentes da cultura niponica, que
são uma grande comunidade local.
O irmão de Pedrex foi um professor reconhecido na comunidade douradense de Jiu-Jitsu, o popular Flávio Mala, que não tive oportunidade de conhecer nesta visita, mas me surpreendeu em saber que os dois são irmãos. Pensando nas diferenças de temperamento de Pedrex e Mala, pensei como eu e meu irmão também somos bem diferentes em temperamento um com o outro.
Irineu começou a treinar com os irmãos em 2012, e desde lá, ele e Pedrex
não desataram a parceria, fundando e desenvolvendo sua visão de Jiu-Jitsu
através da Soul Fighters-MS.
A esposa de Pedrex, Lia Quevedo,
também é faixa preta, e é muito ativa na academia. Ela me pareceu uma das
rochas estruturais do sucesso da Soul Fighters como equipe. Lia e Pedrex são um
casal alinhado e conectados com a missão de levar o Jiu-Jitsu para seus alunos,
apresentando uma sintonia, fortificada pelo poder da arte suave na relação
marido e esposa.
Conversando
com Lia, pude perceber a preocupação dela em manter a academia um ambiente
saudável para receber o público feminino. São atitudes de mulheres como ela,
que fazem o Jiu-Jitsu feminino crescer no estado, conseguindo receber e manter
cada mulher que busca a arte marcial, sem que algo além da luta atrapalhe este
trajeto.
Fiquei admirando o entrosamento e
harmonia que os membros da Soul Fighters-MS têm. Esta equipe conseguiu me
proporcionar uma experiencia enriquecedora, em um dia que talvez não fosse o
melhor do meu estado emocional, mas que a paixão daquelas pessoas pelo
Jiu-Jitsu fez-me esquecer por completo o que havia ocorrido.
Chega hora de se despedir e partir.
Nossos anfitriões nos desejam uma boa viagem, me despeço já com saudade daqueles
momentos com eles. Antes de partirmos, uma última parada em minhas memórias
infantis. Busco uma garrafa que minha mãe esquecera na casa de uma de suas
melhores amigas. Reconheço bem aquele caminho, nem precisando de Gps para
chegar. Chegando lá, converso um pouco com estes amigos já antigos de minha
família, me lembrando de quando era criança e corria brincando pela rua da casa
deles.
Me despeço de Dourados passando pelo
estádio da cidade, o Douradão. Quando criança, meu pai fazia o processo de
seleção de soldados naquele estádio. Costumava acompanha-lo no trabalho, e
passar a manhã jogando bola, eu e um amigo, em um campo que parecia uma
imensidão para duas crianças. Certa vez joguei futebol neste estádio também,
não fui um ás do futebol, mas também não dos piores, marcando um gol naquelas
redes, em um campeonato infantil, o que não vele muita coisa além da memória
afetiva.
Voltamos para a casa por dentre a
escuridão da noite na BR. Vamos sempre guiados pelo som das minhas famosas
playlists do Spotify. A Playlist “Anos 2000 Internacional” é a preferida do
motorista Melchor, contendo Linkin Park, Avril Lavigne , Creed, Nikelback, Blackyepeas,
Shakira(uma das minhas cantoras preferidas) e por aí vai... Nosso gosto é bem
eclético, alternamos os sucessos internacionais com a Playlist Sertanejo Antigo,
representados por gigantes como: Zézé e Luciano, Leandro e Leonardo, Gian e
Geovani, Edson e Hudson, Mato Grosso e Matias, e quaisquer dupla que queiram
lembrar desta época, está nesta playlist. Estes ritmos são os preferidos de
Edinho e o homônimo do parceiro de dupla de Gian. Com o som ativando as
memórias, consigo conhecer ainda melhor meus companheiros de empreitada, que
abrem seus corações nestes momentos.
Durante
a volta para casa, consigo refletir e pensar em possíveis soluções para
resolver o problema com minha filha. Precisei de um tempo para pensar nos
castigos e medidas a tomar, para que assim, ela compreendesse a gravidade do
ato que teve. Por mais duro que sejamos como pais nestes momentos, precisa
haver equilíbrio nas penas, mesmo sabendo que punir também é um ato de amor.
Com
o tempo o perdão veio, mas naquele momento ainda estava em processo de
maturação. Minha filha pode agradecer a galera da Soul Fighters-MS, que acalmou
meu espírito e fez abrandar um pouco o castigo que tinha para ela.
Chegando
finalmente em casa, meu sábado a noite parece já estar completo, me deixando
finalmente livre para ter um merecido descanso. Mas antes, já adentrando a
madrugada de domingo quase, tiro tempo para parabenizar meu irmão, para lhe
dizer o mais simples e sincero do meu coração, que ele está sempre comigo nas
melhores memórias que tenho.
Terminado
este Jiu-Jitsu Adventure, já havia mais um compromisso marcado, este mais perto
de casa, na equipe Santtana Jiu-Jitsu, em um dia especial para muita gente, o
12 de junho. Caso não saiba o significado deste dia, não deixe de ler o próximo
episódio do Jiu-Jitsu Adventure-MS, e descubra o que Jiu-Jitsu e o dia 12 de junho
tem em comum. Até a próxima!




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