Jiu-Jitsu Adventure MS EP.07 Jiu-Jitsu de Família: Gracie Barra Monte Castelo
Este Adventure vai contar
uma história que não tem uma aventura de muitas ações, viagens e fortes
emoções, mas que trará uma história de como o simples e seguro pode ser
fascinante também e nos arremeter para emoções distantes no passado. Esta
empreitada foi bem próxima de minha casa, em um terreno do qual conheço e
reconheço muito bem, mesmo assim, me fez enxergar através do conhecido,
elementos novos deste espaço. Sejam bem vindos a Gracie Barra Monte Castelo!
Marcar
um evento e passar na Gb Monte Castelo para dar aula, são uma rotina minha,
pelo menos em alguns momentos do ano quando possível. Tenho um carinho muito
grande por esta academia, que é uma extensão de mim mesmo como professor, visto
que seu líder é um dos meus alunos mais antigos, Welton Reis dos Santos, ou
simplesmente, Branco.
Começarei pelo professor da Gb Monte
Castelo, o qual vou me referir pelo seu apelido, que é praticamente seu nome.
Branco foi me apresentado através de um de meus melhores amigos, Thiago
Sabatel, os dois são primos. Quando Branco veio morar em Campo Grande, vindo do
Rio de Janeiro, Thiago o levou para treinar conosco.
Branco chegou em minha academia de
faixa azul, um azul já bem antigo, que havia treinado em uma academia de renome
no Rio. Quando o vi, isso lá no início dos anos 2010, Branco não me parecia em
nada um tipo de lutador de Jiu-Jitsu, um japonês corumbaense, de físico bem
comum e nada intimidador, qual futuramente alguns de seus alunos até mesmo o
apelidaram de Mestre Zacarias, mas não recomendo a eles o chamarem assim, as
consequências podem ser dolorosas. Mas naquele tempo já havia percebido que as
aparências enganam no Jiu-Jitsu, não desacreditando na capacidade dele antes de
vê-lo em ação.
Em seu primeiro treino, pude
perceber que Branco tinha um talento especial para a arte, dominando seu primo,
que já havia me dito que isso tinha acontecido no último encontro deles no
tatame. Sua técnica era muito apurada, ele conhecia conceitos e formas de lutar
que não condiziam com sua graduação, me deixando a impressão de que de alguma
forma ele seria muito útil como aluno.
Aproveitei esta última visita a GB
Monte Castelo para testar um seminário experimental, o qual passei bastante
tempo desenvolvendo, e ainda estou em fase de aperfeiçoamento. O Seminário é
uma iniciativa de contar a história do Jiu-Jitsu através dos registros
históricos, e levar para os alunos uma técnica do tempo de formação da arte
marcial que eles praticam. Achei que lá seria o local mais adequado, Branco e
seus alunos apreciam bastante conhecer a arte marcial de maneira mais profunda,
logo, me sentia confortável em levar este conteúdo para eles.
O evento ficou marcada para rolar em
uma noite de Quinta-Feira. Não consegui nenhum aluno que pudesse me acompanhar
desta vez, pareceu que todos estavam ocupados naquele momento, ou até mesmo
preferissem se guardar para uma missão fora de casa, visto que para eles a
Gracie Barra Monte Castelo é uma extensão de sua casa no Jiu-Jitsu.
Saí de casa sem muita pressa, mas
preocupado, pois neste seminário o aparato tecnológico é essencial, e se não
funcionar, estraga a experiencia. Vendo e revendo a logística, enchi o carro
com todo material de áudio e vídeo que precisaria, e com tempo sobrando, até
mesmo Amarelão, o senhor em atrasar seu companheiro, pareceu tranquilo em ficar
em casa, nem de presunto precisou pra aceitar não ir comigo.
No céu daquele início do período
noturno, o escuro da noite estava avermelhado com nuvens arroxeadas, que
brilhavam e cintilavam ao som distante dos raios em formação. Parecia que o
mundo desabaria a qualquer momento, mesmo assim não poderia cancelar o evento
por conta de meu medo de rodar em Campo Grande em dias de chuva. Meu medo é
justificável, tive meu momento traumático em uma dessas enchentes comuns na
cidade de Campo Grande. Este evento catastrófico me deu quinze minutinhos de
fama local, em um tempo pré redes sociais de amplo alcance.
O
ano era 2008, e quem neste fatídico dia ligasse a tv no noticiário local do
final de tarde, me veria na tela, sem camisa e molhado, explicando o que
acontecera comigo naquela enchente, aguardando a resolução se meu carro cairia
ou não no córrego da Via Park. Eu e meu irmão sobrevivemos a esta enchente, o
carro ficou avariado, mas sobreviveu, e aqueles segundos na tv, me renderam até
mesmo um romance passageiro.
No caminho a tensão pela chuva
aliviou, me deixando somente o stress do trânsito da Capital em seu horário de rush.
Nestes momentos em que estou imerso no caos urbano, me levam a voltar ao
passado, me lembrando de um tempo bem antes daquela academia de destino nascer.
Branco era um aluno muito bom de
treino, mas que para um lutador não parecia ser seguro apostar nele. As
valências físicas necessárias em uma competição são muito importantes, e
Branco, apesar de jovem, tinha um hall de lesões que encontrávamos em lutadores
bem mais velhos. De início ele não tinha nenhuma intenção de competir, dizendo que
não era seu objetivo, mas em determinado momento, Branco me pediu a chance de
se provar.
Olhei para ele, e com toda a
sinceridade que tinha, e ainda tenho, o desaconselhei a isto. Senti uma
tristeza no olhar dele com minha recusa em coloca-lo para lutar, mas em seguida
expliquei meu plano: “Você é muito mais útil aqui me ajudando a treinar a
galera, não gostaria de arriscar você se machucar em um campeonato”. Acho que
foram essas palavras que eu disse, se não foram exatamente estas, foi algo bem
próximo.
Daquela recusa em arriscar a
integridade física de maneira competitiva, fez nascer um dos melhores
professores que eu vi em atuação no tatame. Conforme ia galgando as faixas
maiores, aos poucos foi se desenvolvendo o Branco professor, que em muitos
momentos já assumia a turma ante os compromissos que iam surgindo para mim na
época.
A academia Gracie Barra Monte
Castelo fica em um galpão grande, em uma agitada avenida, a qual na maior parte
do dia tem muito movimento. Naquele início de noite, por acaso, o fluxo de
carros estava tranquilo, com o estacionamento de bom tamanho, livre para
escolher minha vaga.
Se o estacionamento estava livre, lá
dentro parecia fervilhar de gente, não dos alunos que fui ensinar, mas de uma
das maiores especializações da escola que Branco possuí, as crianças. Da janela
do carro vi um homem parado na grande janela que dá visão do interior da
academia, parecendo ser pai de algum aluno ou aluna. Aquele homem não me
parecia estranho, me recordava dele, mas não sabia de onde. Uma coisa eu tinha
certeza, ele não havia sido meu aluno, nunca esqueço de um aluno, mesmo assim,
tinha a impressão de que no passado tínhamos tido algum contato.
O cumprimentei como se o conhecesse,
mesmo não me recordando. Ao adentrar o hall da academia, que está sempre
iluminada por fortes luzes brancas, nos bancos somente haviam os pais e
responsáveis das muitas crianças que fervilhavam no tatame, alguns eu conhecia,
pois são frequentadores da academia também, como Guilherme Zalafão, faixa preta
que é um dos pilares da equipe, mas que naquele dia fora apenas acompanhar seu
filho, que desde muito novinho frequenta aquele tatame.
Lá
no meio do tatame azul, que em seu entorno tem suas paredes ornamentadas com
todo o aparato exigido por uma escola Gracie Barra, está Branco, ostentando sua
característica calma e tranquilidade, mesmo rodeado por mais de uma dezena de
crianças exigentes da atenção do mestre.
Naquele momento em que vi Branco a
frente de sua turma, me recordei que havia lhe dado a primeira chance de estar
a frente de uma academia. O ano era 2013, nesta época estava recém formado em
história, e buscando uma chance como arqueólogo. Para minha sorte, consegui ser
contratado para um projeto de arqueologia na UFGD, meu primeiro trabalho como
arqueólogo, mas que não deixaria espaço para manter dando aula na minha equipe,
e na academia que recém tinha assumido as aulas, a Gracie Barra Pantanal, que ficava,
e ainda fica, na academia Level One.
Tendo que passar estas duas
responsabilidades para alguém, minhas escolhas hoje me parecem ter sido as
melhores, e olha que em minha trajetória são poucas escolhas que posso dizer
que foram sábias, ainda mais nesta época. Para meu lugar na equipe que
liderava, escolhi Gregory Ortega, professor que hoje é líder da Gracie Barra
Centro, e para meu lugar na Gracie Barra Pantanal, o escolhido foi Branco.
Desta primeira oportunidade, digamos
profissional, Branco conseguiu em pouco tempo demonstrar seu valor como
professor, permanecendo um bom tempo como o professor daquela academia. Até que
em 2015, Branco resolveu se jogar e arriscar montar sua própria academia, que
seria dentro de uma recém inaugurada academia de musculação, a Akademia do
Corpo.
Logo que fui recepcionado por Branco,
já o indaguei sobre o rapaz parado na janela, dizendo que tinha certeza que o
conhecia. Branco me lembrou quem ele era: “ele é o pai da Julinha, lembra?” A
conexão que ele me passou ativou na memória de onde o conhecia, a filha dela
havia sido uma das poucas crianças que havia dado aula em minha vida.
Olhei para o tatame tentando
reconhecer aquela criança, mas seria impossível, haviam se passado mais ou menos
oito anos desde a última vez que havia a visto, não haveria condições de
reconhece-la em meio a tantas crianças. Branco a chamou, e quando vi aquela
pré-adolescente vindo, me recordei de elementos do seu rosto, mas que havia
visto na face de uma pequena garotinha, que na época devia ter uns quatro anos
mais ou menos.
A menina chegou até mim na beira do
tatame, seu olhar me deixou com a impressão de que realmente ela se
lembrava de mim. Julinha me cumprimentou com certa timidez, mas que me transpareceu
alegria e respeito. Fiquei feliz com aquele encontro, dei exatamente seis meses
de aula infantil em minha vida, e das poucas crianças que treinei naquele
período, uma havia em algum momento se reconectado com o Jiu-Jitsu, ainda mais
em uma academia da qual tinha certeza que teria lhe daria um suporte muito
melhor do que eu havia dado quase uma década antes.
A aula infantil rolava a todo vapor,
e do banco da academia, que dá visão central do tatame, assistia aos jovens
talentos se digladiando. Toda vez que vejo os alunos de Branco, fico
impressionado com a capacidade que ele tem de treinar aquelas crianças, as
fazer desenvolver dentro da luta, e mantê-las motivadas fazendo um esporte,
desafio colossal em um mundo que a tecnologia é muito mais atrativa de se
viver.
Aquela academia surgiu de um sonho
de seu professor de viver da arte marcial que praticava. Branco se formou em
administração e seu primeiro negócio foi no empreendimento de farmácia. Para
sorte do Jiu-Jitsu e de seus muitos alunos, o empreendimento inicial de Branco
não logrou êxito, mas não por sua competência de administrador, e sim pela
falta de segurança de um empreendimento do tipo, o fazendo ser vítima de
repetidos assaltos.
Não há alguém que eu conheça que
acredite tanto no projeto de Jiu-Jitsu da franquia Gracie Barra quanto Branco. Ele
é um dos alicerces que mantém viva minha
conexão com a cultura proposta pela marca. Se existe alguém que segue muito a
risca as diretrizes da empresa é ele, ofertando aos seus alunos aquilo que a
franquia tem de melhor.
Quando Branco foi fazer seu pedido
de franquia, logo após montar sua primeira academia, pairava no ar uma pequena
guerra entre as franquias Gracie Barra na cidade. De um lado estávamos nós, que
na época éramos Gracie Barra Pantanal, e do outro, o pessoal da Gracie Barra
Campo Grande, liderados por Abdala, um descendente da comunidade árabe, e que
na época era nosso nêmesis.
Nestes primórdios, tempo em que o Jiu-Jitsu de modelo empresarial engatinhava, com algumas academias já migrando para este modelo, ainda imperava a cultura do Old School. Os imbróglios nesta época eram resolvido na diplomacia mais troglodita possível, com homens em pleno século vinte um, negociando a paz como cavaleiros do medievo, brandindo suas espadas e evocando sua glória em batalha como argumento.
A briga toda havia iniciado por infantilidade de nossa parte. Quando digo nós, me refiro aos líderes da equipe na época, eu, Miguel Contis e Cesar Mihahira “Japa”, acreditávamos seremos mais merecedores de representar a equipe Gracie Barra por conta dos resultados competitivos. Puxamos a briga certos de sermos os donos da razão. O imbróglio cresceu a tal ponto, que por anos existiu uma divisão clara entre nós e eles, mas que os dois lados usavam o mesmo uniforme e estandarte.
Esta guerra teria continuado, caso
não fosse o pedido de Branco abrir sua franquia negado por conta da necessidade
de aprovação de Abdala, visto que a regra de distancia das franquias exigia o
aval dele. No momento que vi que uma academia com potencial enorme poderia
morrer em seu nascedouro, não por culpa de meu aluno, mas por uma briga minha, engoli
meu orgulho e decidi procurar Abdala, e negociar um acordo de paz.
Encontrei Abdala em uma competição,
juntei coragem e fui em sua direção para fazer um pedido, o qual imaginei que
seria negado, ou se aceito, seria com várias condições. Posso dizer que aquele
ato foi um dos atos que me libertou da antiga mentalidade do Jiu-Jitsu, me
tirou de um pedestal que me achava dono da razão por conta de ser um lutador de
resultados. Abdala se mostrou muito superior ao me receber e aceitar de pronto
minha proposta, me demonstrando que muitas das convicções que tinha a respeito
dele, eram baseadas em achismo e desconhecimento.
Por Branco consegui me libertar de
uma escravidão mental do ego e da vaidade. Aquela foi uma das muitas lições que
aprendi com ele, fazendo este aluno por vezes, deixar ser meu aluno, para se tornar,
meu professor.
Com
a paz da primeira guerra da interna da Gracie Barra, ocorreu outra que
dissolveu a Gracie Barra Pantanal, mas esta deixo para contar outro dia, A
academia Gracie Barra Monte Castelo começou a funcionar. Seu espaço inicial foi
em um mezanino (na época não fazia ideia do que era um mezanino, descobrindo
ser quando vi o tatame montado) no segundo andar da Akademia do Corpo. A
primeira etapa da Gracie Barra Monte Castelo foi a possibilidade de Branco
fazer as coisas conforme sua visão, e nos anos seguintes o projeto só cresceu.
Os alunos começaram a chegar para o
seminário, rostos dos quais há anos vejo frequentemente naquele tatame, outros
rostos novos, mas que já se iluminam ante a magia que o Jiu-Jitsu proporciona.
Um dos detalhes que sempre me chamam a atenção sobre a Gracie Barra Monte
Castelo, é a capacidade de agregar famílias em seus quadros.
Boa parte do público frequentador da
Gracie Barra Monte Castelo é composto por famílias inteiras, que englobaram na
rotina de seus lares o Jiu-Jitsu. Pais, mães e filhos se sentem confortáveis em
estarem na academia fazendo uma atividade em família. Sempre que vou na
academia liderada por Branco, me impressiono com sua capacidade de receber tão
bem aquelas pessoas, proporcionando-lhes um ambiente saudável e alegre, que
leva para uma família inteira os benefícios da arte suave.
Depois de alguns anos na Akademia do
Corpo, as ideias de Branco entraram em
conflito com as ideias dos donos da academia. Foi neste momento que decidiu
abrir uma academia voltada exclusivamente para o Jiu-Jitsu. O ideal de Branco
nesta nova academia era ambicioso, primeiro transformar um galpão bem avariado
em uma academia de padrão Gracie Barra, depois conquistar um público que
sustentasse as contas do salão.
Aprendi que podemos ser faixa preta
em muitos ramos de nossa vida. Uma faixa preta que Branco possuí é na
administração. Com um conhecimento prático e teórico, Branco é a engrenagem que
faz as academias Gracie Barra Centro e Monte Castelo funcionar. Após me mudar
para Singapura, Branco assumiu meu lugar na sociedade da Gracie Barra Centro,
me substituindo de maneira eficaz dentro do tatame, e de maneira muito mais
profícua fora dele, na administração dos negócios. Perto dele sou uma reles
faixa branca neste assunto de administrar um negócio.
O seminário começa com pouco atraso.
Me sinto um pouco nervoso no início, em partes por ter testado pouco os
recursos daquela aula, além de me confundir com a tecnologia que demonstra boa
parte do conteúdo. Outro ponto que me preocupava, era o de não prever muito a
reação do meu público, havia feito poucos testes antes.
Na imagem projetada na parede, surgem desenhos
de samurais, recriações de batalhas de armadura, e me ponho a dissertar
teoricamente sobre a história do Jiu-Jitsu. Conforme ia perguntando, mais
alunos interagiam comigo, fazendo passar o nervosismo inicial, me dando
confiança em avançar no tema. Aos poucos a interação com o público se torna
mais intensa, sendo bombardeado por perguntas e questionamentos a respeito do
meu conteúdo.
Misturar
história, arqueologia e Jiu-Jitsu, ainda é um esforço inédito, com poucas
pessoas ainda abertas a possibilidade, mas com os alunos de Branco, encontrei
um público ávido e ativo em participar da minha ideia maluca.
Um dos alunos que mais me auxiliou
neste seminário me traz lembranças ainda mais passadas do que as tantas que
contei ao longo do texto, seu nome é Rodrigo Yokoo. Rodrigo é um descendente de
japonês, que fez estágio comigo na universidade que me formei em história, isso
lá no início da década de 2010. Ele fez parte da minha primeira turma de
alunos, ainda no tatame montado na garagem do meu pai, antes mesmo de conhecer
o atual professor dele. Rodrigo inclusive conseguiu entender melhor a técnica
contida num grafismo do que eu, corrigindo uma das técnicas do seminário.
Neste seminário a escuridão e a
claridade se revezam, com o projetor mostrando imagens de um passado distante
mais de um século já, e na claridade, o que foi até ruim para os olhos, visto a
intensidade da luz do salão, retornar ao presente e recriar aquelas técnicas a
luz do conhecimento atual.
Passado, presente e futuro são
misturados naquela noite. Aquele seminário parece extremamente adequado, quando
penso no hall de tantas lembranças que tenho de meu contato com aquelas pessoas
e espaço. Um último flashback, prometo que será o último.
Se hoje vivo o Jiu-Jitsu da maneira
que vivo, em partes Branco tem uma grande influência. Quando retornei ao Brasil
em 2019, Branco foi um dos primeiros a me acolher neste retorno, me dando a
oportunidade de fazer um seminário em sua academia, e não ficou só nisso.
Certo
dia, ele e meus outros dois alunos que estavam a frente da academia, Hiago e
Gregory, me chamaram para uma conversa. Por anos havia guiado aqueles rapazes,
que agora já eram adultos no Jiu-Jitsu, tendo cada um seu respectivo espaço
profissional. Branco em tom paternal me indagou “O que você pretende fazer
agora?”
Aquela simples pergunta parecia algo
bem concreto em minha mente, fazendo com que minha resposta viesse com um tom
bem convicto “lutar, dar aula, e quem sabe fazer algumas lutas de MMA”. Branco
escutou todos meus planos e me sugeriu “Ta na hora de você cuidar de você, o
que você espera conquistar a mais do que já conquistou?”.
Naquele momento me pareceu até
petulante a sugestão de Branco, pois eu tinha convicção de saber exatamente os
passos que estava dando. Ledo engano meu, mais uma vez recebi uma lição advinda
de meu aluno. Aquela indagação me fez descer do pedestal do ego e da vaidade, o
qual meus passos naquele tempo, buscavam alimentar meu vício por fazer estes
dois sentimentos crescerem.
Digamos que a partir daquela
indagação, muitas coisas na minha vida tomaram outros rumos, rumos dos quais me
vejo muito mais feliz de ter tomado. Em alguns momentos fui professor de Branco,
e o guiei para onde foi melhor, e ele retribuiu esta guia da melhor maneira
possível, me guiando quando havia perdido a direção de onde estava indo.
O seminário foi um sucesso para mim,
pude compartilhar com Branco e seus alunos aquilo que de melhor havia estudado
sobre Jiu-Jitsu nos últimos anos. Terminando a aula muito satisfeito com o
resultado. Depois do seminário, fui fazer algo que não pode me faltar, dar um
treino com o máximo de alunos possível.
Em seus alunos consigo sentir parte
do meu próprio Jiu-Jitsu, com o tempero da técnica que Branco passa para eles.
Como professor e praticante, Branco sempre primou pela técnica bem feita e
autonomia dos alunos, os deixando desenvolverem seu Jiu-Jitsu a sua maneira,
formando muitos praticantes com diferentes predileções. Quem for ao tatame da
Gracie Barra Monte Castelo, sempre terá um treino com muita técnica e
disposição dos alunos de lá.
A aula havia se estendido um pouco
além do previsto. Fiz o possível, agregando séculos de história em pouco mais
de uma hora e meia, mesmo assim, faltou tempo para o tanto de história que esta
arte marcial tem. Sobraram alguns alunos mais fanáticos, que resistiram ao
cansaço e ao horário já avançando noite a dentro. Fiquei lá treinando com os
poucos alunos restantes, alcançando o momento de ser tão tarde, que como gosto
de dizer, o bar tem de fechar.
Aquela aventura não foi tão
cansativa do ponto de vista físico, não me levou a percorrer nenhum caminho
desconhecido, mas me levou por caminhos ainda mais distantes. Percorri por léguas
a fio de minhas memórias, de tempos que há muito havia passado, mas que
deixaram marcas significativas na minha trajetória.
Difícil resumir em algumas páginas o
sentimento que tenho por esta extensão do meu próprio trabalho. Diria em
resumo, que poucas escolhas do meu passado ainda ressoam positivas atualmente,
poucas escolhas posso realmente olhar e cravar que foram corretas, mas uma
delas eu tenho certeza, apostar em Branco foi um dos grandes acertos de minha vida.
A Gracie Barra Monte Castelo é uma
academia da família, uma academia que seu guia sempre primou pela construção de
um ambiente agregador, um ambiente que não é tão comum no Jiu-Jitsu, um
ambiente totalmente familiar. Branco e seus alunos são uma extensão de minha
família no Jiu-Jitsu, uma família da qual me orgulho demais, me sentindo pleno cada
vez que sou apresentado lá como professor de seu líder.
Voltei para a casa, ainda refletindo
a experiencia daquela noite, pensando no que foi bom, e no que precisa ser
melhorado naquele seminário. Mesmo tendo sido apenas poucas horas de ausência
de meu lar, havia viajado mais de uma década em minhas lembranças, voltando
para minha casa diferente de como havia saído. Naquela noite pude me conhecer e
reconhecer melhor, mais uma lição que Branco e a Gracie Barra Monte Castelo
havia me proporcionado, só me restando dizer, muito obrigado por tudo!


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