Jiu-Jitsu Adventure MS EP.05 Jiu-Jitsu de Sidrolândia C.T Yuri Dutra- O Encantamento pela Arte



Este episódio do Adventure será um pouco diferente. Normalmente eu descrevo eventos ocorridos durante uma empreitada, mas com Sidrolândia não farei isso, porque lá nasceu o conceito do Jiu-Jitsu Adventure-MS em várias empreitadas. Nesta crônica, além de conhecermos o Jiu-Jitsu de Sidrolândia, vamos entrar no início desta aventura em percorrer o Jiu-Jitsu do Mato Grosso do Sul.

          O ano em que vamos começar é 2019, lá vou eu em mais um flashback da minha vida... Tinha recém chegado de Singapura, país em que trabalhei entre os anos de 2017 e 2019. Meus planos na volta eram simples, aproveitar tudo que o Brasil tinha de bom, foram mais de dois anos de privações das coisas mais simples que temos aqui, e abrir uma academia, para assim dar prosseguimento de onde parei antes de me aventurar pela Ásia.

          Abri minha academia em pouco mais de quatro meses depois da minha chegada. Um dos meus primeiros alunos foi um faixa marrom vindo de outra escola. Não me lembro se ele se apresentou por seu nome de batismo, só sei que já o conheci instantaneamente como Bodão, que se chama Igor, informação que poucos companheiros de academia sabem.

          Bodão vinha de uma pequena cidade próxima de Campo Grande, Sidrolândia, a qual conhecia já. Bodão é um dos alunos que mais me ensinaram a ser professor, tendo em vista suas dificuldades iniciais, pois faltavam-lhe muitos recursos técnicos que justificassem sua graduação.

         Não me estendendo muito e voltando para a aventura, Bodão dia a dia buscou completar suas debilidades técnicas, se superou em vários quesitos e desde 2019 faz parte ativa da minha vida como meu aluno e um grande amigo. Bodão está no Jiu-Jitsu há muito tempo, eu o apelidei de “Indestrutível”, nada, nem ninguém conseguem pará-lo, em quatro anos de contato, em raros momentos vi ele faltar treino por conta de lesão.



           Este caráter de sobrevivência tem uma raiz mais profunda. Em seus primeiros passos no Jiu-Jitsu, Bodão me contou que seu treino se baseava grande parte em sobreviver a um treino duro, em que seus companheiros de tatame lutavam no cem por cento o tempo todo.

 O Jiu-Jitsu que Bodão conhecia primava pela força, determinação e combate real. Em muitos pequenos centros o Jiu-Jitsu nasce nesta sistemática, em minhas andanças pelo interior ouvi histórias semelhantes. Este modelo foi o que moldou as características de combate de Bodão, que precisava de mais recursos para avançar em seu conhecimento.

           Em 2021, dois anos após conhecer Bodão, ele me indicou que um amigo dele me procuraria. Este amigo realmente me procurou, seu nome é Yuri Dutra. Em meu primeiro contato com ele, me pareceu que não seria possível treina-lo, visto que ele queria vir duas vezes por semana treinar comigo em Campo Grande. Lhe passei o valor que cobrava, mas achava que com o tempo isso pesaria para ele, pois além de pagar a mensalidade, teria de ainda vir duas vezes por semana á Campo Grande treinar comigo.

          Mesmo com os obstáculos, Yuri gostou da ideia, e se propôs a pagar o preço por aprender comigo. O projeto que ele tinha no Jiu-Jitsu eram amplos, primeiro ponto era o de melhorar seu Jiu-Jitsu, que precisava de mais elementos, além disso, buscar suporte técnico em seu início como professor, função recentemente iniciada em um projeto social. Muito feliz por termos um acordo, Yuri rindo me anunciou “Você vai ter um trabalho difícil professor...”.

  Yuri já tem uma idade considerável, ele faz parte do grupo dos meus alunos que carinhosamente chamo de meus “Velhinhos”. Algumas de suas características me ganharam tão logo comecei a conhece-lo melhor. Yuri é um sujeito simples, advindo de uma cultura interiorana, que se baseia em educação, respeito e humildade, o que o faz insistir em me chamar de “senhor”, mesmo eu sendo mais novo que ele. Ele divide seu tempo entre sua família, seu trabalho como torneiro mecânico, sendo um ás em seu ofício, e em seu tempo livre, ocupa quase que todo com Jiu-Jitsu, vivendo em uma jornada de muitos turnos.

            Primeiro começamos com as aulas em Campo Grande. Religiosamente, sexta e sábado Yuri estava lá na academia. De início ele realmente tinha muitas dificuldades, tal como Bodão, visto que os dois compartilharam a mesma sistemática de treinamento prévio. Yuri tinha algumas debilidades técnicas, que compensava com elementos importantes da luta, tal como um bom instinto de combate, colocando seu máximo em cada treino.



              Com o tempo, o projeto social dele acabou crescendo, se tornando uma academia mesmo, a qual angariou em pouco tempo antigos companheiros de treino dos tempos que seu primeiro professor dava aulas na cidade. Com este crescimento, sexta a noite não era mais possível de ele vir a Campo Grande, daí veio o convite para eu ir até lá em Sidrolândia dar uma aula.

            Me animei com a ideia, naquele tempo, em que a Covid comia solta, e vivíamos em uma reclusão e liberdade provisórios, fazer uma viagem de Jiu-Jitsu dava um animo a mais para superar o momento. Convoquei Bodão, um dos embaixadores de Sidrolândia, e um aluno meu que não vive mais entre nós (não morreu, mas foi expulso para nunca mais voltar). Peguei o carro da minha mãe (que uso constantemente, e é o veículo das minhas aventuras diversas), e num fim de tarde de sexta-feira fui até Sidrolândia.

             De Campo Grande a Sidrolândia o caminho é curto, cerca de 80 km, levando mais ou menos uma hora de viagem (se for eu dirigindo dá mais de uma hora, se for meu aluno Melchor, caminhoneiro experiente neste trecho, cerca de quarenta minutos bastam). Este curto caminho é um atrativo de muitos campo-grandenses a trabalhar em Sidrolândia, e de sidrolandenses a estudar em Campo Grande, logo, nos fins de tarde, temos uma hora do rush na BR que liga as duas cidades.

             O fluxo da Br pode ser frenético e por vezes perigoso. O trecho já foi palco de muitos acidentes fatais, não raro temos notícias destes tristes eventos no noticiário local. Sempre procuramos respeitar o perigo do trecho, mas não o temer, levando a viagem como algo natural, divertido e alegre.

          Ir de Campo Grande a Sidrolândia nos leva a passar por latifúndios e pequenas propriedades rurais, em meio ao que resta do bioma do cerrado. O por do sol no fim de tarde dá os tons da paisagem que avistamos, mesmo sendo um cartão postal já comum aos viventes locais, nunca deixa de me surpreender o quão lindo o laranja do poente pode ser aqui em nossa terra.

           Sidrolândia é uma pequena cidade, e que assim como várias do estado, tem sua economia baseada no agro, além da indústria alimentícia, sendo possível ver a maior fábrica já na entrada da cidade. Já conhecia Sidrolândia antes de conhecer Yuri e Bodão, um grande amigo dos tempos de faculdade reside lá, desta forma já havia visitado a cidade em um momento não tão distante.

            A pequena Sidrolândia tem um ritmo mais acelerado, talvez por conta da proximidade com Campo Grande, mas ainda apresenta elementos da calmaria interiorana. Nos últimos anos tem já padecido de problemas semelhantes da capital, devido ao desenvolvimento que a cidade tem tido. Posso dizer que em dois anos que passo por lá, percebo que as coisas já parecem ter mudado. O progresso é uma máquina que não costuma parar, trazendo prosperidade e mazelas lado a lado.

              Chegamos à academia de Yuri Dutra, que da entrada da cidade até ela, não se gastam-se mais de dez minutos. A academia fica em um pequeno salão, em uma rua calma e com pouca movimentação. Um dado que atesta o desenvolvimento econômico local, é que os alugueis em Sidrolândia tem subido muito nos últimos anos, o que inviabiliza ainda alugar um salão maior. Mesmo em meio a este rolo compressor do desenvolvimento, a academia divide vizinhança com algumas casas, aonde é possível ver a calma dos moradores de cidade interioranas no viver de sua rotina.

             Quando entro no salão, que tem um tatame de lona azul, dentro de um espaço reduzido, mas que aproveitou cada centímetro que aquele salão possuía, vejo na parede o logo com meu nome. É estranho para mim, nunca fui afeito a usar meu nome como equipe, sempre o deixando em segundo plano, mas com Yuri, pareci perder um pouco deste receio, me sentindo muito feliz de que de alguma forma, meu nome poder estar o ajudando em sua empreitada.

          Yuri está quase sempre sorrindo e rindo, no tatame então, a alegria é uma constante e contagiante. Quando cheguei em sua academia, fui aos poucos conhecendo seus alunos, que por conta dos variados empregos que possuem, a maioria em serviços ligados ao comércio e indústria da cidade, vão chegando em diferentes horários, enchendo aos poucos a academia.

               Inicialmente, quase todos os alunos se mostravam bem tímidos, um ou outro que parecia já ser afeito a conhecer gente nova na academia. Entre seus alunos temos alguns índios da etnia Terena, que é uma população numerosa na cidade, tendo suas aldeias próximas ao centro urbano. O Jiu-Jitsu promove este encontro cultural interessante.

            Quando dou minhas aulas em Sidrolândia, ou mesmo levo meus alunos para um treino livre, sinto nos alunos de Yuri toda a dedicação e atenção máxima em aprender. Algo que sempre aprecio em Yuri, e que ele leva como cultura de sua academia, é o encantamento por estar aprendendo a arte. A cada técnica ensinada, parece que deram um brinquedo novo a ele, em cada movimento sútil de técnica, Yuri demonstra todo o encantamento de um apaixonado pela arte marcial que escolheu seguir.

           Ao lado de Yuri, temos sua esposa Jaqueline, que é a administradora e incentivadora da academia. Ela tem a paciência e exigência naquilo que é necessário para a manutenção do espaço, ajudando ao máximo muitos dos alunos que precisam de algum auxílio em diversas áreas, os fazendo parte de sua própria família.

              Naquele pequeno tatame, foi que nasceu o Jiu-Jitsu Adventure MS, mas que por muito tempo não enxerguei como sendo isto. Se tornou uma tradição entre meus alunos, encher o carro da minha mãe, atravessar para Sidrolândia, ter um encontro rápido com amigos que vivem na cidade, dar uma aula ou treino na academia de Yuri, e voltar pra casa. O ritual se completa por vezes com um jantar, desvendando a gastronomia local, que é sempre muito boa, ou passar na padaria pra comer um salgado,  comprar um Mentos de fruta e um Gatorade (combo de viagem meu) antes retornar para Campo Grande.

             Nestes mais de dois anos, muitas foram as aventuras em Sidrolândia, fazendo deste intercâmbio com meus alunos de Campo Grande, um aprendizado para ambos os lados. Sempre advirto meus alunos novatos no intercâmbio, que lá o treino é duro, os alunos de lá veem sempre com muita vontade, sem medo e arriscando tudo em cada treino.

 Outro tipo de aventura que gosto de fazer por lá é levar amigos para dar seminários. Já levei Breno Carioca ensinando sua arte de meia guarda, Luan Polaco com sua magia de derrubar o adversário. e meu irmão Marcello com suas guilhotinas mortais. Sinto que lá, Yuri e seus alunos valorizam ao máximo o conhecimento que estes magos em suas especialidades têm para passar. Quando treino com os alunos, volta e meia eles arriscam alguma técnica aprendida nestes seminários que eu e Yuri buscamos levar para eles, fazendo valer todo o esforço de promover estes eventos.



           Yuri e Bodão são dois alunos que tenho muito orgulho. Tiveram uma jornada que por vezes se complicou, mas que o amor que eles têm pela arte marcial, os fizeram transpor qualquer barreira que os impedissem de viver seus sonhos. Os dois tem em suas vidas uma experiencia quase religiosa com esta arte marcial, e lutam por conseguir ter a oportunidade de vive-la diariamente.

          Fazer este bate e volta em Sidrolândia, fez nascer o espírito de se aventurar no interior. A experiencia de estar em um tatame com tantos alunos ávidos por conhecimento, e entusiasmados com o Jiu-Jitsu, sempre recompensa o cansaço da viagem bate e volta. Outra característica que me encanta treinar com eles, é a total falta de medo em me atacar.

            Normal de quem treina com algum lutador mais graduado é o cuidado, receio e por vezes até temor. Em Sidrolândia não encontramos isto, desde o primeiro treino que fiz com eles, todos que comigo treinam, não demonstram nenhuma destas características. Eles me atacam acreditando serem capazes me superar, algo que seria até temerário, mas que é o primeiro passo deles na jornada em um dia me superar.  Este espírito aguerrido de luta eu aprecio, apoio e incentivo.

            Yuri segue dia a dia atrás de conhecimento, não só para ele, tudo o que aprende é quase que automaticamente servido aos seus alunos. Cada aluno dele é como um filho, o qual ele tem de zelar e cuidar, não dispensando esforços em ajuda-los a alcançar seus objetivos.

  Como Professor dele, até hoje espero o trabalho duro que ele me anunciou, pois até o momento foi muito fácil ensina-lo. Sua qualidade como aluno é tremenda, demonstrando habilidades básicas que considero de um bom aluno: querer aprender, acreditar no que está aprendendo, aplicar e replicar tudo o que aprende.

           Quem passar por Sidrolândia, pode ter a certeza de encontrar um Jiu-Jitsu compromissado, sério, duro, e que está sempre com a mente aberta para aprender com quem quer que esteja naquele tatame.

           Disse aos seus alunos o sentimento que sinto por eles por terem Yuri como professor: “Que sorte tem vocês de tê-lo como seu professor!”. Espero que o Jiu-Jitsu de Sidrolândia por muito tempo tenha este operário da arte em trabalho, edificando o Jiu-Jitsu neste pequeno centro urbano, em que a calma ainda impera, mas assiste ao caos urbano do desenvolvimento pouco a pouco se aproximando.

          Os Adventures em Sidrolândia continuam, e desejo que persistam por muito mais anos. Só um último aviso a quem por ventura for a Sidrolândia treinar, só evitem a época de colheita, é um tempo em que a cidade está toda compromissada com a fonte maior da economia local, provavelmente o tatame estará mais vazio.

Fora o período de colheita, o tatame está sempre se enchendo de pessoas com um encantamento diferenciado pela arte do Jiu-Jitsu.





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