Jiu-Jitsu Adventure MS: Ep. Extra Entre Alegria e Saudade, a Despedida do Gigante

       


        Vou dar uma pequena pausa na descrição da aventura pelo Sul do estado, para avançar um pouco para mais próximo ao tempo presente que me encontro no momento que escrevo este texto. Voltaremos após este episódio não numerado às peripécias das aventuras. Desta vez o Jiu-Jitsu Adventure me trouxe a retomar ao início desta jornada, no reencontro com um dos personagens que conheci lá no primeiro episódio, nas Moreninhas. Vou descrever como foi meu reencontro no tatame com Rodrigo Freitas, o popular Gigante.

       Algumas semanas antes deste reencontro, Niltinho, um dos personagens lá daquele episódio primal, me mandou uma mensagem com um pedido “Dila, o Giga ta indo lá pra gringa, tem como você escrever umas palavras daquelas poderosas pra gente ler pra ele lá?”. Confesso que foi a primeira vez que recebi este pedido, nunca pensei em escrever pra alguém um texto a pedido.

       Comecei o texto, e foi até fácil. Naquele encontro que tive, além de tê-lo entrevistado no Podcast, fez com que o conhecesse mais profundamente. Com este conhecimento que tinha do Giga, o texto fluiu para o papel com certa facilidade.

       Mandei o texto para o Niltinho, e recebi como resposta “Quase chorei aqui lendo, acho que não vou conseguir falar lá no dia”. Imaginei que fosse uma reação inicial ao texto, mas que Niltinho iria dar conta de declama-lo para o amigo.

        Até que recebo uma mensagem de Niltinho, “Dila, você não vai lá e lê no dia? Tem umas palavras aí que eu nem conheço ahahahah”. Mais uma vez seria uma atividade inédita, ler um texto meu em público. Uma baita responsabilidade, mas que aceitei com certa tranquilidade, tinha uma intuição que seria uma aventura interessante.

O dia programado era sexta-feira a noite. Desde que o Podcast voltou para o ar, em geral nas sextas a noite, vivo entre diversão e trabalho.  Nos divertimos lá fazendo, mas existe um esforço artístico para que saia algo bom. Minha programação ficou: Ir até as Moreninhas, ler o texto para o Giga e de lá partir rapidamente para o estúdio gravar o Podcast, que fica no Aero Rancho.

Fiz minha logística para cumprir a missão e estava pronto para sair de casa. Mais uma vez, como nos episódios passados, o tempo chuvoso foi o cenário desta aventura. A sexta começou com chuva, que depois não parou mais, arrefecendo durante algum tempo, retornando em seguida com mais força. Não parecia que seria fácil ir tão longe, mesmo assim segui meu caminho, encarando a chuva, entre ruas alagadas, cheias de buraco e com sinaleiros muitos deles não funcionando. Isto é Campo Grande quando chove...

Mesmo com o universo fazendo parecer não ser possível realiar esta aventura, me enchi de coragem e fui, em um momento que a chuva deu uma parada boa. De onde resido até a Moreninhas tem chão, então, por volta das sete da noite, parti rumo a minha missão.

Consegui atravessar bem o caminho para as Moreninhas, o transito estava só um pouco movimentado, sexta noite, a cidade começa a ganhar vida noturna e se agitar. Enquanto uns iam buscar na noite sua felicidade, eu tinha uma missão a cumprir, indo focado nela, mas me divertindo durante este processo.

Me recordava até bem do caminho para o C.T Bruno Bezerra, necessitando do gps somente quando já estava no bairro. Cheguei dentro do horário que previ, encontrando o grande galpão da academia do Bruno abarrotado de gente do lado de fora do tatame muitos deles não parecendo ser de alunos, e sim pais e responsáveis das crianças, das quais só escutava a barulheira típica deles.

Quando olhei para o tatame ao fundo, havia um mar de crianças lá dentro, com alguns poucos adultos dentre eles. O som da gritaria das crianças ecoava pelo galpão, sua energia frenética emanava conforme se movimentavam a toda por aquele tatame. Fui me aproximando do tatame, sendo reconhecido por alguns dos alunos conforme passava. Bruno, que estava lá no meio da molecada controlando os ânimos deles, veio até a pequena grade que limita o tatame e se mostrou muito contente com a minha presença naquele evento.

Niltinho havia combinado de estar comigo às sete e meia, para fazermos uma resenha e tal, mas nenhum sinal dele. Me troquei e fiquei recostado no corredor, observando o final daquele treino infantil. Achei estranho colocar o kimono e não dar nenhum treininho que seja, mas tudo bem, minha missão era outra. Quando me aproximei do corredor, escutei uma das crianças falando “Eita! Que cara grande!”, interessante saber como uma criança te vê, talvez para ele eu ainda seja um cara bem grande, no futuro possa ser que seja até pequeno quem sabe...

No meio das crianças, quase que camuflado, estando um pouco mais alto que alguns deles somente, estava o personagem que havia vindo ao encontro. Mesmo com toda aquela confusão de crianças em volta dele, Gigante conseguiu me ver, abriu um sorriso bem grande e veio me cumprimentar na grade também.

Parece que aquela noite estava agitada para ele, tendo pouco tempo para que pudéssemos conversar, pois tinha muita gente querendo estar com ele um pouco. Para quem não sabe, Rodrigo Gigante está de malas prontas, neste momento que o texto está saindo, já está em seu destino, Nova York- Estados Unidos da América.

Este pequeno rapaz está indo viver o sonho do Jiu-Jitsu: Sair do país e encontrar melhores oportunidades para viver da sua arte. Eu fiz este caminho cerca de cinco anos antes, mas minha experiência se conecta com a do Gigante em alguns poucos pontos, digamos que era o mesmo sonho, mas que seguimos por rotas e rumos diferentes, cada um levando uma bagagem distinta.

Não pude deixar de me recordar daquele sentimento de se despedir dos seus irmãos, filhos e filhas de tatame. É um momento conflitante, de alegria, ansiedade, esperança, seguido de tristeza, com uma saúde que já nasce no momento que abraçamos as pessoas, e elas nos desejam sorte na viagem.

Mas deixemos de lado minha experiência, hoje vim para descrever a do Gigante. No alto da parede central, entre os logos da equipe e academia, está um cartaz bem grande desejando boa viagem ao seu filho pródigo. A turma da aula infantil tira a tradicional foto de fim de treino, formando um paredão de crianças, que quase fazem Gigante desaparecer no meio delas.

Tirada a foto, Gigante foi engolido pelas crianças, que pulavam e gritavam “Uh é o Giga, Uh é o Giga!”. Bruno ordenou que abrissem uma grande roda, deixando o Gigante no meio. O coro das crianças continuou “Uh é o Giga, Uh é o Giga!”. Parece que a promessa era de um abraço coletivo no professor deles que estava de partida, momento aguardado com ansiedade por todas aquelas crianças, que como em uma baia de corrida, se preparavam para correr para abraçar seu mestre.



Bruno teve que jogar uma água fria no ímpeto dos pequenos, destacando que o ato geraria um estouro de manada de crianças, com possíveis feridos no processo. Mas ele não foi capaz de conte-los, a vontade do abraço coletivo foi tanta, que Bruno teve que liberar acontecer, com o resultado previsto por ele, um estouro de manada, com alguns atropelados no caminho. Mas calma, nada muito grave, quem caiu levantou rápido e foi feliz ao encontro do abraço .


Havia ali um real ídolo para aquelas crianças, não um ídolo distante que eles vêm nas telas de tvs e celulares, mas um ídolo de carne e osso, um que estava bem ali na frente deles. Bruno prometeu que ordenadamente cada um deles pegasse o presente que trouxera e entrasse em fila para a foto com Giga.

Em uma das cenas mais impressionantes que vi no Jiu-Jitsu, aquelas crianças todas, quando digo todas, são todas mesmas, pegaram algum presente ou cartinha e vieram para a fila, que em poucos minutos parecia a fila de algum brinquedo disputado em um parque de diversão. Percebi que muitos deles carregavam na mão um pedaço de papel, fiquei imaginando o motivo.



A estrela estava lá, recebendo seus fãs com o maior carinho que um ídolo pode ter. Quando foram os primeiros chegando ao encontro de Gigante, entendi a função do papel, era para que ele desse um autografo para elas. Lembrei-me de quando criança ter pegado dois autógrafos. Certa vez estava na praia, no Rio de Janeiro, isso era lá pelo final dos anos 1990. Havia um evento, nele estavam ex-jogadores do flamengo jogando futebol de areia. Eu Devia ter uns oito ou nove anos na época, fiquei explodindo de felicidade quando Junior, o Maestro Junior, e o já falecido goleiro Zé Carlos, assinaram os autógrafos no papelzinho que levei. Perdi aqueles autógrafos, mas ficou registrado em mim a emoção da criança recebendo o autografo de um ídolo.



Cada criança ia, entregava seu presente, tirava a foto com Giga, que depois assinava seu autografo e entregava para seu fã. Algumas crianças saiam eufóricas, explodindo de alegria em ter pegado o autografo do Giga. Um dos garotos falou: “Vou guardar pra vender, vai valer muito o autografo do Giga!”.

A alegria de uns contrastava com o desolamento de outros, que chegavam no limite do tatame com os olhos em lágrimas, alguns deles não contendo a emoção da saudade instantânea. Por um bom tempo Giga ficou lá, entre autógrafos e fotos, atendendo cada um dos seus fãs com a mesma alegria, coisa que só um ídolo carismático consegue.

Ao final do processo, as crianças haviam se dispersado, mas permaneciam em volta do tatame, com vários pais requisitando um abraço do ídolo de seus filhos. Quase que me desliguei do mundo tentando ficar quase que imperceptível, focando nos sutis detalhes que aquela cena tinha. Realmente já havia valido a pena ter ido lá, e presenciado  algo que nunca havia visto. Chegará a hora de ir para o tatame, levar um pouco mais de emoção para aquela noite.

Confesso estar um pouco nervoso, como em qualquer situação em que os olhos e ouvidos das pessoas vão estar todos focados em você. Desejava que as palavras aos poucos fizessem minha voz e presença, ser só um veículo de comunicação, que todas as atenções se voltassem para o homenageado.

Minutos antes de minha fala, a chuva aumentou, fazendo ressoar o som severo da água se chocando contra o metal do teto do galpão. Precisaria de voz para conseguir recitar a mensagem para tanta gente em um tatame grande, e que estaria cheio de alunos espalhados em roda. Tenho voz baixa, um tom que me dizem parecer calmo, com uma chuva daquelas, teria que me esforçar muito para recitar o texto em som audível. Mas como que por mágica, a chuva cessou de uma só vez, dando me oportunidade de não ter de gritar aquela mensagem.

Fui cumprimentado respeitosamente por todos os alunos que ali se faziam presente, me sentei entre Giga, Bruno e Niltinho. Bruno mais uma vez me apresentou e explicou o que faria. Gostaria muito de acompanhar o que viria após minha leitura, mas o relógio trabalhava contra mim naquele dia, sendo necessário utilizar cada segundo daquele dia de forma eficiente. Me levantei, peguei meu celular e li a mensagem:

 

O Pequeno Grande Gigante

 

          Olhe quem vem lá, é ele, ele mesmo, o famoso Gigante. Quem aquele ali? Sim, é ele mesmo. Mesmo parecendo implícito o jogo de antagonismo sobre um pequeno rapaz ser chamado de Gigante, seu apelido vai muito além deste jogo de palavras típicos do português brasileiro. O apelido de Gigante caí como uma luva, um apelido que abrange muito mais do ser deste pequeno rapaz, contendo nele toda a grandiosidade do espírito guerreiro dele.

     Seu olhar encantado dentro do tatame esconde um passado de muitas batalhas.  Não batalhas somente dentro do espaço em que a luta acontece, mas sim em uma arena que existem adversários muito mais fortes e terríveis, a vida. Mas nosso pequeno gigante não se intimidou com nenhum tipo de técnica que a vida possa ter usado para lhe atingir, saindo cada vez mais fortalecido de qualquer amasso que ela o tenha dado.

         Sem histórias tristes! Assim diz ele para todos aqueles que buscam uma desculpa que justifique não alcançar o que deseja. Para nosso Pequeno Gigante nada é impossível, nada é tão distante que não possa ser alcançado, assim como nenhum adversário é tão grande que não possa ser enfrentado. Ah se todo o lutador de Jiu-Jitsu tivesse esta mentalidade... Teríamos uma legião de gigantes como tu, mas nem todos nascem com um espírito gigante como o seu.

         Agora todos nós assistimos sua ida para mais uma jornada, mais um desafio que parece muito grande para a maioria, mas para você será mais um adversário muito maior para se enfrentas. Será mais um campeonato, enfrente-o como sempre tem feito, com um sorriso bem grande no rosto, espírito de entrega, e a máxima coragem.

Minha mãe diz “O mundo não é pequeno, nós que somos grandes”, o mundo será pequeno para você Gigante, vá e conquiste-o!

Diego Souto Maior Colino 14/03/2022 13:48

 

Minha leitura foi até rápida, foquei no texto, e procurei recitar cada palavra e frase de maneira que a mensagem do texto fosse compreendida pelos meus receptores. Ao final do texto, recebi um caloroso abraço de agradecimento do homenageado da noite. Não podia ficar mais, o tempo urge, e o show não podia parar.

Rapidamente me despedi e fui me trocar para sair as pressas. Ao sair pude apenas acompanhar em flashs, um dos melhores amigos de Gigante, Niltinho, abrindo seu coração naquele momento. Me recordei mais uma vez da minha despedida, e de como foi importante este apoio de quem realmente me queria bem.

Espero ter contribuído naquela noite, ter levado um pouco mais de emoção para uma noite já emocionante por si só. Valeu a pena ter ido até lá, e presenciado a despedida de um verdadeiro ídolo de toda a comunidade do Jiu-Jitsu MS.

Agora me volto para a aventura anterior a esta, tudo bem, fizemos uma ótima parada antes de continuar no trecho.

 

 

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