Jiu-Jitsu Adventure MS: Ep 04. Aventuras e Desventuras em Série pelo Jiu-Jitsu do Sul do Estado: Terceira Parte
Capítulo 5. O Sacerdócio de Árbitro
Aí que dor... Meu
corpo já dava sinais de exaustão, mas faltava uma missão para completar a jornada,
a arbitragem da etapa do Estadual em Dourados. Amanheci sentindo os efeitos de
viajar dois dias de carro, fazer dois seminários, e ainda rolar com vários
alunos durante estes seminários. O ponto mais sensível era meu pescoço, que
parecia ter um lado travado, tendo a qualquer movimento neste lado, uma ligeira
dor que ia da lateral do pescoço até as costas na altura do ombro. Quando tenho
estas dores, procuro as ignorar, não pensar o quanto dói ou incomoda. Na
realidade nem tinha tanta dor, era mais incomodo mesmo, mas que persistia.
Acordamos relativamente cedo, por
volta das sete da manhã, algo que para mim, é cedo pra cara..., mas enfim,
estávamos de pé e prontos para a última missão. O café da manhã do hotel de
Ivinhema também estava muito bom, nos preparando para um dia de pouca
alimentação, como é o comum de um dia inteiro dentro de um ginásio. Lá estava
eu, vestindo meu vestuário quase completo de árbitro, somente sem a camisa para
não correr risco de sujar, assim pronto para sair pra última missão desta jornada.
Saímos por volta de quase oito da manhã, o que parecia que daria tempo de chegar em Dourados, cidade que fica pouco mais de cem quilômetros de Ivinhema também. Desta vez não tínhamos nada de chuva em nosso caminho, apenas um dia iluminado pelo Rei Sol.
Conforme avançávamos no trecho,
percebia que não chegaria dentro do horário previsto, por volta das nove e
trinta. Mesmo com esta previsão de atraso, seguia tranquilo meu caminho, tenho
uma filosofia que não adianta correr, colocar a vida em risco por sei lá, meia
hora de atraso, pra mim não vale a pena.
Passava quase das dez da manhã
quando avistei a entrada de Dourados. Para quem não sabe, tenho uma ligação bem
íntima com a cidade, sou um legítimo Douradense. Nasci e passei parte da minha
infância na cidade, mas vou deixar pra dissertar sobre Dourados e minha
história com ela no Adventure que faremos por lá, que já está marcado pra
acontecer.
Chegava ao Estádio Municipal de
Dourados, também com ajuda do Gps. Apesar de ser douradense, não tenho os caminhos
das ruas da cidade em meu computador cerebral, na verdade nem mesmo os caminhos
de Campo Grande tenho muito, me perdendo em simples trajetos dentro da cidade
que vivo há quase vinte anos. Digamos que localização não faz parte de meu
melhor conjunto de habilidades, reconheço está debilidade.
De fora, já parecia que o estádio estava bem cheio, tal era o número de carros e ônibus no estacionamento, além do movimento de pessoas na entrada. Mais uma vez minha mente me jogou lá no passado, quando era uma criança na frente do mesmo ginásio.
Não lembro quantos anos tinha, mas tenho certeza que era menos de dez. Me recordo de estar na frente daquele ginásio, ávido por adentra-lo e assistir a final da Copa Morena de Futsal. Quando criança era fascinado pelo futebol, qualquer evento que tivesse futebol eu queria ir. Mas não seria aquele dia que iria saciar minha sede pelo esporte bretão, o estádio havia atingido lotação máxima, deixando aquele pobre garotinho magrelo de fora. A choradeira foi grande, mais uma vez nessa viagem as vontades de infância veem à tona. Desta vez não tinha como eu ficar de fora, pois eu fazia parte do espetáculo.
Arbitragem
é uma das funções que exerço dentro do Jiu-Jitsu, função esta que me levam a
muitas aventuras. Demorei um bom tempo para me fardar como árbitro, durante boa
parte da minha carreira, meu foco foi estar do outro lado, sendo julgado por
eles como atleta. Dizia a mim mesmo que jamais gostaria de atuar naquela
função, quem em sã consciência iria sair de casa pra ser pressionado, xingado e
até mesmo humilhado? Eu que não ia me sujeitar a isto.
Qualquer
convicção só dura até que uma necessidade financeira a faça ser repensada. Nada
que uma boa falta de dinheiro não faça o “Jamais faria isto” virar um “Beleza,
vamos ver como é”. No meu caso foi no ano de 2016, quando casado e com dois
filhos pequenos, uma diária de duzentos reais, algo que pagaria uma conta de
luz, me fez repensar minha aversão a farda da arbitragem. Aceitei o cargo e fui
para fazer isso até as coisas melhorarem.
Por
incrível que pareça, já na minha primeira atuação me senti muito bem. A
adrenalina de estar ali no comando do julgamento da luta, era parecida com a de
lutar, menos intensa por conta do não risco de sua integridade física, mas com
muito mais pressão vinda de fora. Dividiria desta maneira, como atleta a
pressão vem de dentro para fora, na arbitragem ela vem de fora para dentro.
O
que era para ser uma vez, já está há sete anos fazendo parte de minha rotina
como profissional do Jiu-Jitsu. Primeiro por ter me apaixonado pelo oficio de
arbitrar, segundo, porque ainda como em 2016, continuo precisando daquela
diária de árbitro, talvez até mais hoje do que há sete anos atrás.
Quando
o árbitro chega, quase que o ginásio se cala, somos a razão da alegria e da
tristeza de muita gente. Ninguém curte ser muito simpático com o árbitro e nem
muito aversivo a ele, mantendo um respeito silencioso pela autoridade do
julgador das lutas. Uma conduta que tenho de mudar muito na função de árbitro,
é esta recepção. Quando atleta era só sorrisos, abraços e simpatia, como
árbitro percebi que isso em excesso, deixa suspeições de sua intimidade com
aqueles que irá julgar, sendo melhor um tratamento cortes e cordial, mas não
tão íntimo.
Procuro
sempre que entro no ginásio, me apressar para me apresentar e estar apto pra
iniciar, essa pressa me ajuda a evitar de alguma forma se delongar com os
amigos e professores que encontro no caminho. Quando adentro a área de
competição, percebo que a figura do presidente da federação, Fábio Rocha, se
encontra em certa aflição. Encontro somente alguns dos meus colegas de função,
a maioria dos árbitros não parecia estar lá, inclusive o diretor da arbitragem.
Fábio
rapidamente me passa a situação, o ônibus que traria parte do staff e os
árbitros, havia saído atrasado de Campo Grande. O motorista do ônibus confundiu
o dia, achando que seria no domingo a competição. Sem boa parte dos árbitros e
staffs, parecia que a tragédia do atraso do cronograma era inevitável.
Desta
vez, mesmo atrasado, eu estava antecipado no horário, o que me deu tempo para
relaxar um pouco, refletir sobre aquela viagem e de alguma forma ganhar um
tempinho para me recompor fisicamente visando a maratona que viria a seguir.
Este
é o segundo ano que participo desta competição como árbitro, talvez tenha ido
em anos anteriores, a memória as vezes me falha, trazendo lembranças de quase
trinta anos antes, mas não me recordando eventos que não passam de cinco anos
no passado... No ano anterior, o campeonato terminou quase nove da noite, sendo
uma verdadeira maratona de arbitragem, este ano estava preparado para algo
semelhante.
Nas
arquibancadas consigo ver rostos conhecidos, gente que há poucos dias estava
junto, como a galera da Gracie Barra Ponta Porã, que liderados por Bordão, Pedrinho,
Max e Camila, que já são presenças garantidas nesta etapa do circuito estadual.
Além deles, vejo amigos do passado, pessoal que faz parte da comunidade do
Jiu-Jitsu Douradense, como o Professor Fernando da Nine Nine, Pedrex Barba
Ruiva e Irineu da Soul Fighters, mas vou guardar pra falar deles quando fizer o
Adventure em Dourados (aguardem que está próximo).
Mais
uma vez estou vestindo minha batina de árbitro, a função dentro do Jiu-Jitsu
que mais me faz lembrar uma espécie de sacerdócio. Não fazemos por amor, o
dinheiro, como lhes disse lá trás, é o importante, mas vamos combinar, passar o
dia de pé, comendo pouco, recebendo pressão de muitos lados, ser por algumas
vezes xingado, até mesmo por gente que você conhece, é em boa parte feita por
amor ao sacerdócio da arbitragem.
Capitulo
6.
A
Festa do Jiu-Jitsu do Sul do Estado, Etapa do Estadual em Dourados
Mesmo com o staff incompleto, a competição já estava atrasada demais, necessitando ser iniciada com o pessoal que tínhamos. Já passava das onze horas da manhã e não havia começado ainda o evento. Com um atraso destes, que horas iriamos terminar?
O ginásio municipal de Dourados não é dos piores, possui uma estrutura que comporta um evento de Jiu-Jitsu com o fluxo de inscritos daquela etapa. Quente? Não mais que qualquer outro ginásio no estado. Não é o calor, nem o tamanho que o faz ser peculiar, tem um ponto que é sempre o fiel da balança.
Normalmente ginásios de teto muito alto, tendem a ter um problema crônico, o das pombas. O ginásio de Dourados sempre tem este elemento, fazendo do tatame um alvo das cagadas pombais, que sujam a arena e por vezes até mesmo os competidores. Temos que tomar conta da luta, e principalmente, da limpeza do tatame ante este risco. Lutar já é difícil, fazê-lo em um tatame cagado, torna a luta em uma experiência desagradável.
Como em toda a competição da federação, o dia começa com o festival Kids. Este festival foi implementado há uns quase dez anos atrás, e tem cada vez mais atraído crianças se iniciando no esporte. A média de idade é de até seis anos, salvo engano, o que arranca suspiros da torcida ao avistar aquelas pequenas criancinhas, todas vestidas de kimononinhos e correndo pelo tatame.
Já é tradicional o início do campeonato ser o Festival Kids. Este se tornou um momento de aquecimento para o árbitro, primeiro com a apresentação, que é quando já começamos a ficar despertos, depois com as lutas do festival, que marca o início das atividades do árbitro.
As lutas do festival Kids são de dois minutos, sem pontos, sem avaliação nossa, mesmo assim, são um exercício de atenção constante. Existe um desnível nas crianças que competem neste formato, algumas estão extremamente motivadas a lutar, outras estão com medo e algumas nem mesmo sabem porque estão ali. Nosso trabalho é simples, não deixar que uma criança machuque a outra, já que, o encontro da criança extremamente motivada, com a que nem sabe o que está fazendo, gera um grande risco.
O festival transcorreu tranquilamente, na minha área a criança motivada encontrou outra motivada também, a que tinha medo conseguiu na hora do desespero transformar seu medo em coragem de sobrevivência, e minha experiencia fez com que não juntasse alguma criança motivada, com alguma que não sabia aonde estava, acredito que até não havia nenhuma criança nesta categoria de estar perdida.
Após o festival Kids, começam as lutas em que as regras aparecem. A categoria infantil que dá o start em nossa arbitragem. Agora não podemos mais ser tão bonzinhos com eles, é encaminhar pra área e começar as lutas.
Temos as mesmas categorias de crianças do festival, a diferença é que, caso a criança desista, a luta é encerrada naquele momento. Confesso que alguns deles ainda se confundem, achando que como no festival, ser finalizado dá outra chance de lutar, desculpe amiguinho ou amiguinha, uma lição pra vida, nem sempre tem uma segunda chance...
Tudo transcorre bem nas categorias infantis, minha maior preocupação não é vitória ou derrota daquelas crianças se iniciando no esporte, só tenho uma preocupação, a segurança deles. Nada vale mais para o árbitro que as crianças saírem do tatame com sua integridade física intacta. O choro, a desolação, o sentimento de derrota, é algo que o tempo e apoio correto conseguem trabalhar, já uma lesão nos primeiros passos, pode muitas vezes ser o ponto final de um início de trajetória.
Depois das crianças, vem os pré-adolescentes e adolescentes. Neste momento já chegou o Staff completo, todos muito estressados devido ao atraso do ônibus. Quem chega de Campo Grande tem a mesma surpresa que tivemos dois dias atrás, uma rodovia muito lenta, cheia de caminhões e carros. Para sorte destes atrasados, o atraso do Staff fez com que o atraso deles não os punisse, todos os atrasados estavam na mesma barca.
Nos adolescentes e pré-adolescentes, já conseguimos ver uma entrega maior. Existe a preocupação, mas já consigo deixar eles irem um pouquinho mais além. Quando estou arbitrando lutas de crianças e adolescentes, tento sempre me lembrar da minha vivencia de pai, tendo o cuidado naquele instante que teria com um/a filho/a meu/minha na mesma situação.
Meus filhos já estão na adolescência, Maria Sophia com treze anos e Raphael com quase quinze, além deles, tenho a filha da minha ex namorada, a qual auxilio em sua trajetória no Jiu-Jitsu, Raquel de sete anos. Acho que isso me dá uma boa bagagem paterna pra arbitrar lutas de crianças e adolescentes, não que isso seja essencial, tenho colegas que não são pais ou mães e que são excelentes árbitros de lutas infantis.
Acidentes sempre acontecem, por mais que tenhamos atenção redobrada, devemos estar preparados para quando acontecer. Duas garotas adentram o tatame, elas devem ter entre onze e treze anos. Uma delas está em lágrimas já, expressando seu nervosismo, a outra parece estar mais calma. Quando grito “Combate!” (sinal que dá início ao tempo de luta), a que não estava nervosa parte pra cima da menina em lágrimas. As aparências enganam, a menina que estava em lágrimas se defende bem, demonstrando possuir muito mais técnica. Em pouco tempo, ela já se encontra nos cem quilos, abafando a menina que antes parecia ser quem iria domina-la.
Por baixo, na posição mais desagradável que o Jiu-Jitsu possuí, a menina antes confiante, se debate em vão. Suas tentativas não possuem direção, sendo apenas um debater tal como de um peixe que já se encontra fora dá água. Sem conseguir movimentar uma palha da oponente, ela simplesmente desiste dali mesmo.
Quando encerro a luta, a menina saí de cima da oponente, ostentando um sorriso de alívio pela vitória. O que vejo da oponente derrotada é o rosto em pavor dela, buscando puxar o ar como alguém recém saído de um mar revolto. O ato de puxar o ar também não se surte efeito, parecendo que sua garganta estava tampada. Ela não consegue mais respirar, seus olhos dão apontamento de que ela vai desmaiar a qualquer minuto. Eu chamo o atendimento médico, que chega rapidamente. Sei mais ou menos o que ela está passando, está tendo um ataque de pânico via evento traumático, e como previsto, ela desmaia no tatame ante sua falta de ar.
A oponente da menina desmaiada, chora sem parar. Tento acalenta-la, mas é difícil algo que traga alento para ela, que vai da alegria da vitória, para a carrasca que feriu uma oponente. Aquela manhã não está sendo boa para ela, primeiro suas emoções lhe atrapalham, e mesmo na vitória ela não consegue aproveitar o momento.
Como previ, a menina desmaiada aos poucos vai retornando suas funções. Quando vejo que recobrou a consciência e está relativamente bem, pergunto se ela deseja se levantar e terminar o rito de assinalar a vitória para a oponente, mas ela engruvinha todo o corpo, cerra os olhos em desespero e clama “Quero ir embora daqui!”.
A agonia daquela garota me lembrou da minha, tá parecendo o anime do Naruto este texto, de tempos em tempos retornamos ao passado em flashbacks intermináveis... Desta vez vamos para o ano 2000, ano em que me iniciei no Jiu-Jitsu.
Com pouco mais de dois meses de treino, resolvi entrar em um campeonato. Assistia muitos animes e filmes de luta, como Rocky, Grande Dragão Branco, Karate Kid, Dragon Ball, Cavaleiros dos Zodiácos, Yuyuhakusho... Achava que uma competição ia ser tão divertida quanto os torneios de artes marciais que Goku e seus amigos participavam nas histórias de Dragon Ball. A vida real era bem menos divertida.
No dia da competição, mal consegui deglutir qualquer coisa, era como se não tivesse forças sequer para comer. Meu irmão Marcello foi comigo, ele sempre foi um melhor desportista que eu. Havíamos começado no exato mesmo dia, tínhamos o exato mesmo tempo de treinamento, mas ele parecia anos luz de mim.
Nós dois iriamos encarar o mesmo garoto, um garoto da nossa idade, mas que em minhas memórias parecia ser muito maior que eu e ele. Marcello foi o primeiro a lutar, imaginei que ele, por me vencer todos os dias na academia, ganharia e me salvaria de apanhar. Ele perdeu, mas de uma maneira honrosa e lutando tudo que sabia até aquele momento. Em seguida seria eu, já sabendo que não teria quaisquer chances de vencer. Com meu esguio corpo magrelo, que com doze anos pesava menos de quarenta quilos, fui para o centro do tatame e encarei meu adversário.
Não me lembro de muita coisa, apenas de pular para a guarda (naquele tempo era permitido o tiro de guarda), em seguida, não tive forças para fazer nada, estando rapidamente na mesma situação daquela menina. Diferente dela, mal resisti, me entregando já na primeira pressão. Em seguida fiz como ela, desmaiei ante a impossibilidade de respirar.
Saí carregado do lugar da competição, que era uma academia em um segundo andar de um prédio. No trajeto atraia os olhares dos curiosos, vendo um pequeno garoto semi-desmaiado que havia levado uma surra. Chorava, nem tanto ante a dor da derrota, a vergonha maior era a de nada conseguir fazer, me sentindo o mais fraco dos garotos. Definitivamente eu não era tão forte e confiante quanto Goku...
Fui levado para o hospital. Eu aguardava o atendimento na maca, chorando de cabeça virada, não conseguia encarar ninguém nos olhos ante a vergonha que sentia de mim mesmo. De alguma forma minha mãe conseguiu contato visual comigo, a olhei, e soltei uma frase que me recordo palavra por palavra “Nunca mais quero voltar pra um campeonato!”, minha mãe olhou de volta e só me fez uma pergunta “É desse jeito que você quer sair?”. Para não alongar esse flashback e voltarmos para o campeonato, posso cravar, que se não fosse a minha mãe, o Jiu-Jitsu pra mim acabaria naquele primeiro passo, e este texto jamais existiria. Espero que aquela garota tenha uma volta por cima como a que tive.
Após as crianças e adolescentes, veem os adultos. Na categoria faixa azul juvenil, já conseguimos ver uma técnica apurada, lutas disputadas e que exigem muito do conhecimento de arbitragem. Nos adultos é que a parada fica mais séria, pois estaremos julgando as lutas de gente que empenha boa parte da vida nisso, não que as crianças e adolescentes não o façam, mas eles terão várias chances ainda, os adultos e Master já nem tanto.
Se com os adultos a responsabilidade é maior, dependendo das categorias de peso, a luta perde velocidade. Nas crianças muitas vezes é velocidade pura, com a mão do árbitro toda hora erguida pra dar pontos, já nos adultos, por vezes ficamos entediados, assistindo dois lutadores que pouco avançam, mantendo nossos braços abaixados o tempo todo. Pior de tudo, é que no final temos a obrigação de dar a vitória pra quem foi “melhor”. Em uma luta empatada sem pontos, isso é um julgamento difícil, pois procurar o “melhor’ em uma luta que os dois formam “piores”, é duro...
O campeonato transcorreu bem, não posso me delongar citando os muitos eventos que meus olhos de árbitro enxergam, faltaria força nos dedos em teclar tantas letras e palavras. Vou avançar para a última luta do evento, a luta final, que é um show do campeonato.
A última luta, na maioria das competições, tem sido a final da categoria pluma da faixa branca adulto. Composta por jovens pequenos e magrelos, estes galinhos se digladiam com velocidade e loucura, alguns já possuindo um nível melhor de técnica. Quem ganha esta luta fica próximo do prêmio máximo do faixa branca, o qual saberão ao final desta história.
Os dois finalistas são da Gracie Barra Ponta Porã, mas nenhum deles estava no dia do seminário lá. Um deles, que depois descobri ser filho de Maxi, faixa preta da Gracie Barra Ponta Porã, se aproxima de mim e pede “Me entrevista lá no Podcast!”. Lhe dou um incentivo disfarçado de esnobação “Lá faixa branca não é entrevistado”.
Niltinho, chefe dos Staffs, o homem que faz o campeonato girar, aproveita a última luta, em que os holofotes já estão sendo desligados, tatames sendo retirados, árbitros já abandonando suas braçadeiras e dando por encerrado seu turno, para liberar seu lado announcer. Mesmo cansado, demonstra entusiasmo impar ao anunciar no microfone os dois lutadores que farão a última luta da competição. Falta só fumaça e música na entrado dos lutadores, mesmo assim o clima é de show, tendo a torcida toda em volta do tatame, três árbitros julgando e a narração de Niltinho.
Mesmo sendo da mesma academia, os dois jovens se digladiam como adversários de longa data. A luta transcorre com muita vontade de ambos os lados, aquela luta parecia ser muito importante para os dois jovens faixas branca, ganhar aquela etapa significava muito para eles. Dois entram, mas só um tem seu braço levantado ao final do combate, e se aproxima o momento de sabermos qual deles venceu.
O jovem que falou comigo antes da luta tem seu braço erguido. A apoteose da vitória toma conta, e ali mesmo ele é graduado pelo seu professor com a tão sonhada faixa azul. Não existe prêmio máximo para um faixa branca do que vencer a competição e receber a faixa azul no podium. Agora ele está apto a participar do Pós-Treino Podcast!
O campeonato termina, muito antes das nove da noite como acreditava que acabaria. Me sinto aliviado, consegui cumprir minha missão daquele dia, completando as missões que tinha na jornada pelo Sul do Estado. Meu sentimento é de vitória, me dando um gostinho daquelas vitórias dos tempos de lutador. Esta foi para mim uma vitória pessoal, de um já aposentado lutador, que se vê capaz de ainda fazer vencer a si mesmo.
Capítulo
Final
A
Volta para Amarelão
A competição terminou finalmente, e eu e Polaco já estávamos prontos para retornar para casa. Se juntou a nós Canelinha, faixa roxa, antigo aluno meu, que naquele dia não havia tido tanta sorte na competição. Tínhamos fome, muita fome diga-se de passagem.
Em dias de arbitragem pouco eu como, é difícil parar seu tempo e saborear uma refeição, fazendo com que o dia seja passado com uma marmita na hora do almoço, e algumas guloseimas ao longo do dia, mas nada que deixe saciado. Então saiu das competições com uma fome monstra.
Há dois anos parei de comer uma das iguarias que mais adorava, cachorro quente. Mas Dourados é o único lugar que me faz voltar atrás nesta abdicação, pois é lá que tem o famoso Dog King, lar do melhor cachorro quente que eu já comi. Depois daquela longa jornada, disse a mim mesmo que merecia um Dog King, e olha que no geral não mereço muita coisa. Todos os integrantes da trupe de volta concordam na proposta, aceitando de pronto a ideia de ir no Dog King antes de partirmos rumo de casa.
Depois de um dia desgastante, um cachorro quente prensado de salsinha e frango do Dog King, deixa um gosto de vitória na boca. Nosso jantar pode não ter sido o mais nutritivo, mas garanto-lhes que foi o mais saboroso, dando um animo extra para tomarmos o rumo de casa.
Pela estrada a fora, encarando a noite, nosso carro percorre a estrada, levando-nos de volta ao lar. Mesmo passados apenas três dias, já estamos saudade do lar e de quem ficou por lá. Polaco já demonstrava saudade da namorada, e eu, por incrível que pareça, do Amarelão...
Com Canelinha no carro, a disposição muda um pouco, nossas histórias se reciclam com mais componente na corrente, ajudando com que o tempo na estrada não pareça tão longo quanto é. O som vai alternando minhas playlists do Spotify (que são muito boas diga-se de passagem), fazendo uma viagem com histórias do campeonato, da própria viagem, desta vez contada por mim e Polaco para mais alguém, além de aventuras do passado em todos os níveis imaginados, tudo isso ao som de músicas de diferentes gêneros e eras.
Meu pescoço da apontamentos de que irá doer nos próximos dias, ainda sinto aquela fadiga do lado esquerdo das minhas costas. Ao longe nosso trio avista Campo Grande, estamos quase lá, chegando ao destino que sacramentaria o sucesso da jornada.
Só dou por completa uma Adventure quando deixo meus companheiros sãos e salvos em seu lar, e chego em minha casa. Quando eles se vão, é aliviante, pois sei que completamos a missão, mesmo assim, parece que a jornada já nos deixa saudade de nossos companheiros de aventura.
Somente o retorno ao lar é o último trajeto da jornada. Sigo ainda recordando os momentos da viagem, da saída dois dias antes, do seminário em Ponta Porã, da confusão no Hotel, das compras no Paraguay, da ida em Ivinhema... No som Whitney Houston solta a voz em sua majestosa apoteose artística na música tema do filme “O Guarda Costas”, eu a acompanho no refrão: “ And IIIIIIIIAIIII WILL ALWAYS LOVE YO....”.
Abro o portão de onde moro, meu carro vai avançando sobre as pedrinhas de brita do estacionamento. Ao longe já vejo a silhueta de Amarelão na janela da porta de casa. Paro o carro, por um instante busco forças para me levantar e começar a descarregar minha bagagem.
Encontro
minhas forças e saio do carro, e antes de fazer qualquer coisa, abro a porta de
casa. No escuro, mal consigo enxergar Amarelão saindo pela porta, sendo
alvejado pela empolgação dele, sentindo suas patas, língua e até mesmo
mordiscadas em minhas pernas e mãos. Meu cachorro pula em mim e parece não
acreditar que sou eu ali, fazendo parecer que estive longe por muito tempo. Mas
ele pode acreditar, o Pai dele voltou inteiro de uma longa jornada.
Este
texto foi escrito em um intervalo grande de tempo, um tempo que muito mais
Adventures ocorreram. Precisei de descanso e fisioterapia pra me recuperar, mas
logo estava reestabelecido e pronto para me aventurar mais pelo Jiu-Jitsu do MS.
Não perca minha próxima aventura explorando a arte suave Pantaneira.



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