Jiu-Jitsu Adventure MS: Ep 04. Aventuras e Desventuras em Série pelo Jiu-Jitsu do Sul do Estado: Segunda Parte
Saímos de Ponta
Porã sem pressa, desta vez tínhamos um tempo tranquilo para chegarmos em nosso
destino. Ivinhema fica cerca de pouco mais de cem quilômetros de Ponta Porã,
não levando mais que três horas para chegar lá. A estrada estava calma, com
poucos carros e caminhões no trecho, em um dia que o sol por vezes se escondia
entre nuvens, mas mantendo-se constante, mantendo o calor do dia em alta.
Tinha ido para Ivinhema uma vez na
vida, muitos anos antes, em um momento nada bom para mim. O ano era 2015, me
desloquei até Ivinhema para o Open Arefa, uma competição que prometia prêmios
em dinheiro e a presença de lutadores de fora do estado. A competição não foi o
elemento que deixou aquela viagem ser lembrada pela tristeza, mas sim o evento
anterior a competição.
Eu e mais três alunos estávamos já
inscritos nesta competição, quando uma semana antes, recebi a notícia mais
impactante de minha vida. Em uma manhã, acordei com a notícia do falecimento de
um grande amigo e aluno, Nelson Júnior, o Nelsão. Nem preciso gastar muitas
linhas em descrever o quão doloroso foi a despedida, nos concentremos na
ligação deste momento no passado mais distante com este passado mais recente.
Mesmo ainda sofrendo a dor da perda
de nosso amigo, resolvemos não adiar a viagem, afinal, não seria isso que
traria o Nelsão de volta. Pensávamos em homenagear o nosso querido amigo com
vitórias, doce sonho... Então fomos lá, rumo a uma competição em uma cidade que
não conhecíamos e com esperanças de honrar a memória de um irmão de tatame.
Acredito que pelo impacto emocional
daquele momento, conforme nesta última viagem ia percorrendo o trecho, era como
se nunca tivesse passado naquela estrada. Em nenhum ponto daquele trecho
parecia ter ficado algum registro em minha mente. Daquele dia em Ivinhema, me
lembro bem das lutas que fiz, na que meus alunos fizeram, e da volta apressada
que fizemos pra casa, e mais nada.
Saldo
final, eu havia ficado em segundo lugar no absoluto, tendo feito uma boa luta
mesmo perdendo, uma luta que rendeu bons momentos em que meu adversário caiu
nas armadinhas do estilo tartaruga. Meus alunos não foram tão bem quanto eu, a
maioria perdendo lutas em que tinham chance de vencer, e meu aluno Kau machucou
feio o joelho tomando um tiro de guarda, o que nos fez voltarmos às pressas
para Campo Grande. Isso era tudo que tinha em minha memória sobre Ivinhema,
poucas boas lembranças.
Para mim aquela aventura parecia
inédita, tentei mentalizar que a experiência seria outra, o momento era outro
também, o que me fazia pensar como se fosse minha primeira vez em Ivinhema,
mesmo não sendo. Não conhecia nada de meu anfitrião, e da cidade só conhecia o
ginásio em que competi, de resto, tudo fazia parte das brumas do desconhecido. Esperava
chegar em uma pequena cidade, como não havia ido para além do ginásio (aliás
como já fiz em muitas cidades que competi e arbitrei), tinha a impressão de um
lugar bem pequeno e pacato.
Ao
adentrar a cidade, me surpreendi positivamente. Além de bem cuidada e decorada,
a cidade vivia um fluxo considerável de automóveis em suas ruas.
Definitivamente não era o lugar pacato que imaginei. Era ainda final de tarde
para noite, enquanto o sol se punha e a noite de sexta feira ganhava vida,
estávamos eu e Polaco indo de encontro a mais uma noitada de Jiu-Jitsu, em uma
cidade diferente de como imaginei ser.
Já
tinha colocado a localização da academia no gps, algumas vezes me esqueço disso,
quando chego na cidade, aí que lembro de perguntar aonde é a academia....
Rapidamente chegamos ao destino, mesmo assim, não foi tão rápido como imaginei
na projeção da pequena cidade que tinha em mente. O prédio em que se localiza a
Fight Sports Ivinhema, fica defronte uma praça, que naquele início de noite se
apresentava bem iluminada. Paramos o carro e finalmente iriamos conhecer o
anfitrião, Helinho.
Da
esquina pude avista-lo, um homem grande, que estava de calça de kimono e camisa
de sua equipe, rodeado por algumas crianças que pareciam estar esperando os
pais. Helinho percebeu nossa chegada, e nos recebeu abrindo um sorriso,
efusivamente nos cumprimentando ao longe. Neste primeiro contato pude perceber
que estaríamos bem recebidos, Helinho emanava a alegria típica de quem vive o
Jiu-Jitsu como estilo de vida.
Em
um raro momento, chegamos bem cedo, tanto é que cogitamos ir ao hotel deixar as
coisas antes. Helinho ofereceu nos levar, achei melhor ele nos guiar mesmo,
tendo em vista a última confusão de hotel que fizemos. Mas escolhemos ficar por
ali mesmo, conversando e me inteirando de quem era meu anfitrião.
Enquanto
conversávamos, um pai veio buscar seus dois filhos. O pai parecia íntimo de
Helinho, soltando a frase “Pode dar dura neles se eles não se comportarem”.
Neste fragmento de conversa, consegui notar que a comunidade da cidade
acreditava no caráter disciplinador e justo de Helinho. Junto com o professor
Helinho, se juntou a nós seu aluno e braço direito, Jean, um rapaz esguio,
faixa roxa relativamente jovem, digo relativamente, pois seus dois filhos já
estavam de kimono e vivendo o ambiente da academia, um contra argumento a
jovialidade que imaginei.
A
história de Helinho para viver o Jiu-Jitsu em sua cidade tem muitas doses de
superação, visto que começar uma arte marcial, que se quer tem um professor em
sua cidade, não é nada fácil. Hélio, nome que já o liga ao Jiu-Jitsu
Brasileiro, além da arte marcial, tem uma profissão que o faz ser reconhecido
no meio social da cidade, ele é bombeiro militar, inclusive o quartel em que
serve fica há poucos metros da academia, podendo ser visto de onde estávamos.
Para além de sua profissão, as artes marciais sempre foram sua paixão, buscando
todo conhecimento marcial que estava ao seu alcance, mas o Jiu-Jitsu era seu
sonho de consumo.
Helinho
e um amigo, também versado em outras artes marciais, resolveram se iniciar no
Jiu-Jitsu na raça mesmo. Sem professor de Jiu-Jitsu na cidade, foram buscar na
capital um mestre que lhes desse suporte, nisso conheceram Claudionor Cardoso,
mestre pioneiro no Jiu-Jitsu do estado. Esses primeiros momentos de Helinho e
seu amigo conectam com a experiência de Bordão, muita vontade, força e
brutalidade, era o Jiu-Jitsu que este núcleo pioneiro conseguia praticar devido
a pouca supervisão.
Indo
para Campo Grande, trazendo seu mestre para Ivinhema, competindo o máximo que
podia, Hélio e seu amigo galgaram sua subida dentro da hierarquia do Jiu-Jitsu,
chegando cada um em determinado nível de faixa. Quando já havia um grupo
consolidado de praticantes, começaram as divergências entre ele e este amigo,
algo que também é corriqueiro nas pequenas e grandes cidades, a diferença é que
em uma cidade pequena, toda uma comunidade acaba envolvida neste imbróglio.
Com
um problema com seu sócio, Helinho resolveu se desligar de sua equipe, ficando
um tempo praticando em sua própria casa. Alguns dos alunos que com ele já
tinham criado laço de amizade, o acompanharam nesta saída, como foi o caso de
Jean. Por anos tenho escuta histórias de “rachas”. Assim como divórcios de
casamento (o quais já vi e vivi também), não faltam mágoas e traumas que se
criam no processo. Com ele não foi diferente, os caminhos dele e de seu antigo
companheiro de tatame se separaram, em uma comunidade em que todos se conhecem
e que fatalmente sabem os motivos de um e de outro. Helinho não pareceu guardar
mágoa nem rancor, somente seguindo seu caminho da maneira que acredita ser
melhor.
Sem
uma equipe, Helinho ia para mais uma vez buscar um centro de conhecimento em
que pudesse se apoiar. Neste momento chegamos à ligação que ele e eu temos em
comum, ele acabou por chegar á um local que conheço bem, a Fight Sports Campo
Grande.
Assim como Helinho,
passei pelo batismo de fogo da Fight Sports Campo Grande, mas em um tempo muito
mais distante. No meu batismo de fogo estava Juan Cabeça, hoje um dos líderes
da equipe, na época eu e ele, havíamos acabado de sair da equipe que fazíamos
parte e buscávamos ser aceitos na nova equipe. A experiência de Helinho foi
muito parecida com a minha, com a diferença que eu era um jovem de dezoito anos
e ele já um Master com mais de trinta, mesmo assim, consegui perceber que a
tradição de batismo de fogo ainda permanece na Fight Sports.
Na Fight Sports, Helinho encontrou
seu suporte e modelo de Jiu-Jitsu a seguir. Desta vez seguindo como liderança
de sua própria equipe, ele buscou crescer seu trabalho segundo sua visão. Naquela
pouco mais de meia hora na frente da academia, consegui ver que rendia bons
frutos seus esforços, com muitas crianças saindo do treinamento e aos poucos
muitos adultos e adolescentes chegando para o treino da noite.
Conforme iam chegando os alunos, fui
percebendo o primeiro traço que nos ligava dentro daquela cultura Fight Sports.
Os alunos todos que chegavam faziam um cumprimento de mão típico da equipe,
quase como um aperto de mão secreto que identifica quem é Fight Sports. Não só
me lembrava do aperto de mão, como havia visto este cumprimento sendo criado, há, sei
lá, mais de quinze anos atrás.
Nos trocamos e subimos a escada para
finalmente conhecer o tatame de Hélinho. No segundo andar, um grande salão
abrigava um grande tatame preto. O salão era bem amplo, com janelas que davam
vista para a praça defronte, dando uma linda vista para as luzes da cidade. Na
parede central estavam lá os escudos que representam o caminho escolhido por
Hélinho, os logos vermelho, preto e branco da Fight Sports.
Fiz parte da equipe Fight Sports
entre os anos de 2006 até 2011. Estar ali no tatame de Hélinho, era uma espécie
de volta a esta memória passada, mais uma que Ivinhema me trazia, está já sendo
de algo positiva, me trazendo a emoção de uma ligeira volta a minha juventude
no Jiu-Jitsu.
Do meu conhecimento da cultura Fight
Sports, consegui perceber que Helinho seguia à risca as diretrizes, conceitos e
cultura da equipe que integrou. Ele absorveu todos os elementos que fazem ser
Fight Sports, no seu tatame me sentia como quando fiz parte da equipe, me
reconectando com este passado já distante. Conhecendo a equipe, me planejei
para levar aquilo que quem é Fight Sports gosta: Porrada Fei! (Termo cunhado
pelo Pai de Roberto Cyborg, o popular Tiuzão)!
Os alunos começaram a chegar em bom
número, a maioria composto por adultos, em diferentes níveis de faixa, sendo
Helinho o mais graduado de faixa marrom. Haviam alguns adolescentes também, a
maioria já bem grande, nem mesmo aparentando a idade que tem.
Helinho nos apresentou a turma com
bastante alegria, demonstrando estar animado para aquela noite de Jiu-Jitsu.
Desta vez haveria tempo para Polaco dar seu show, quando digo show, é um show
mesmo, as técnicas que ele possui na arte de derrubar um ser humano são
incríveis.
Antes de começar, Polaco me
perguntou se iria cair para ele, respondi que claro, que amigo seria eu se recusasse
isso. Estou faz um tempo pulando e surfando nas costas dele, nada melhor que
retribuir. Polaco começou demonstrando suas técnicas de como pegar no kimono,
ia demonstrando e colocando um desafio, sendo prontamente disputado com vigor
pelos alunos. Na formação das duplas, um pobre faixa branca ficou de fora nesta
dança das cadeiras, mesmo um pouco cansado, fui lá ajuda-lo, nada melhor que
poder ajudar alguém em início de caminhada.
Quando chegara a hora de demonstrar
as técnicas de derrubada, lá estava eu, sendo arremessado pelo ar, em projeções
tão rápidas que faziam meu mundo chacoalhar e só parar quando meu corpo
finalmente se assentava no tatame, com a trilha sonora do estrondo de meu corpo
se chocando com o solo. A abertura de quedas havia ativado a adrenalina dos
alunos, sendo bem recebido por eles. Minha ideia era dar uma palhinha da
capacidade que Polaco tem, parecendo que ficou um gostinho de quero mais dos
alunos, que a cada queda executada pelo mago, pareciam impressionados.
Chegará minha parte, o tempo de
Polaco havia corrido bem, fazendo com que tivesse um tempo legal para trabalhar
com eles. O espírito Fight Sports é de guerra, então procurei levar essa guerra
para eles, mas dentro da perspectiva da tartaruga. Em geral busco levar calma,
tranquilidade e serenidade na aplicação do estilo de defesa tartaruga, mas
tento me adequar ao espírito que os alunos possuem, ali era de batalha, então,
a cada demonstração, um pouquinho de guerra para ilustrar a aplicabilidade da
técnica.
Como na abertura de Polaco, os
alunos executavam com muita aplicação os conceitos ensinados. Sempre que a cada
técnica que era demonstrada, habilmente eles buscavam já a testar em uma
resistência maior. As técnicas foram fluindo, passando pelos pontos que
desejava e aos poucos íamos avançando.
A receptividade dos alunos foi
incrível, alguns deles inclusive me conheciam de outro seguimento, do Pós Treino
Podcast, programa de entrevistas e entretenimento para o Youtube, que a quase
dois anos produzo. Helinho está sempre em nossa audiência, trazendo consigo
alguns alunos, que me perguntavam sobre meu parceiro de bancada, o irreverente
Carioca, e me contavam ter assistido á episódios já antigos, um destes alunos, conhecido
como Boca, disse ter assistido todos, para minha grata surpresa.
Terminamos a parte técnica, e
chegará a hora que a maioria dos viventes do Jiu-Jitsu esperam, a porrada. Ao
melhor estilo Fight Sports, eu e Polaco rolamos com todos aqueles que nos
procuravam. A porrada começou, e um a um, os alunos de Hélinho vinham
experimentar rolar com a gente. Era o
tempo do rola acabar, que havia já alguém pra treinar, Jean mesmo, deve ter
treinado pelo menos duas vezes com cada um de nós.
Pude ver que todos eles carregavam a
vontade dentro de si, sem medo de se arriscar ou se iriamos levar a melhor,
vinham e estavam dispostos a vender caro cada posição que fazíamos. Helinho não
se furtou também não, rolando comigo e com Polaco, demonstrando força,
disposição e boa base, elementos que dava pra ver que passou para seus alunos,
visto que eles seguiam seu mestre nestes conceitos.
Fiquei feliz de estar ali, retornar
por alguns instantes nessa cultura que fez parte de minha trajetória, e dividir
tatame com pessoas que estavam felizes com minha presença. Foi uma noite
incrível de aventura que o Jiu-Jitsu pode me proporcionar.
Ao final do treino, uma típica
resenha pós-treino, uma roda de pelo menos dez alunos, com tereré e todo o tipo
de história a se compartilhar. Helinho e seus alunos são viventes do Jiu-Jitsu
Lifestyle, transformando uma noite de sexta-feira, em uma festa de Jiu-Jitsu, a
qual foi muito bom ter participado.
Terminado o treino, pra lá das nove
da noite, quando o último aluno decidiu ir para a casa, talvez temeroso de uma
esposa já aguardando possessa o marido voltar do Jiu-Jitsu, era hora de
descansarmos. Helinho já havia preparado
nosso jantar, um churrasco em sua casa.
Neste jantar pudemos conhecer bem
mais profundamente a trajetória e planos para o futuro de nosso anfitrião. Sua
trajetória é uma saga de superação, força de vontade e busca incessante por
conhecimento. São poucas as pessoas que dedicam tanto tempo de suas vidas em
buscar conhecimento, transpondo barreiras que para a maioria seria o fim da
linha.
Ivinhema pode garantir que terá
muito Jiu-Jitsu em seu futuro, Helinho é incansável em seu sonho de fazer esta
arte marcial crescer em sua comunidade. Com alegria, respeito e muita
dedicação, este mestre vai ainda levar Jiu-Jitsu pra muitos cidadãos desta
cidade do sul do estado, baseado na experiência que tive, acredito muito nisso.
Desta vez não tínhamos erro no
hotel, retornamos e mais uma vez não havia forças para quem sabe conhecer a
noite da cidade. A missão de Polaco havia terminado já, a minha ainda tinha
mais um capítulo, arbitrar o campeonato de Dourados no dia seguinte. De casa
tinha notícias dos meus filhos e de quem mais me preocupava o comportamento,
Amarelão.
Minha
ex namorada me dizia o quanto ele estava dando trabalho, incomodando os
cachorros dela e destruindo algumas coisas. Sorte que minha jornada já estava
perto do fim, mais alguns dias e acho que ela não daria mais conta dele.
Terminei
a aventura naquela pequena cidade, desta vez com um gosto muito diferente do
que havia tido anos antes. Passado, presente e futuro se misturaram naquele
dia, me trazendo à tona lembranças e sentimentos de diferentes momentos de
minha vida.
Ao
mesmo tempo que o Jiu-Jitsu suga nossas energias, ele renova nosso espírito, e
definitivamente Helinho e seus alunos haviam renovado meu espírito, saindo dali
com motivação extra para finalizar aquela árdua jornada.
Agora
faltava um último capítulo, o campeonato de Dourados. Não perca o capítulo
final desta saga de um rapaz que parece indiano, um albino, muitos quimonos
suados no carro e muito Jiu-Jitsu a se viver. Aguardo vocês!

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