Jiu-Jitsu Adventure MS: Ep 04. Aventuras e Desventuras em Série pelo Jiu-Jitsu do Sul do Estado: Primeira Parte
Capitulo 1: Preparação Para uma Árdua Jornada
Esta aventura
começa muito antes do carro sair rumo ao desconhecido. Quando o Jiu-Jitsu
Adventure começou, primeiro como uma brincadeira para o Instagram, depois
tomando um rumo mais sério em relatar experiências vividas nas academias que
visito por vezes, não tinha ideia de qual alcance poderia ter. Já nos primeiros
episódios, apareceram convites de professores interessados em uma visita,
muitos mais do que imaginei. Um destes professores foi Helinho, professor da
Fight Sports Ivinhema. Ele nos deu todo o suporte para conseguirmos ir até sua
academia, sugerindo uma data próxima ao campeonato de Dourados.
Gostei da ideia de ir até o Sul do
estado, e poder por dois dias viver a atmosfera do Jiu-Jitsu local. Eis que
neste tempo aparece o convite da Gracie Barra Ponta Porã, do professor Carlos
Bordão, irmão de longa data da equipe da qual faço parte. Decidi, de maneira
arriscada, projetar um verdadeiro rolê de Jiu-Jitsu, um tour por duas academias
e um campeonato, será que conseguiria?
Conversei com professor Carlos
Bordão, e acertei minha ida para a quinta-feira pré campeonato, ficando a
agenda assim: Quinta-Feira na Gracie Barra Ponta Porã, Sexta na Fight Sports
Ivinhema, finalizando no sábado com a etapa do estadual em Dourados, aonde
atuaria como árbitro. Parecia que seria uma aventura árdua, três cidades em
três dias, Jiu-Jitsu, Jiu-Jitsu e mais Jiu-Jitsu.
Tenho uma experiência pregressa de trabalhos curtos e árduos, atuei como arqueólogo em projetos que exigiam trabalhos rápidos e intensos, me sentindo assim preparado para fazer o mesmo no Jiu-Jitsu. No fim do ano de 2022, duas visitas seguidas, que foram na minha cidade, castigaram meu corpo, mas havia sobrevivido bem a elas, então me vi capaz de ir mais além. Não pensei muito nos contras, perigos e dificuldades, coloquei na mente que seria capaz do feito, me programei e iria me jogar de cabeça neste tour de Jiu-Jitsu pela fronteira sul.
Outra dificuldade seria encontrar um companheiro de aventuras, visto que a maioria dos meus amigos tem atividades fixas durante a semana, não podendo se dar ao luxo de viajar por três dias. Mas existe um que está sempre disposto a partir em uma aventura, alguém que adora se jogar no desconhecido, este alguém é Luan Pimentel, ou somente, Polaco.
Sugeri ao meu companheiro abrir os dois eventos que iria ministrar, aproveitando para apresentar o talento impar dele em ensinar os mais sutis e eficazes detalhes sobre como derrubar alguém no chão. Estava tudo certo, até que em um treino corriqueiro meu companheiro de viagens machuca seu joelho...
Até na quarta-feira Polaco ficou de
me dar a resposta se iria ou não. Como sei o quão perigoso é uma lesão no
joelho, ainda mais para quem já tem uma cirurgia como ele, não contava muito
com sua participação, já antevendo que iria de ir sozinho mesmo nesta
empreitada. Fugir de um desafio não é do feitio de Polaco, o Demolidor Albino,
adora um desafio, fazendo assim um sacrifício e dando o Ok de que iria estar
nesta nau que navegaria rumo ao sul.
Outra preocupação que tinha, não
relacionada diretamente com a viagem, era de deixar meu cachorro Amarelão por
três dias sem minha supervisão. Ele não é um cachorro tranquilo para alguém
cuidar, vindo das ruas, ele tem sua própria direção, muitas vezes não aceitando
as ordens de ninguém, se guiando somente por sua própria vontade. Conversei com
minha ex namorada, e ela concordou em cuidar dele enquanto estava fora, só não
sabia se ela iria aguentar o tranco de ficar com ele por tanto tempo.
Repetindo o clima da última aventura
em São Gabriel, os dias estavam cinzas e úmidos, nos dando um perigo a mais, as
chuvas intensas, que por acaso continuam no exato momento que escrevo este
texto. A sorte nos sorriu, por acaso, no
dia de nossa saída as chuvas deram uma trégua, nos possibilitando nos jogar na
aventura em bons ventos.
Saímos de Campo Grande rumo ao Sul
do Estado, sabedores do quão desgastante fisicamente seria a empreitada, mas
nutrindo dentro de cada um de nós a esperança de uma grande aventura, e uma história
boa para se contar. Parti deixando para trás meu cachorro Amarelão, que da
janela da porta da sala se debatia em desespero com minha partida, como faz
todos os dias, mas desta vez eu demoraria mais para voltar para ele.
Capítulo
2: Jiu-Jitsu da Fronteira
Gracie
Barra Ponta Porã: Aqui a Força é Diferente
Saímos de Campo Grande dentro de um horário previsto, um pouco mais tarde, mas nada que fosse tanto. Pegamos BR-163, existem dois caminhos mais conhecidos de se acessar o Sul do Estado, um por esta BR, outro passando por Sidrolândia e Maracaju. A BR-163 é uma rodovia gerenciada pela CCR, o que faz com que tenha pedágios, quem for precisa levar dinheiro em espécie. Em geral é uma boa estrada, bem sinalizada, bom asfalto, mas também muito movimentada.
Anos antes, ir de Campo Grande á Ponta Porã não levava mais do que quatro horas, mas o fluxo intenso de caminhões fez com que nossa viagem fosse muito mais longa do que imaginamos. A rodovia não andava no ritmo previsto para fazer chegarmos em tempo.
O
dia foi ficando noite, e nada de estarmos próximos do nosso destino. Uma parada
na rodovia, cerca de trinta minutos, sugou nossa reserva de tempo. Por mais
otimista que estivesse, não parecia que chegaríamos no horário combinado.
Quando o relógio já marcava quase
dezenove horas, horário que em tese deveríamos estar lá, só restava avisar que
o atraso era certo. Quando as luzes da cidade de Ponta Porã surgiram, a alegria
encheu nossa esperança de ainda termos uma noite com muito Jiu-Jitsu.
Ponta Porã seria o que de mais
próximo Mato Grosso do Sul tem de uma espécie de Las Vegas, com uma cidade
muito iluminada, uma rede hoteleira bem diversificada e os famosos Cassinos do lado de lá da fronteira.
Não tínhamos tempo para apreciar as luzes da cidade, dando-nos tempo apenas de
ir direto em direção a academia da Gracie Barra Ponta Porã.
Já era por volta das vinte horas, um
atraso que é tolerado apenas por artistas muito famosos, o que não é nosso caso.
Mas ali estávamos, em tempo de entregar parte do que prometemos.
A
correria entre chegar, ir se trocar e entrar no tatame, não me deu um tempo
hábil de reparar com cuidado nos detalhes do prédio em que se encontrava a
academia, mesmo assim, rapidamente pude captar algumas impressões.
O prédio da Gracie Barra Ponta Porã
fica em uma avenida entrecortada por um canteiro. Haviam vários carros, que não
eram só dos frequentadores da academia, mas sim dos empreendimentos
alimentícios que fazem vizinhança com a academia. O prédio em que fica a
academia é bem amplo, de fora já consegui notar sua extensão. A academia divide
espaço com o escritório de advocacia do casal que administra a Gracie Barra
Ponta Porã, Carlos Bordão e Camila Radaelli.
Naquele primeiro momento, fiquei
impressionado com a arquitetura da academia, que é um espaço aberto, com teto
alto de madeira, com dois ambientes divididos por arcos de volta perfeita (na
internet pesquisei qual era o tipo, não sei nada de arquitetura) A impressão é
que a academia foi adaptada de um prédio que tinha outra finalidade, mas que
nesta adaptação não perdeu seu charme arquitetônico, dando a academia um
aspecto diferenciado.
Lá dentro temos dois tatames
extensos, um central e outro que fica na área dividida pelos arcos. Com uma
iluminação de baixa intensidade, dá um aspecto bem agradável para o espaço. Nas
paredes do tatame menor, podemos ver que a decoração conta com parte da
história do líder da equipe, com fotos, cartazes, medalhas... Normalmente gosto
de ver um por um, mas como o atraso, só depois pude vislumbrar melhor a
decoração.
O tatame já fervia no momento que chegamos, com várias duplas se digladiando nos rolas, ao som do hip hop estadunidense. O atraso e o ambiente já em ritmo acelerado, fez com que mudássemos um pouco a dinâmica prevista para o seminário, desta vez não iriamos de Bob Marley, seguiríamos o ritmo da academia.
Fomos muito bem recepcionados por Carlos Bordão, líder da Gracie Barra Ponta Porã. Bordão, como é conhecido, tem uma aparência que combina com o sufixo nominal de sentido aumentativo de seu sobrenome, com porte físico avantajado, careca e barbudo. Sua imponência física é o oposto do que seu tom de voz demonstra, de fala pausada, calma, quase sempre sorrindo, ele é um gigante gentil.
Finalmente conseguimos chegar no tatame para começar, com a mente a milhão em virtude da viagem e do atraso. Infelizmente neste dia não seria possível dar a abertura com Polaco, pois teríamos de trabalhar com um tempo curto, indo mais rápido, tal era o clima que o treino já estava. Entre os alunos, a maioria era de adultos, com alguns jovens adolescentes e pré-adolescentes. Bordão nos apresentou e anunciou o que iriamos fazer, sem muito rodeios fomos direto ao assunto.
Prometi
que iriamos continuar brigando, mas de uma maneira diferente, tentando encaixar
um outro conceito de defesa tartaruga naquela briga. Fui fazendo, de maneira
bem acelerada, os costumeiros exercícios técnicos da defesa tartaruga, dando um
tempo moderado para se adaptarem e já executarem em específico de luta. Um dos
aspectos que já consegui entender naqueles primeiros momentos na Gracie Barra
Ponta Porã, é que os alunos gostam bastante da luta, ainda mais em uma semana
pré campeonato.
Quando
visito as academias e ministro um seminário, tento adaptar os meus conceitos,
dentro de uma perspectiva da academia, levando um pouquinho da minha
metodologia e adaptando-me a deles também, desta forma se torna uma via de mão
dupla, em que eu ensino meu Jiu-Jitsu, e absorvo o espírito do Jiu-Jitsu da
academia. Ali na Gracie Barra Ponta Porã, entrei no clima da guerra de
preparação para competição, avançando rapidamente os conceitos e indo para o
que eles queriam mesmo, sair na porrada.
Michel
Pereira é um dos faixas pretas que ali residem. Michel é cria da Gracie Barra
Belo Horizonte, um dos maiores criadouros de Casca Grossas do Brasil, de lá
saíram grandes nomes do Jiu-Jitsu mundial. Seu porte físico lembra os
personagens do filme Avatar, ainda mais com seu kimono todo azulado, dando a
impressão de quem luta contra ele é de estar enfrentando um dos Na´vi (Raça
alienígena do filme Avatar). Deu para notar sua euforia dele em poder naquele
dia treinar com dois faixas pretas diferentes, nós também estávamos curiosos em
conhecer a força dele, a qual já havíamos presenciado nas competições que
assistimos ele lutar.
Além
de Michel, outros dois faixas pretas formam a linha de frente da Gracie Barra
Ponta Porã, Pedrinho, jovem recém graduado faixa preta, que teve destaque nas
faixas anteriores, e Maxi, um exemplar monolito da categoria Master, que também
recém chegara a faixa preta. Os dois iriam competir no sábado, e estavam nos
ajustes finais de sua preparação.
Começamos
os rolas, com o diferencial de iniciarmos eles na posição de tartaruga e com um
tempo reduzido de três minutos. Neste momento adentramos os domínios do
espírito porradeiro da Gracie Barra Ponta Porã, conhecendo e reconhecendo a
técnica, força e explosão dos membros da equipe.
Polaco
ainda sentia o joelho, mas não iria perder a chance de fazer um treino
daqueles, se colocando a disposição para quem quisesse com ele se testar. Fomos
de três em três minutos conhecendo o estilo de luta de cada um que se
apresentava, conhecendo a avalanche que é treinar com Michel, a atenção que tem
de ter com os perigosos Maxi e Pedrinho, a correria dos alunos mais leves, como
uma jovem garota faixa azul que treinou comigo, passando por um peso pesado
faixa marrom, que além do seu peso apresentava uma boa movimentação.
O
treino, que em tese terminaria às nove da noite, se estendeu até quase dez,
quando as últimas forças de quem queria gastar seu Jiu-Jitsu, já haviam se
esvaído e ficado naquele tatame. Após o treino, foi o momento em que pudemos
ter aquela conversa de reconhecimento, algo que normalmente faço antes do
treino, mas, chegando tão atrasado, agora que iria ser feita.
Sem
aquela correria, tivemos tempo para conhecer um pouco melhor Carlos Bordão e
sua trajetória no Jiu-Jitsu naquela cidade. Se juntou a nós sua esposa, a também
faixa preta, Camila, mas que no momento se dedica a preparação para uma
competição de fisiculturismo, e que parece na ponta dos cascos para esta
empreitada.
No
já longínquo ano de 1998, Bordão nos conta que o Jiu-Jitsu começou ali naquela
cidade fronteiriça, através de Dilsinho Mad Max, figura dos primórdios do
Jiu-Jitsu Sul-Mato-Grossense, o qual venho descobrindo mais recentemente.
Bordão e João, ex lutador que ficou conhecido por ter vencido Roberto Cyborg na
faixa azul, foram os dois pioneiros da cidade. Destes primeiros momentos, ele
me explicou que tudo era feito na base da vontade, força e brutalidade.
Camila
parece aquela que tem um contato mais maternal com os alunos. Ela nos contou
sobre os desafios que a maioria deles enfrenta, visto que muitos deles são
estudantes de medicina no Paraguai. Muitos desses alunos enfrentam dificuldades
financeiras para se manterem na cidade, pagarem seus estudos, que são em tempo
integral, e conseguir ainda treinar Jiu-Jitsu.
Uma
das boas histórias que Bordão e Camila nos contaram, foi sobre Wladimir, um
imigrante Cubano que vivia no Paraguai. Conheci Wlad em competições, mas cerca
de seis meses antes da visita ele havia se mudado para Curitiba, indo em busca
do sonho de ser lutador de MMA. Wlad é um fenômeno da natureza, negro, com
quase um e noventa de altura e um físico assustado. Ele é um talento nato para
o combate.
Camila
nos confirmou que Wlad era aquilo que víamos nas competições e muito mais. Com
seu Wrestling de alto nível, ele era uma parada indigesta para qualquer um que tentasse
se manter em pé lutando com ele. Camila nos falou dele com muitas saudades,
dizendo que ele a chamava de mãe e que deixou muitas saudades em todos seus
companheiros de treino, principalmente de sua mãe aqui no Brasil.
Wlad
é um dos filhos da Gracie Barra Ponta Porã que orgulham a escola, tendo feito
neste tempo entre minha visita e a escrita deste texto, sua estreia no MMA, com
resultado que já esperado, um atropelo na técnica, disposição e força.
De
seu início na raça lá no final dos anos 1990 pra cá, deu para notar que o
Jiu-Jitsu passou a fazer parte integrante da vida de Bordão, dividindo seu
tempo com sua profissão de advogado. Nos últimos anos tenho acompanhado sua
trajetória de competidor, sendo uma das figuras mais frequentes nos
campeonatos. Não raro foi vê-lo também se testando entre os adultos, no mais
alto nível do Jiu-Jitsu local, um feito em tanto para quem está desde 1998
nessa batalha.
Hoje
em dia tem por volta de seis academias de Jiu-Jitsu na cidade. Um bom número de
academias para o porte daquela cidade. Com toda a certeza este sucesso do
Jiu-Jitsu daquela cidade fronteiriça, se deve ao esforço pioneiro daqueles
entusiastas de uma luta estranha aos olhos dos locais, mas que hoje é parte
integrante daquela comunidade. Havia ainda mais Jiu-Jitsu naquela cidade para
conhecer. Quem sabe consigamos um dia explorar ainda mais.
Ano
passado Bordão anunciou que se aposentaria das competições. Confesso que não
senti muita confiança nesta decisão. Em Dourados no sábado mais uma vez
veríamos Bordão em ação competindo, confirmando minha percepção. Quando ele me
informou que estaria competindo sábado, eu lhe disse “Não aguentou né?”, ele me
respondeu somente com uma risadinha A magia da competição continua o dragando
Bordão para ir lá fazer aquela forcinha!
A
Gracie Barra Ponta Porã foi uma ótima aventura, gostaria de ter chegado mais em
tempo de apreciar ainda mais o Jiu-Jitsu praticado por lá. Neste pouco tempo
que tive com eles, vi que lá a força é diferenciada.
Capítulo 3:
A Magia do Paraguai
Após
o treino, cansados da correria de viagem e do treino, fomos comer e ir para o
hotel, definitivamente não tínhamos energia para conhecer a noite de Ponta Porã.
Eu li muito rapidamente a reserva que Bordão me enviou no whatsapp, coloquei no
mapa a direção e fui. Quando estava me aproximando do local indicado pelo mapa,
li rapidamente o nome que havia na reserva, estacionei o carro na garagem do
hotel, descemos com nossas bagagens e fomos entrando.
Na
recepção apresentei minha reserva, o rapaz, muito simpático e prestativo,
buscou no computador a reserva, e nada. Ele educadamente me disse que não
tinha, e eu argumentei que havia sido feita pelo primo do dono do hotel, o que
era verdade. Com meu argumento sugestivo, o atendente se convenceu e falou que
devia ter dado um erro no sistema, nos dando as chaves para subirmos para
quarto.
Já
no quarto, nosso cansaço era grande, além do fato de estarmos um dia inteiro
sem nos comunicar com Campo Grande, então ficamos cada um deitado em sua cama, nos
comunicando com o mundo através do celular. Durante esta comunicação recebi uma
mensagem de Bordão: “Vocês estão no Hotel?”, respondi a ele que sim, agradeci a
hospitalidade e oportunidade, desejando-lhe um boa noite, desta maneira
terminamos nossa conversa. Um pouco depois ele me mandou novamente uma mensagem
“Em que hotel vocês estão? No Herval?”, quando li o nome do hotel, ergui a
cabeça e li bem grande na parede “Hotel Guarany” ...
Dei
um pulo da cama, falando alto “Polaco, estamos no hotel errado!”. Pegamos
rapidamente nossas coisas, descemos para o hall de entrada. Todo sem graça,
anunciei para o atendente que estávamos no hotel errado. O atendente ficou em
um misto de indignação por termos insistido, achando engraçado o fato de termos
sido tão desastrados em confundir os hotéis, que ficava na frente deste, tendo
uma grande placa cada um que indicava qual era qual.
Saímos
de lá as pressas e adentramos o outro hotel, para mais uma vez, cheio de
vergonha, explicar que havíamos nos confundido. O atendente do hotel, o certo,
estava preocupado, pois nós não havíamos chegado, então o atendente enviou
mensagem para quem fez a reserva, Bordão, perguntando se iriamos fazer o check
in, sendo informado por ele que já estávamos lá. O atendente nos disse que
procurou em todas as listas, olhou na câmera, não conseguindo entender como
havíamos entrado sem passar pelo hall de entrada.
O
atendente pegou minha identidade e reparou o ano de meu nascimento, dizendo em
seguida que não aparentava ter aquela idade. Agradeci o elogio e fiquei
refletindo, será que sou tão novo assim para aquele tipo de aventura? Ou minha
idade começa a pesar nestas empreitadas? Não sei exatamente a resposta, por
vezes meu corpo responde que sim, eu aguento fazer tudo isto, por vezes dá
indicativos de que o tempo está chegando.
Passado
este tumulto, estávamos finalmente no hotel certo, menos cansados, dada a
injeção de adrenalina gerado pela confusão de estar no lugar errado. Podíamos
finalmente descansar de um dia cheio de contratempos e emoções fortes. No dia
seguinte iriamos para Ivinhema, mas antes, tínhamos um tempo para conhecer o
Paraguai.
Na
manhã seguinte, acordamos relativamente cedo, Bordão fez uma propaganda
excelente do café da manhã do hotel. Realmente ele tinha razão, o café da manhã
valia a pena perder algum tempo de sono para aproveita-lo. Já preparados para
nossa segunda jornada do dia, nos despedimos do hotel certo, sem nem mesmo
querer olhar para o hotel vizinho e lembrar da confusão que fizemos por lá.
Em
um dia que começou cinza, aos poucos o sol foi dando sua cara e esquentando o clima
da fronteira. Desde criança conheço aquela cidade, mas quase sempre ia lá
guiado por alguém conhecedor da região, desta vez era só eu com meus parcos
conhecimentos sobre a cidade. Passamos a fronteira, estávamos em território
Paraguaio, prontos para conhecer o principal item cultural local, o comércio.
Ao
som da rádio Paraguaia, tocando uma polca, estávamos imergindo no clima local.
Do carro, víamos que lá é bem diferente do Brasil, um trânsito mais caótico,
motos transitando a toda velocidade, com gente sem capacete em cima delas e em
cada lugar produtos a mostra para venda, como se todo o lugar fosse feito de
comércio.
Parei o carro em uma praça, reconheci que ali
estávamos no epicentro do comércio paraguaio. Sem muito dinheiro, nossa
intenção era apenas dar uma volta e experenciar a cultura local. Na praça
defronte onde estacionamos, havia uma estátua ao centro, a qual me chamou a
atenção para saber quem era o homenageado.
Qualquer
menção a histórias locais me atrai, e o Paraguai é um lugar cheio de histórias
interessantes. Sai do carro rapidamente e fui até a estátua saber quem era
aquela figura. Aquela estátua homenageava Pero Juan Caballero, um dos
libertadores do Paraguai, que fizeram a independência da antiga colônia
espanhola e fundaram o país. Visto a estátua, estávamos prontos para explorar
as ruas de comércio.
Quando
criança estive ali algumas vezes, retornando em alguns momentos durante a minha
juventude e idade adulta. Nem de longe aquelas ruas me lembram o fervor que era
em meados dos anos 1990, quando a economia deu um boom com o plano real, e o
dólar pareou com a moeda brasileira, fenômeno que nunca mais parece que irá
ocorrer.
As ruas neste tempo ficavam lotadas, com gente
passando para todos os lados, ambulantes oferecendo os mais diversos produtos e
as lojas todas abarrotadas de gente em busca dos melhores preços. Comparado com
aquele auge que vi observando de baixo em minha estatura infantil, parecia que
agora observando do alto de minha idade adulta, sobrara um resquício do apogeu
de comércio paraguaio.
Mesmo
em “baixa”, digo entre parênteses devido a comparação com minha memória de
quase trinta anos atrás, ainda sobrevive parte da magia do local. Ambulantes
surgem de todas as partes ainda, com seu sotaque brasilguaio, gritando
oferecendo produtos diversos ou estralando o som de choque de um teaser: “TEASER,
TEASER!”, “PRAMIL”, ou deixando em aberto “O QUE O SENÕR QUIEIRAS TENHO”.
Aos
poucos fomos sendo dragados pela magia do Paraguai, vendo em cada produto uma
chance de um bom negócio. Cheguei com a certeza que não precisava de nada, saí
com a noção que me faltava de tudo.
Em
um comércio multiétnico, com paraguaios, chineses, coreanos, árabes e
brasileiros, cada loja parece ter um produto muito bom, com um preço que na sua
cidade você nunca vai achar. A cabeça começa a confabular contas, criar
possibilidades de como aquele dinheiro gasto não fará falta, por fim, você só
pensa em uma coisa, gastar.
Lembrei-me
da minha infância, quando minha já nonagenária Tia Bela, ainda em seu vigor de
pouco mais de sessenta anos, percorria o Paraguai indo de loja em loja,
buscando o melhor preço e produto, fazendo eu e meus primos, ainda crianças,
cansar as pernas de tanto andar por ali. Uma loja em particular era sempre
buscada além do tradicional Shopping China, a Studio Center.
Em
seu auge, a Studio Center era conhecida por sua oferta de produtos de
informática e eletrônicos. Quando criança ficava boquiaberto olhando
computadores, que nos anos 1990 eram artigo de luxo, somente visto em filmes de
Hollywood, além dos videogames, que eram meu sonho máximo de consumo infanto-juvenil.
Minha memória de infância foi ativada quando passei sem nenhum planejamento na
frente da Studio Center, não ia fazer mal entrar pra dar uma olhadinha...
Como
que retomando para aquela criança de quase trinta anos atrás, vi pelo vidro da
vitrine um videogame retrô, uma versão importada do antigo Nintendo 8-bits, o
Nintendinho, meu primeiro videogame. A criança que há dentro de mim se fascinou
como que quase trinta anos antes, pedindo, implorando, fazendo juras por aquele
vídeo game. O preço não era tão proibitivo assim, cerca de quinhentos reais. Será
que eu deveria comprar aquele vídeo game?
Dada minha atual conjuntura financeira, aquele
videogame seria um rombo em minhas finanças, que andam sempre no limite do
limite. Desta vez não seria meu pai que diria “Isso é caro demais”, o adulto
Diego teve que convencer a sua criança interior que não era possível. Como que
quase trinta anos antes, saia do Studio Center uma criança decepcionada,
sonhando com um videogame que não teria em minha coleção.
Pelas
ruas do comércio seguimos, e aos poucos, eu e Polaco comprávamos uma coisinha
aqui, outra ali, quando demos por nós, havíamos gastado o pouco dinheiro que
tínhamos. Com itens muito necessários, tais como mochilas de qualidade duvidosa,
meias vendidas em sacos de vinte pares delas, doces exóticos e deliciosos,
Pringles de sabores variados que só existem no Paraguai, e um presente cuidadosamente
escolhido por Polaco para Bruna, sua namorada, terminamos nosso passeio cheio
de compras e sem dinheiro pelo resto do mês. Íamos felizes para o carro, cheios
de sacolas e carteiras vazias. Ao nos aproximarmos do nosso carro estacionado,
lá estava ele, ao sol de quase meio dia e com a porta toda aberta.
Naquele
momento já calculei os prejuízos de ter sido roubado, o que será que levaram do
carro? Me aproximei já lamentando o infortúnio, adentrando o carro rapidamente
para notificar as perdas tidas naquele furto. Mas o carro parecia igual quando
o deixei, tudo estava lá no mesmo lugar, matando assim a charada: Não havia
ladrão nenhum, foi somente eu saindo ansioso para ver a estátua e esqueci a
porta aberta...
Por
fim, nossa missão estava cumprida no Paraguai. Voltamos para a fronteira e almoçamos
no tradicional Shopping China. Nosso almoço foi um balde de frango do KFC,
tendo em vista que gastamos boa parte do dinheiro que tínhamos, um fast food
pareceu o valor mais em conta para se ter um delicioso e nutritivo almoço.
Estávamos assim prontos para seguir viagem, indo rumo a Ivinhema.
Uma
viagem na fronteira Brasil-Paraguai é um ótimo rolê, minha sugestão para quem
passar por lá, é levar o kimono para treinar na Gracie Barra Ponta Porã e depois
cair para Pero Juan Caballero Paraguay, e gastar o dinheiro que tem, e que não
tem, comprando as maravilhas dos importados paraguaios.
Desta vez íamos rumo ao desconhecido mesmo, havia estado uma vez somente em Ivinhema, mas não conhecia nada sobre a academia que visitaríamos, somente tendo tido contato via WhatsApp com o professor Hélinho da Fight Sports Ivinhema. O que encontraríamos lá? Como seriamos recepcionados? Haveriam muitos alunos? Tudo se resumia a incógnitas, as quais não me delonguei em pensar sobre, somente ia seguindo a estrada, feliz da primeira parte ter sido cumprida, mas chateado por não ter aquele vídeo game em minha bagagem...
Querem saber como foi nossa experiência em Ivinhema? Chegamos inteiros, e a tempo, em Dourados? O mundo sobreviveu a Amarelão nos dias que estive fora? Esta e outras perguntas serão respondidas na parte dois. Não percam os próximos capítulos desta saga, na mesma página, talvez no mesmo horário, mas sempre com a mesma emoção de viver uma Aventura de Jiu-Jitsu pelo MS, até breve!
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