Crítica do Filme O Faixa Preta: A Verdadeira História de Fernando Tererê

             



            Acabo de assistir ao filme baseado na vida do lutador Fernando Tererê. Para quem não sabe, este não é o primeiro filme que tem o Jiu-Jitsu Brasileiro como tema. Em 2008 tivemos o sofrível Red Belt, um filme que no papel não parecia tão ruim, e contava com a participação de atores brasileiros que fizeram sucesso posteriormente em Hollywood, Rodrigo Santoro e Alice Braga, mas nem a participação deles salva o filme de ser muito ruim.

Temos ainda outro que não fica tão longe de “Red Belt”, o também duro de assistir, “Nascido Para Vencer” de 2020. Se quiser tentar a sorte com este filme, vá em frente, mas já lhes aviso que é duro de assistir. Isso sem falar do filme que tem Nicholas Cage no elenco, o famigerado “Jiu-Jitsu”, que de Jiu-Jitsu não tem nada, e é apenas uma ficção científica bem ruim.

Com esta coletânea de péssimo conjunto entre cinema e Jiu-Jitsu, confesso que fiquei com um pé atrás quando soube da produção de um filme sobre a vida de um lutador o qual conheço bem a história. Fui assistir com uma certa desconfiança de o filme “O Faixa Preta: A Verdadeira História de Fernando Tererê” fazer parte desta lista de bombas cinematográficas, vejamos se foi.

Quando o assunto é trazer para o cinema biografias de artistas marciais brasileiros, o cinema nacional ainda está bem jovem, com poucas produções do tema. Tivemos o filme que conta a biografia do boxeador Éder Jofre, “Dez Segundos Para Vencer”, tivemos sobre a vida do Judoca Max Trombini “A Grande Vitória”, e sobre um lutador de MMA “Mais Forte Que o Mundo: A História de José Aldo” (Este eu não gosto nem um pouco por vários aspectos). E agora, pela primeira vez, temos um longa-metragem focado na biografia de um lutador de Jiu-Jitsu Brasileiro.

Mas deixemos de enrolação e vamos direto ao meu veredito. O filme é bom?  sim, achei que é um filme, que dentro das limitações orçamentárias que teve, se saí bem. Mas sejamos justos em reconhecer que ajuda muito o fato de termos carinho pelo personagem biografado.

            O filme nos ambienta bem no cenário em que se passa boa parte das ações do longa, o Morro do Cantagalo. Neste cenário, conseguimos nos conectar com a vida de um jovem vivendo as alegrias e dificuldades do dia a dia na favela. A dinâmica da vida do protagonista com sua família e amigos, nos ajuda a simpatizar com ele nos momentos iniciais em que conhecemos o jovem Fernando Augusto, conhecido neste tempo como “Menor”. O início é bem interessante acompanhar Fernando Augusto crescendo e contornando as dificuldades de seu ambiente social.

       O Jiu-Jitsu é a todo momento bem representado no filme, destacando todas as qualidades que a arte tem. Demonstrando como a arte marcial se inseriu e passou a fazer parte integrante do ser de Fernando, que entra para a história do esporte sobre a alcunha de Tererê.

      Um dos aspectos que mais me agradou no longa, foi conseguir de maneira sutil representar aspectos da cultura do Jiu-Jitsu Brasileiro. Tal como na cena em que Tererê, ainda jovem, escapa de uma abordagem policial truculenta por ter um kimono em sua mochila. A cena é um prelúdio, em seguida vindo uma explicação perfeita para como funciona a comunidade do Jiu-Jitsu na sociedade. Ao longo do filme mais elementos culturais do Jiu-Jitsu surgem: o Creonte, o Lifestyle, a forma de tratamento hierárquico que transcende os limites da academia, além da linguagem de tatame, que a todo momento salta aos ouvidos do espectador mais atento.

      Nem tudo no filme é perfeito, e estamos aqui para criticar, certo? Então vamos lá. Um dos pontos negativos, que para mim é um mal do qual o cinema nacional padece, é a propaganda excessiva e mal inserida na trama, tornando a apresentação das marcas que patrocinam o longa quase que onipresentes na trama.

        Outro ponto que não me agradou, foi uma estética muito limpa do Jiu-Jitsu dos anos 1990 e 2000. Algo que não consegui deixar de notar quando via os atores sempre com quimonos claros, limpos e uniformes. Caso tivesse que mudar algo no figurino, seria trazer esta estética mais próxima do que era na realidade daquele tempo, com quimonos que realmente deem a impressão de estarmos naquele momento histórico. Para quem não conhece Jiu-Jitsu, isso passa batido, mas para quem conhece, acredito que a maioria do público interessado em assistir ao filme, este detalhe vai gerar uma estranheza.

Outra crítica que não poderia deixar de tecer, é quanto aos cenários dos campeonatos. As lutas parecem todas acontecerem no mesmo ginásio, mesmo modificando, as vezes, a cor do tatame, me passaram a impressão de acontecerem em um grande espaço com pouco público. Claro que a limitação de orçamento não faz possível grandes cenários, mas com um pouco mais de inspiração na realidade, poderiam ter trazido o clima de calor humano próximo e desorganização que eram os campeonatos durante o auge da carreira de Tererê no final dos anos 1990 e 2000. A escolha por planos abertos nestes cenários, não ajudou a ambientar o expectador na grandiosidade das competições vencidas pelo protagonista, algo que seria facilmente contornado com imagens reais misturadas com planos fechados nos lutadores, a exemplo do que fizeram na cine biografia de Maradona.

As coreografias de lutas, que no cinema ainda não são muito boas quando se trata de retratar lutas agarradas, neste filme se saí bem. Não temos grandes coreografias, nem lutas que sejam muito emocionantes, mas o longa acertou em se manter fiel a como estas lutas se desenrolaram na realidade em que se inspiram. Quem quiser comparar, basta assistir as lutas reais que inspiram o filme, e verá que a produção caprichou na exatidão dos momentos, e em apresentar as principais técnicas aplicadas por Fernando Tererê.

O roteiro anda em um bom ritmo, apresentando, dando vida e interação entre o protagonista e os coadjuvantes. O ator que interpreta Tererê, Raphael Logam, se saí muito bem, alguns coadjuvantes também, já outros nem tanto. O roteiro prima pelo trivial, avançando a história de uma forma bem fluída, focada não na luta, mas sim no drama da vida do protagonista.

Um dos detalhes que consegui pescar foi o cuidado primoroso em inserir lutadores reais em meio aos atores. Um recurso conhecido como Easter Eggs, em bom português, referências ocultas só capitadas por quem realmente conhece este meio retratado pelo filme. Um Easter Egg que tem no filme é o lutador real estar ao lado do ator que o representa, não percebeu? Volte e dê uma procurada que irá achar, para quem ainda não viu o filme, fique atento.

Posso dizer que conhecia bem está história, e o que vi na tela foi uma boa representação dela, reduzindo bem, mas sem diminuir a natureza dos fatos da vida de Tererê. Quem assistir verá com uma boa exatidão aquilo que realmente aconteceu na vida de Fernando Tererê, como ele foi do estrelato para o fundo do poço, e sua redenção. O filme consegue demonstrar bem quando, como e quem ajudou Tererê em seus piores momentos, sem apelar no drama.

Meu receio inicial ao filme, baseado naquilo que já havia visto em filmes semelhantes, foi sendo superado conforme o avançava. Terminei ao filme com um sentimento de satisfação, bem satisfeito em ver na tela aquela história que já conhecia, e a qual sempre achei digna de um bom roteiro de filme.

O Jiu-Jitsu é uma usina potente de grandes histórias, muitas das quais dariam uma infinidade de ótimos filmes também. Espero que a aceitação do púbico traga atenção de mais cineastas para estas grandes histórias que o Jiu-Jitsu tem.

Quem assistir ao filme, verá um belo exemplar do “Baseado em fatos reais’, que conta uma história incrível da trajetória de glória, agonia, dor e superação de Fernando Augusto Tererê.

Por fim, só posso dizer, vale a pena assistir!

 

 

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