Jiu-Jitsu Adventure MS: Ep 02. Carlson Gracie-MS: A Essência do Jiu-Jitsu Old School
Acordei pela manhã sentindo dores por todo meu corpo, o dia anterior tinha sido sugado lá nas Moreninhas. Mesmo assim, não havia espaço para que me esquivasse de minha próxima tarefa, pois não havia sido feito um convite, e sim um chamado. Aquele que me chamou era alguém de quem não havia a menor chance de dizer não, ele é uma lenda viva do Jiu-Jitsu do Mato Grosso do Sul, ele é o primeiro, único, Mestre Luís Cláudio Isaías, ou somente, Mestre Isaías.
Minha relação com o Mestre Isaías
sempre havia sido tendo ele do lado oposto ao que lutava, em tese fui sempre
rival de sua equipe. Mesmo com um passado de “rivalidade”, quando tinha a
oportunidade de conversar com o Mestre, ele sempre foi muito amistoso, além de
claro, destilar seu jeito cômico de se analisar o Jiu-Jitsu, o que torna um
papo com ele impossível de não se gargalhar repetidamente. Brinco que se o
Mestre Isaías fosse comentarista das lutas do UFC, a audiência triplicaria.
Nossos laços se estreitaram com sua
participação no Pós Treino Podcast, o qual sou um dos idealizadores. Em duas
oportunidades de entrevista (recomendo assistirem), pude conhecer melhor a
história e o legado deste, que é um dos pioneiros do Jiu-Jitsu no Estado.
Além de ser um dos pioneiros, junto com Mestre
Claudionor Cardoso e Ócio Nunes, Mestre Isaías fez parte da elite do Dream Team
da História do Jiu-Jitsu, a Carlson Gracie. Nas duas oportunidades expressei
meu desejo de fazer um treino com o Mestre Isaías, o qual ele na hora aceitou a
ideia, mas até o momento os compromissos profissionais não haviam me deixado fazer
esta visita. Desta vez a conjuntura do
universo permitiu que esta oportunidade me surgisse, e não iria deixar escapar.
Convoquei meu companheiro de
aventuras, Luan Pimentel, o Polaco, desta vez não poderíamos ter Bodão no time,
seu alvará funciona somente pela parte da tarde, então seriamos uma dupla desta
vez. Polaco sentia também os efeitos do treino do dia anterior, o que fez com
que meu convite a ir fosse perfeitamente compreensível caso recusado, mas
recusar um treino não é da natureza dele, e mais uma vez iriámos rumo ao
desconhecido.
Pelo segundo dia consecutivo
estávamos atrasados, já era quase onze e meia, e Polaco ainda não havia
chegado. Quando finalmente chegou, e nos preparávamos para sair, eis que chega
um desavisado aluno acreditando haver um treino naquele horário. Em época de
fim de ano, a grade de aulas vai ficando mais enxuta, por conta da baixa de
muitos alunos nesta época do ano, assim, não haveria o treinamento que o aluno
buscava.
O aluno desavisado é Geovani,
carinhosamente conhecido como Gigio. Ele é um recém graduado faixa azul, um
entusiasta nato do Jiu-Jitsu, o qual conheceu já depois dos trinta anos, e que
durante sua jornada inicial buscou todo tipo de recurso para se aperfeiçoar suas
habilidades. Conhecendo a empolgação deste meu aluno, lancei o convite:
“Aí Gigio, tamo indo lá no Mestre
Isaías dar um treino, tá afim de ir?”
Ele me encarou e por alguns segundos,
fez contas na sua mente, talvez pensando em horário para voltar ao trabalho, ou
se não seria perigoso ir treinar em outra academia que não conhecia ninguém,
soltando a indagação de quem está tentado a ir, mas que ainda tem receio:
“Será?”. Suas contas duraram pouco tempo, rapidamente ele me olhou e abriu um
largo sorriso, dando assim seu veredito: “Bora!”. Com o terceiro componente de
nossa trupe, partimos rumo à academia do Mestre Luís Claudio Isaías, alinhando
o espírito para sobreviver á mais uma aventura em tatames nunca dantes
visitados por nós.
A academia Carlson Gracie MS fica
próxima a uma movimentada avenida da cidade de Campo Grande, a avenida Fernando
Correa da Costa, tendo como ponto de referência, o tradicional Ginásio da Mace
(Não mais chamado Mace, e sim Elite). Para quem é das antigas, vai guardar boas
recordações daquele ginásio, que poderíamos dizer que a Mace foi o Tijuca Tenis
Club para o Jiu-Jitsu do Estado. Durante seus tempos clássicos do passado já
distante, grandes duelos esquentavam ainda mais aquele pequeno ginásio, muitas
estrelas locais ascenderam naquela arena.
A rua que fica a Carlson Gracie MS é
um pouco mais calma que a avenida principal, sendo simples de estacionar.
Geovani já demonstrou seu primeiro receio, ficando assustado com a fila de
carros que estavam estacionados: “Pô Mestrão, tem gente pra caramba lá dentro
parece”, tentei amenizar a situação: “Nada, deve ser pessoal dos outros
prédios”. Logo em seguida Geovani fez um último apelo: “Se me baterem você vai
me ajudar né?”, respondi com frieza: “Depois que entrarmos lá é cada um por
si”, seguido por uma risada sarcástica de Polaco, demonstrando que a partir
daquele ponto, Geovani seria um faixa azul recém graduado adentrando a cova dos
leões.
Uma fachada não tão grande demonstra
que local é aquele. A fachada da academia é adornada pelo logo mundialmente
conhecido no Jiu-Jitsu, os rostos de dois buldogues enfurecidos, anunciando que
ali está a Carlson Gracie MS. A simbologia que aquele logo dos buldogues tem,
faz com que o tamanho daquela fachada multiplicar em significado.
Uma
das particularidades interessantes, é que além da Carlson Gracie MS divide
academia com a Tatuapu Team, antiga 300, um time de muita tradição, liderada
por um dos mais famosos e conhecidos nomes do Jiu-Jitsu de Mato Grosso do Sul,
Alan Régis, o Tatuapu.
A entrada é por um corredor
estreito, um tipo de entrada bem comum nas academias de Jiu-Jitsu dos anos 1990
e 2000. Conforme se avança pelo corredor, toda expectativa de quem, ou o que
encontraríamos lá dentro, crescia a cada passo. Para mim, que já tenho uma
vivencia de anos adentrando diferentes academias, é uma boa expectativa,
acredito que de Polaco também, ele é acostumado com treinamentos com
companheiros que não são do seu time, mas para Geovani é diferente. Conseguia
sentir o nervosismo de Gigio, com certeza para ele aquele corredor parecia
muito maior do que realmente é.
Ao final do corredor uma catraca é o
sinal que chegamos mesmo. O salão do tatame é muito maior do que poderíamos
imaginar ao adentrar o estreito corredor. Lá no centro do Tatame estava o
Mestre Isaías, vestindo kimono preto, contrastando com sua pele negra.
Rodeado
por muitos alunos, variando em idade, faixa e peso, lá estava a lenda, pela
primeira vez iria experimentar como era o treino do Mestre Isaías. Em uma
primeira vista, parecia que a categoria Master era a mais representada dentre
os alunos do Mestre. Sentados todos em um círculo, observam atentos as
instruções dele, indo da seriedade de quem irá fazer um treino duro, para o
riso quase que instantâneo conforme o Metre Isaías discursava.
Mesmo ao longe, o Mestre nos
recepcionou com sua simpatia inerente, indicando o local para nos trocarmos para
adentrarmos o tatame. O mais rápido possível nos trocamos e viemos para o
tatame, adentrando discretamente o círculo formado. Mestre Isaías nos
apresentou de forma resumida, “Hoje temos aqui o pessoal da Barra Gracie”,
utilizando o termo “Barra Gracie”, o que já demonstrava que estávamos de volta aos
tempos áureos do Jiu-Jitsu dos anos 1990, quando esta era a forma de se referir
a equipe Gracie Barra.
O treino era um aberto as academias
filiadas á Carlson Gracie MS, e nós como convidados externos. Para começar a
aquecer, Mestre Isaías iniciou com uma saudável troca de pegadas. O calor de
meio dia batia forte dentro daquele salão, o que fez rapidamente o corpo
aquecer tão logo as primeiras disputas se iniciaram. Cada companheiro de treino
vinha com um ímpeto forte, se esforçando pela conquista da melhor pegada,
obrigando-nos a nos esforçar para conseguir controlar as ações. Já no
aquecimento deu pra ter uma prévia que o treino seria dureza.
A
metodologia do treino era simples, mesmo assim foi algo que para mim pareceu
inovador. O treino seria livre, sem um relógio marcando tempo, ou alguém
casando os parceiros nos rolas. Mestre Isaías somente nos advertiu “Pega e vai
brincando, cansou, sente descansa, depois chama outro, e assim vai indo meus
queridos”.
Quando
o treino iria iniciar, eis que chegou Alan Régis, o Tatuapu, aparentemente não
demonstrando que iria participar do treino. Haviam muita gente no tatame, e
todos ali conheciam o potencial de luta que tinha Tatuapu, mas pelo visto não
seria um dia tão difícil para ninguém, pois ele ficaria somente nos observando.
No
meu primeiro treino já tive uma dureza, um rapaz faixa preta que era uma figura
familiar para mim, não o via a muito tempo, mas me lembrava dele fazer parte de
uma geração boa de atletas. De kimono vermelho desbotado, ele demonstrou que
mesmo não estando participando do circuito competitivo, ainda é um lutador com
muita força e agilidade, vindo dele a primeira pergunta que seria a que mais
escutaria “Ta pesando quanto?”.
Após
este primeiro treino, convidei meu amigo de tantas arbitragens, Tito. Recém
graduado faixa preta, Tito veio com muita disposição para o rola. Foi muito
legal pela primeira vez fazer um rola com alguém que já por tanto tempo tenho contato
no Jiu-Jitsu, mas que nunca havia tido a oportunidade de treinar. Tito me
demonstrou um dos aspectos mais interessantes do Jiu-Jitsu da Carlson Gracie
MS, não desistir e ir até o limite.
Conforme
o treino passava, quase não conseguia notar como estavam indo meus companheiros
de aventura, Polaco parecia se divertir indo um rola atrás do outro sem
descanso, enquanto Giovani parecia que a cada treino tinha saído de um mar
revolto, esbaforindo e buscando ar para sobreviver a mais um rola.
Estar
no tatame da Carlson Gracie MS é viver um pouco da experiência que foi o
Jiu-Jitsu da lendária Carlson Gracie. Quando entrevistado por mim, Mestre
Isaías definiu que os treinos na Carlson nos tempos em que era aluno eram muito
simples, se dividiam os grupos, e iam saindo na porrada. Segundo Mestre Isaías,
Carlson ia somente em pontos específicos dando ajustes que achava necessário,
sendo que cada um daqueles detalhes era algo que mudava a visão de luta do seu
aluno. De certa forma me senti exatamente vivendo aquela metodologia treinando sob
a batuta do Mestre Isaías.
O
treino seguia tranquilamente, eis que chega ao tatame, já vestindo quimono,
Alan Tatuapu. Os presentes sabiam todos a encrenca que era um treino com ele,
eu mesmo tinha plena noção do tamanho da encrenca. Tive três oportunidades de
lutar com ele no passado, uma na faixa roxa, outra na marrom, e a última na
preta. Nas duas primeiras oportunidades nem tem como contar como sendo uma
luta, pois Alan passou minha guarda como se nem existisse, me finalizando tal
como se eu tivesse começado recentemente a treinar. Nossa última luta já foi
mais parelha, mesmo assim não foi o bastante para que o vencesse. Seria
interessante a oportunidade de testar minhas técnicas com ele depois de tantos
anos.
Fiquei
esperando a oportunidade, mas esperaria o chamado dele. Alan fez um primeiro
rola de aquecimento, e em seguida me olhou sentado observando seu treino, bem
respeitosamente me convidando para fazer um treino. Fiquei feliz e empolgado com
a oportunidade, ao mesmo tempo um pouco nervoso, já que sabia que não seria
desafiador aquele rola.
Procurei
elevar o máximo de concentração para aquele treino, sabia que com ele um
segundo de distração é fatal. Em um resumo, treinar com Tatuapu é entrar em uma
outra dimensão de Jiu-Jitsu, aonde força e técnica andam alinhados, e todos os
movimentos dele são um verdadeiro perigo.
Fazer aquele treino com Tatuapu foi uma grande
oportunidade de treinar com um dos melhores lutadores já produzidos pelo
estado. Alan também foi um dos entrevistados do Podcast, um dos episódios mais
vistos e comentados, o que me ajudou a conhecer melhor sua trajetória e não
sermos tão distantes para um treino amistoso. Depois de treinar com ele, entendi ainda melhor a atenção toda
que a figura dele atraí, pois seu o Jiu-Jitsu dele é muito refinado, técnico e
agressivo. Polaco também teve a oportunidade de testar sua técnica com ele,
concordando com minha análise do que é treinar com Tatuapu.
Após
o treino sobrevivência com Alan, fui chamado para rolar por um legítimo
representante da categoria Master. Um senhor, aparentando já ter passado dos quarenta
anos, cabelos brancos, grande, e com toda certeza muito forte. Este rola me
apresentou um excelente desafio. Gosto muito de testar meu Jiu-Jitsu clássico
com os Masters, com este treino não foi diferente, com nós dois travando muita
briga de guarda fechada.
Gosto
bastante de fazer um treino explorando a técnica clássica, esquecendo um pouco
do Jiu-Jitsu Moderno, trabalhando a boa e velha técnica básica. Nada melhor que
brigar numa dentro da tradicional guarda fechada, disputando cada pegada para
não dar chance de o adversário avançar... Isso sim é o bom e velho Old School!
Em
todos os treinos que fiz, se repetiu a pergunta do parceiro sobre qual era meu
peso. A curiosidade quanto ao peso, me recordou do conceito de que o peso do
adversário é um elemento importante na estratégia de luta. Este conceito para mim
fez sentido com a técnica da escola, principalmente quando associo com a
tradição no passado da Carlson Gracie de dominar as várias categorias de peso
no cenário competitivo
O
Jiu-Jitsu da Carlson Gracie-MS é um estilo duro, competitivo, mas muito
técnico, tanto é, que foi um treino em que ninguém se machucou. Todos os
treinos que eu e meus companheiros de aventura tivemos foi de grande valia, e
cada um dos alunos da Carlson Gracie MS nos serviu com o melhor do Jiu-Jitsu
que lá é aprendido.
Aos
poucos a atividade do tatame foi ficando menos intensa, e o treino terminou
quase que naturalmente, com os participantes dele tendo deixado tudo que tinham
ali naquele tatame. Mestre Isaías ao final anunciou: “Vocês fizeram quarenta
minutos de porrada meus queridos”.
Após finalizado o treino, tiramos a
tradicional foto que marca o registro daquele glorioso dia, e pude trocar ideia
com amigos das antigas, alguns que não via fazia muito tempo. Enquanto algumas
fotos eram tiradas, uma mulher, a única presente neste treino, anunciou que
estava tirando umas fotos para seu blog, por estar bem distante dela no tatame,
não pude conversar e ter mais detalhes sobre o blog dela, sendo esta a centelha
que me ascendeu a ideia de criar este blog em que vos escrevo.
Antes
de terminar, ainda tive mais um rola a fazer. Um rapaz, que parecia ter a minha
idade ou pouca coisa mais jovem, faixa marrom, o qual tinha treinado brevemente
durante a troca de pegadas, parecia muito querer fazer um treino comigo. Deu
para perceber que ele é bem forte fisicamente, me lembrei de já tê-lo visto se
destacando no cenário competitivo. Alan pediu para que fizesse um treino com
ele, parecendo empolgado na possibilidade para seu aluno.
Em
um rola bônus, tive mais uma experiência de treino duro e competitivo, o qual
foi interessante ter sido feita naquele estágio, depois de ter gasto boa parte
da energia que tinha. Realmente o rapaz tem tudo para se destacar ainda mais,
pois tem muita força, boa base e agressividade no ataque. Procurei sobreviver
aos seus ataques, tendo muito pouco para lhe oferecer em perigo de
contra-ataque, os dois dias haviam sugado praticamente toda minha energia.
Naquele dia pude perceber que Mestre Isaías seguia a essência do Jiu-Jitsu Old School, mantendo viva a tradição de ensino estilo Carlson Gracie. Quem quiser viver uma experiência mais próxima do que foi o Jiu-Jitsu que moldou grandes guerreiros da história, não pode deixar de ir visitar a Carlson Gracie-MS, mas aviso logo, vá com o espirito preparado.
Terminamos
o treino com a satisfação de sobrevivermos a dois dias seguidos de muito
Jiu-Jitsu, conhecendo escolas com estilos diferentes, e que nos proporcionaram
experiências que nos tiraram de nossa zona de conforto.
No
dia seguinte, o corpo estava completamente fadigado, me lembrando meus tempos
antigos de competição. Nosso desavisado aventureiro, Geovani, pareceu ter
gostado bastante da experiência, me mandando mensagem querendo fazer uma outra
visita, prontamente respondida da seguinte forma:
“Tô
todo quebrado Gigio, a aventura volta só ano que vem!”
Sobrevivemos
a dois dias de intensa jornada, mas não sei se conseguiria fazer novamente
visitas assim seguidas. Agradeço o fato de tudo ter dado certo e no final o
saldo ter sido positivo.
E
aqui estamos, prontos para viver mais um ano de aventuras, que 2023 seja
repleto de mais Jiu-Jitsu Adventure MS. E aí, onde será que iremos na próxima?
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